sábado, 31 de dezembro de 2011

O culto da personalidade


 
O culto da personalidade é um dos piores defeitos do dogmatismo. Não encontrando em si mesmo razões que possam suportar atitudes, comportamentos e decisões, o dogmático instala-se naquele nicho de aparência que identifica alguém como modelo ideal de toda a ação. Assim se submete acriticamente à forma de existência que outrem escolheu, como se fosse a melhor maneira de conduzir a vida, sem jamais a pôr em questão. É no outro, elevado a modelo supremo da verdade e, por isso mesmo, intocável, que o dogmático descortina a verdade. Kant afirmava ser a preguiça o móbil de tamanho revés humano: incapaz, por mera indolência, de conduzir a vida a partir de razões que a inteligência pessoal avista, quando acolhe a aventura do esforço racional, o dogmático encosta-se ao ânimo de outrem, parasita-o, diminuindo a condição de humanidade que em si mesmo deveria achar.
Do lado oposto mas em sintonia com a mesma atitude básica, alguém se aproveita de tais dependências para catapultar a própria imagem até onde seja possível levá-la, por forma a reforçar o poder sobre as consciências alheias até nelas expulsar toda a forma crítica de pensamento. E é triste ver como as pessoas se deixam manipular pela vontade de outrem até esmorecer toda a perspetiva crítica, vivendo na completa dependência e negando a liberdade que configura o ser humano.
Vem isto a propósito dos recentes acontecimentos na Coreia do Norte. O que me causou maior inquietação não foi a morte de Kim Jong-Il — ditador sem escrúpulos que manteve a ferro e fogo um sistema totalitário, militarista e violento —, mas as manifestações histéricas de cidadãos que nele depositaram toda a razão da sua existência. Líder incontestado, conseguiu, através de uma forte propaganda interna e do fechamento do país a toda a «maligna» influência externa, que o culto da sua personalidade se transformasse na religião oficial da Coreia do Norte. E não há dúvida que estamos perante comportamentos e sentimentos especificamente religiosos, nos quais se manifestam quase todos os ingredientes de uma fé não esclarecida, sobretudo a submissão inabalável a um salvador, envolto em rituais oficiais e oficiosos que alimentam o dogmatismo e a dependência acrítica.
Mas não julguemos que esta realidade se encontra apenas em sistemas políticos totalitários. Infelizmente, também os podemos reconhecer, mutatis mutandis, em sistemas religiosos que tendem a diminuir a ação racional dos seus fiéis e a exaltar a obediência a um líder (humano). Alguns dos chamados novos movimentos religiosos enveredaram por este perigoso caminho. Os mais radicais de todos eles conduziram mesmo os seus fiéis mais fundamentalistas a uma morte cruel. Foram vítimas, antes de mais, da inteligência anestesiada pelo culto da personalidade do incontroverso chefe. E nem sequer a Igreja Católica está inteiramente isenta deste terrível erro. Desde a Idade Média que os papas, apoiados no prestígio europeu e mundial da instituição que representam, têm apelado à obediência (quase cega) às suas posições, como se fossem deuses sob vestes humanas.
E não há dúvida de que o culto da personalidade é desumano e digno de toda a reprovação. Nenhum ser humano pode estar acima do juízo crítico dos demais, porque ninguém possui a verdade. E é no processo de procura incessante da verdade que todos nos devemos reconhecer. Qualquer que seja o papel que se desempenhe na sociedade ou nas instituições, jamais se estará acima de toda a suspeita. Somos estruturalmente imperfeitos. Nenhuma opção ou ideia tem privilégios que a tornem imune ao erro e, portanto, esteja a salvo do escrutínio dos outros. E é neste processo de crescimento humano, aberto e tolerante, que toda a educação deve apostar, para que nenhum invasor nos sufoque a razão, a vontade e a liberdade criadoras.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

«Os portugueses»



Barry Hatton integra um já longo elenco de estrangeiros que escreveram sobre Portugal. E aprendemos sempre muito com esse distanciamento crítico que escancara diante de nós as nossas vulnerabilidades. De uma forma geral, trata-se de uma visão mais objetiva, apesar da conexão que eles possam ter com Portugal e os portugueses, do que a que nós próprios temos sobre o conjunto de virtudes e defeitos que nos configuram a vida. O seu excelente livro «Os portugueses» põe a nu as contradições da nossa personalidade coletiva, com rigor e imparcialidade, o que não significa que tenhamos de estar de acordo com todas as afirmações que faz a nosso respeito.
Sobressaem as virtudes da adaptabilidade a novas situações, da hospitalidade e da amabilidade, envoltas numa aura pacífica e romanticamente sentimental. No lado mais obscuro do carácter nacional, é de salientar um certo anarquismo pacato que se manifesta na aversão à lei e na maneira informal (e até ilegal) de se orientar na vida e nos expedientes utilizados para ultrapassar a ordem legal e burocraticamente estabelecida — muitas vezes insuportável —, a desorganização individual e coletiva, a indiferença em relação à ação política e à intervenção cívica, a ausência de empreendedorismo corroborada pela forma profundamente conservadora de encarar a vida, que provoca imobilismo e atraso endémico.
É hoje urgente, no centro de uma crise estrutural, que as virtudes sejam acarinhadas e os defeitos seriamente ultrapassados para que o presente se transforme em esperança ativa e o futuro seja planeado sem deixar ao acaso as múltiplas possibilidades que a vida contém. Abandonar aquele fatalismo estático que constitui pano de fundo das nossas crenças coletivas é condição de possibilidade do triunfo num mundo globalizado e competitivo. Oxalá queiramos sair deste marasmo obstrutivo onde nos afundámos há alguns séculos!


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

sábado, 24 de dezembro de 2011

O Natal e a família

 Murillo, Adoração dos Pastores

 
O Natal é uma das mais atrativas festas cristãs. E de tal forma assim é que, quando pergunto aos meus alunos qual é a festa cristã mais importante, obtenho invariavelmente a mesma resposta: o Natal. É certo que o centro das solenidades cristãs é a festividade da Páscoa, mas dado o caráter apelativo e emotivo que o Natal transporta, esta solenidade ombreia, no coração dos crentes, com a mais importante de todas elas.
Uma das mais marcantes dimensões do Natal é a sua valência familiar. Símbolo disso mesmo, o presépio representa uma família no ato de acolher um recém-nascido, o Cristo de Deus que naquele instante assume a mais completa fragilidade humana, inteiramente dependente dos pais para sobreviver e para crescer. Ameaçado pela barbárie do poder de Herodes — um rei que proclama na prática a sua absurda omnipotência—, o Menino está à mercê da bondade divina, que para ele tem um desígnio, e da ação concreta dos seus pais.
E é assim também nas restantes famílias. A precaridade da vida de um recém-nascido é um grito calado solicitando um cuidado constante nas mais pequenas situações da vida humana. E só muito mais tarde, muitos anos depois, aquela dependência integral dá lugar à livre vontade de se afirmar autonomamente frente aos pais e à sociedade em que vive. Mas entretanto terão de passar muitos invernos sobre a pequenez de uma criança.
Assusta-me, contudo, que esse grito de auxílio não veja sempre do outro lado aquela ternura, aquela disponibilidade que se espera encontrar. E assim, as notícias vão dando conta de um recém-nascido abandonado na frieza morta do chão ou até junto aos restos de um fétido contentor. Ou, se quisermos ser mais autênticos, basta lermos, estupefactos, os relatórios da UNICEF dando conta das mais de vinte e duas mil crianças que morrem todos os dias no mundo por causas evitáveis. Deparamo-nos também com famílias sem condições materiais, mas sobretudo sem a estrutura anímica que sirva de suporte humano ao crescimento equilibrado dos filhos. E as crianças, vítimas de um mundo onde não pediram para nascer, são empurradas de um local para outro, porque sobram sempre, onde quer que estejam.
Há pouco tempo, vi os olhos tristes de um menino à espera que o adotem. Meu Deus, aquela ânsia de vida, aquele grito calado no olhar suplicante! E como ele, muitas crianças não são adotadas enquanto bebés, porque as famílias de sangue o não permitem; e não são adotadas quando as famílias se rendem às evidências, porque ninguém se dispõe a cuidar de um pré-adolescente ou de um adolescente a quem não pôde transmitir, desde tenra idade, aqueles valores que julga essenciais à coluna vertebral de qualquer ser humano. O medo toma conta de nós. E paralisa-nos. Teremos decerto boas razões para tomar as decisões que tomamos. Mas o gesto daquelas crianças, implorando renúncia a nós mesmos, não pode ser apagado, por mais indiferentes que sejamos, por mais insensíveis que nos tornemos. Para quando a justiça plena? A justiça que oferece a todos aquilo a que têm direito? Deus saberá. Mas para nós é tão incompreensível esta realidade que somos tentados a atribuir a Deus — ao seu silêncio inexplicável — a responsabilidade que devíamos assumir enquanto seres livres e dotados de consciência moral, criados à sua imagem e semelhança.
Mais um Natal que nos deve fazer refletir sobre a nossa condição de seres frágeis, que precisam dos outros, que para os outros devem ser fraternos até que o mundo seja aquele habitat onde todos cabem e são amados. Até que Deus reconcilie inteiramente o mundo consigo mesmo.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

«Quem não está bem, que se mude!»


 
O primeiro-ministro aconselhou, na sequência de anteriores intervenções de outros membros do governo, os professores a emigrar, por forma a conseguirem condições de trabalho que o país não pode oferecer. Paulo Rangel veio mesmo propor uma Agência Nacional para gerir o processo de emigração dos portugueses (não apenas professores, mas outros quadros especializados).
A questão em si levanta dúvidas quanto à sua repercussão positiva na vida económica e social do país. Tradicionalmente, o grosso da emigração portuguesa tem sido não qualificado, por várias razões. Porque o nível de escolaridade era muito baixo, porque era exatamente esse segmento de população que não conseguia níveis de bem-estar razoáveis em Portugal e porque os mais qualificados, salvo algumas exceções, não só conseguiam penetrar no mundo do trabalho como eram necessários ao próprio desenvolvimento do país.
A situação atualmente proposta pelo governo é uma reviravolta na maneira como os portugueses têm encarado a emigração. Trata-se não apenas de tolerar o êxodo de pessoas qualificadas, mas até de promover o movimento centrífugo, descarnando o país daquilo que precisa para se erguer do marasmo em que se precipitou.
A função de qualquer governo é identificar problemas e resolvê-los, criando condições de vida aos cidadãos que sejam consentâneas com padrões considerados decentes, dentro dos limites das fronteiras nacionais. É verdade que um dos maiores flagelos é o desemprego. É igualmente verdade que a emigração poderia resolver em grande parte esta catástrofe humana. Mas pode um governo assumir como orientação política a emigração dos cidadãos nacionais para ver resolvido o problema do desemprego? É evidentemente aceitável e até necessário que ofereça apoio a quem quiser emigrar, de modo a que todos encontrem melhores condições no local de destino. Mas é de todo inadmissível que transforme num eixo político da sua governação o êxodo das pessoas com vista à solução de um problema cujos contornos são complexos e, portanto, difíceis de resolver. Para tal, não precisamos de um governo. Basta-nos uma agência de emprego com ramificações internacionais. Ao governo, a qualquer governo, é pedido que promova o desenvolvimento económico, por forma a absorver os atuais cidadãos desempregados ou que preveja a reconversão daquelas qualificações que não encontrem, no momento atual, resposta no mundo do trabalho em Portugal.
Assistimos a um conjunto de medidas de diminuição da despesa e de aumento das receitas, com vista a resolver o problema, sem dúvida real, do défice. Perguntamo-nos se, nesta voragem financeira, pode o governo cortar a eito todo o tipo de direitos sociais, incluindo os que mexem com a saúde e a vida dos menos bafejados pela sorte. Gerir as contas públicas sufocando uma multidão, sem outras políticas que resultem numa maior eficiência, organização e volume económico, transforma o governo num mero contabilista, cuja visão de curto alcance não trará qualquer futuro que nos arranque a este atraso atávico.
Só assim se percebe o apelo do primeiro-ministro: a única salvação para os portugueses é fugirem aos escombros do terramoto.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

domingo, 18 de dezembro de 2011

À procura da felicidade


 
É certo que a sociedade humana é um espartilho duro que constringe a liberdade individual nas mandíbulas dos seus edifícios legais, extremamente invasivos e tão complexos que nem os peritos conhecem esse labirinto absurdamente burocrático que pretende prever a totalidade dos eventos e domar os comportamentos pessoais.
É certo que nos sentimos cansados e abatidos pela monótona vaga de obrigações que a máquina económica nos impõe, sufocando a espontaneidade da vida e transformando seres humanos em cadeias repetitivas de produção diária.
É certo que há toda uma panóplia de figuras burocráticas mordendo os calcanhares da vida; monstro enferrujado que coarta a fulgurante criatividade humana ora pela má-fé de quem o montou, ora pela má vontade de que o executa.
É certo que as relações humanas são difíceis, por vezes até penosas, porque cada pessoa é um mundo onde a noite e o dia coabitam, por vezes indistintamente; e se nem sempre «o homem é lobo para o seu semelhante», a verdade é que tal acontece vezes de mais, obscurecendo a transparência diurna que transcorre no coração humano.
É certo que nos sentimos abalroados por toda esta miséria que nos estrangula, mas, confiante no futuro humano, pergunto-me se há alternativa exequível e benigna.
Creio surpreender dois caminhos diferentes, para além evidentemente da aceitação acrítica desta ordem que herdámos e alimentamos: um é procurarmos refundar o mundo a partir de critérios mais humanos, associando-nos a tantos homens e mulheres que ao longo da história foram perseguindo o mesmo objetivo; o outro é o exílio voluntário para onde as teias do medo e da desilusão nos não apoquentem os dias.
Ontem vi o filme Into the Wild (O Lado Selvagem); produzido em 2007 e dirigido por Sean Penn. Uma verdadeira obra de arte retratando a história verídica do protagonista, desencantado com o mundo em que vive (e, sobretudo, com a família que a sorte lhe deu), em busca daquela liberdade que só longe do cárcere da vida social pode encontrar a sua plena expansão. É o exílio voluntário de um jovem à procura da vida na natureza selvagem, longe dos olhares ameaçadores dos seus semelhantes. Porque a felicidade é esse encontro com a natureza de onde provimos, mas que teimamos em reconstruir sob a voracidade da nossa inteligência soturna.
No entanto, por onde passa, este rapaz, marcado por sonhos inquietos, vai deixando no coração dos outros a marca impressiva da sua humanidade, da sua inteligência, do seu desejo de libertação. E quando a morte se aproxima, porque não soube lidar com a impiedade da vida longe do olhar atento dos outros, percebe, tarde demais, que a felicidade se não conquista se não for partilhada.
Haverá então alternativa viável a este infindável rol de desgraças que vemos suceder-se no quotidiano social em que nos movemos? Creio que sim. E não será a fuga mundi, seja para longe da presença humana, aventurando-nos solitariamente no mundo selvagem (à maneira romântica que escritores do século XIX tão bem descreveram), seja para longe do circuito onde corre a vida com todas as suas contradições. É no turbilhão de encontros e desencontros, de vitórias e derrotas, de medos e ousadias que podemos acrescentar alguma verdade à nossa condição pessoal e coletiva. Porque não há felicidade se não for partilhada.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

sábado, 17 de dezembro de 2011

O mundo global e a implosão do capitalismo


 
Muito se tem falado e escrito sobre a crise. E como as observações versam quase sempre sobre a situação futura do país, uma vez que da situação atual, bem como das causas, já todos vão tomando consciência, não há certezas sobre a veracidade dos cenários gizados. Para alguns mais pessimistas (ou lúcidos?), somos um país sem solução. Talvez a única fresta de esperança passe pela redução a escombros de tudo quanto foi sendo erguido, porque tudo se afastou de tal forma da realidade que só a ficção pode ser bitola adequada para medir o engano em que nos atolámos. E feito o penoso percurso da verdade, poderemos então renascer das cinzas sobre bases mais sólidas, se não enveredarmos, entretanto, por causa da nossa cegueira secular, pelos mesmos ínvios caminhos da ganância e da cobiça. Contudo, Para outros, mais otimistas, a contenção atual é apenas um pequeno desvio, doloroso mas necessário, cujas consequências benéficas se farão sentir no arco temporal de dois ou três anos. E entre as duas posições, há toda uma floresta de possibilidades.
Entretanto, não podemos ter em conta apenas o que somos ou o que fazemos, os nossos planos e sua execução, por melhores que sejam. É costume dizer que um leve bater de asas de uma borboleta nos nossos antípodas pode desencadear uma violenta tempestade sobre a casa que habitamos. Isto parece ser válido tanto para as questões ecológicas e climáticas, como para as questões económicas. E o que está em jogo é o definhamento — segundo creio — das bases do capitalismo. Afinal, um pouco mais do que um mero bater de asas de uma insignificante borboleta. Enquanto os recursos financeiros forem o motor de constantes especulações, como se se tratasse de um produto como outro qualquer, que faz variar, segundo as férreas leis da oferta e da procura, os valores dos produtos reais, das empresas e mesmo dos Estados, não haverá salvação para as economias mais debilitadas. Só os grandes terão sucesso. Daremos, assim, razão ao desumano darwinismo social segundo o qual vence apenas o mais forte, revelando o seu elevado grau de adaptação às circunstâncias sociais momentâneas. E tal sucesso ocorre na proporção do desastre de todos os outros.
Precisamos urgentemente de uma nova teoria e de novas práticas que possam rescrever a história das relações económicas entre pessoas, comunidades e nações, na qual estejam salvaguardados valores como a honestidade, o mérito, a solidariedade ou a cooperação. De outro modo, que forma teremos de nos comprometermos com a vida, com a sagrada unidade da vida humana? Não sei como será. Não tenho conhecimentos especializados para inventar uma alternativa credível às atuais e lancinantes teorias e práticas económicas, mas parece-me esgotado o modelo em vigor. Esperemos apenas que os grandes revelem ter aquele pingo de humanidade que não permita, ao contemplar o desmoronamento do edifício em ruínas, que a catástrofe se abata sobre a maioria dos pobres e dos deserdados — as eternas vítimas da avidez humana.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.