sábado, 10 de dezembro de 2011

A criança


 
Quanto vale uma pessoa? Ingénua e convictamente, consideramos destituída de sentido semelhante pergunta, por ser a resposta de uma evidência cristalina. Então não é incomensurável a dignidade humana? Então, a raiz de cada ser humano não navega naquela abertura infinita que nos torna inalienáveis?
Era uma menina num país longínquo, do outro lado do mundo, com o qual poucas afinidades civilizacionais partilhamos — a grande China de riquíssima cultura ancestral. Distraída, atravessa a estrada. Vive naquela despreocupação infantil que torna pura a vida e opaco todo o perigo iminente. É o futuro escancarado sobre a esperança, sem trevas que a possam toldar. E corre, assim, na estrada estreita de um denso bairro enxameado de pobreza. Súbito, um camião avança de dentro da névoa espessa, abalroando, talvez inconscientemente, o corpo desamparado. Quedou-se. Quem sabe tenha sentido o ressalto do camião sobre qualquer coisa indistinta. Talvez fosse apenas um objeto inerme e abandonado. E recomeça a marcha rumo aos afazeres quotidianos. E a roda traseira esmaga de novo o corpo moído.
Um tempo de espera. É demasiado cedo. Poucos se aventuram pela madrugada infantil nas ruas desertas. Mais tarde, inadvertidos transeuntes passam e veem, mas não reparam, que para tal é necessário olhar com a intensidade da vida para lá das inúteis aparências de um corpo jazendo como lixo no meio da rua. De novo o silêncio. De novo alguns carros que pisam e moem o volume de carne no chão esvaído. E sob a indiferença da madrugada, novos transeuntes se passeiam junto aos restos, como outrora dois homens na estrada que descia de Jerusalém para Jericó, alheios ao corpo roubado e espancado, cosido à poeira do caminho. A mesma indecência separada por dois mil anos de história. A mesma negligência que teima em habitar, sem culpa nem vergonha, no coração gelado da distância humana.
De dentro de um abrigo, talvez procurando aquela estranha ausência, sai uma mulher. Diante dos despojos macerados, todo o sofrimento se condensa nos esgares do rosto, nas lágrimas severas, nos gemidos inconsoláveis, nos gritos informes. E toma nos braços não apenas o corpo disforme, mas a infinita razão de um amor apunhalado.
E nós persistimos em perguntar quanto vale uma vida humana. Entre as fórmulas abstratas inscritas em Declarações, com que a maior parte da humanidade diz concordar, e a cruel realidade dos factos corre um oceano estéril de tanta insensibilidade, demolidor de todos os encontros, de todas as identificações, de toda a verdade que a vida promete.
Sentados no conforto do nosso habitat, o ecrã televisivo desfia inverosímeis histórias que nenhum romance ousa narrar. Se é o amor que salva, como creio que é, longe estamos de abrir sobre todos os seres essa pulsão fundamental que tudo cria e recria num movimento incessante contra a ruína do ser. E só ele nos resgata à mortal indiferença. É de nós mesmos que o amor nos redime. Basta que abandonemos o coração aos apelos sussurrantes mas instantemente repetidos da vida para que um ser humano — qualquer que ele seja, qualquer que seja o espaço onde habita ou o tempo da sua presença efémera — tenha o valor de quem existe e se move no coração da própria eternidade.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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