sábado, 12 de novembro de 2011

«O filho de mil homens»



Um texto excelente da nova literatura portuguesa. Valter Hugo Mãe constrói uma narrativa em torno do triângulo amoroso Isaura, Crisóstomo e Antonino. Uma pujante crítica a uma sociedade mesquinha, eivada de preconceitos, intolerante em relação à homossexualidade, que identifica estupidamente virilidade com brutalidade, que atira a mulher para um lugar secundário no eixo da vida…
É, pois, uma crítica cerrada e implacável a um universo de valores ético-religiosos, ainda sobrevivente sobretudo em microssociedades rurais, que excluem a diferença ou a integram apenas como lugar de uma espécie de «caridade» balofa e desumana. E como esteio, um deus que sustenta esta mísera constelação, aterrorizador e inexorável para com todo aquele que se não enquadra em visão tão aviltante da dignidade humana.
E porque, no contexto de uma tal sociedade, não é concedida a todos a sorte de poderem ser felizes, a infelicidade perspetiva-se a partir do movimento de «cair para dentro de si mesmo», no qual o sujeito se perde e se aliena, num qualquer ponto sem retorno. Nos antípodas, a felicidade é a autorrealização de cada ser até onde a sua natureza lhe permite e para onde a sua natureza clama dirigir-se. Felicidade e liberdade são, assim, dois conceitos fraternos, caminham de mãos dadas, porque ninguém é feliz se tiver de fazer de conta que é o que não é, nem pode jamais vir a ser, desmoronando-se nessa inautenticidade avassaladora.
O amor é a grande redenção para a desgraça e a dor humana. É por isso que o casamento por interesse, essa degenerescência tola, só pode ser verdadeiramente reparado quando a morte se intromete e resolve a contradição.
Trata-se, portanto, de um romance que põe a nu um mundo rural infestado de crenças, subjugado pela dureza do trato interpessoal e das relações sociais, onde a vida tem com cada um uma espécie de relação de verdugo.
Mas há esperança, mesmo ali, onde parece não haver lugar para ser. Porque, sobretudo, é na mente de cada pessoa que se fazem as revoluções: «todos nascemos filhos de mil pais e de mais mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo». E é nessa outra visão da realidade, identificando o outro como irmão, que se podem construir relações sociais de natureza inteiramente diferente, autenticamente tolerante e emancipadora, nas quais cada ser se possa realizar sendo aquilo para que a sua essência o chama a ser.
Seja qual for a sua versão da vida, é no amor libertador que a redenção subtrai o ser à noite obscura e intransigente.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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