sábado, 26 de novembro de 2011

Novamente a crise



Portugal não é uma ilha. Mesmo que o fosse, não o seria. Vivemos inseridos num sistema de relações. Tal como as pequenas sociedades, assim as nações se relacionam com as mais próximas e também com as mais longínquas. A globalização é isso mesmo: o mundo transformado numa aldeia na qual todos os habitantes se influenciam mutuamente. Num tal sistema de relações, há perdas e ganhos. E, em variadas circunstâncias, as perdas dos outros traduzem-se em perdas próprias. Se os demais mergulham numa crise económica, também nós sofreremos os seus efeitos nocivos. Por contágio, mas igualmente porque o mercado para onde exportávamos se contraiu, obrigando a economia nacional a um processo penoso de contração irremediável. Se a crise ecológica ferir de maneira profunda a face da Terra, não ficaremos imunes a uma tal influência. Todos seremos afetados pela tragédia da agonia da natureza, uma vez que não existem fronteiras naturais entre as nações, impedindo que os efeitos nefastos globais se façam sentir na ínfima porção de mundo em que vivemos. E depois, há ainda as consequências da má consciência alheia, sobretudo se essa má consciência dominar o mercado e puder, com a simples pressão numa tecla de computador, ter efeitos devastadores nas economias externas. Há, portanto, uma inegável interdependência global. Mas o poder de interferir com o destino dos outros não está distribuído uniformemente. O mero pestanejar de alguns pode provocar revoluções nos seus antípodas. Mas a manifestação veemente de muitas vontades sem poder efetivo pode não surtir qualquer efeito sobre a aldeia que habitamos. Somos, de qualquer forma, responsáveis pelos outros, pelas suas vidas, pelos seus destinos, pela sua felicidade ou destruição.
É por isso que o comportamento humano deve obedecer hoje, mais do que nunca, a uma ética de caráter universal. Somos cidadãos da mesma pátria mundial. Os nossos desmandos têm efeitos não apenas sobre quem os comete, não apenas sobre os que habitam no mesmo espaço geográfico restrito, mas sobre todos os habitantes do mundo, com quem partilhamos a ventura de existirmos. Esta consciência exige, pois, uma responsabilidade acrescida. Sobretudo, quando sabemos que o futuro da humanidade depende da saúde do espaço natural onde nasceu e evoluiu. E o futuro da natureza depende, em larga medida, das opções conscientes da população humana, bem como das ações que delas derivam.
Neste sentido, a pergunta mais premente é a de nos questionarmos sobre a legitimidade ética de um sistema económico fundado num círculo sempre crescente de produção e consumo, conhecendo nós os efeitos assoladores que tal sistema terá tanto sobre a natureza, com recursos finitos, quanto sobre as gritantes desigualdades que de uma tal situação decorrem. Observando o aumento desmesurado do lucro e da riqueza nas mãos de poucos e a concomitante escassez de bens ao dispor da maior parte, qualquer consciência bem formada se interrogará sobre a sustentabilidade humana e ética de um semelhante universo de valores.
E, justamente, perguntamo-nos ainda se a crise que hoje estamos a viver é responsabilidade de todos. Parece ser este o pressuposto com que o governo português delineou a estratégia de recuperação do país. E é confrangedor verificar que as principais funções do Estado — garantir a todos os cidadãos um sistema de saúde, um sistema educativo e um sistema de segurança social verdadeiramente eficazes — estão em perigo, porque se torna «inevitável» — como sugerem — uma austeridade que afeta em primeiro lugar e sobretudo a classe média e baixa. Perguntamo-nos se não haveria alternativas a um tal garrote. E a existência de propostas vem desmentir a sua suposta inelutabilidade. Este orçamento, estas medidas enquadram-se no horizonte se uma economia liberal escassamente sensível aos problemas sociais e fortemente orientada ideologicamente, no sentido de privatizar ou até fazer implodir as mais importantes funções sociais do Estado. Caminhamos assim a passos largos para o abismo, talvez não económico, mas decerto humano. O desemprego parece que tenderá a aumentar, ao mesmo tempo que os salários e as pensões decrescem, reduzindo também as receitas do Estado, por mais que, ou exatamente porque se aumentam as contribuições dos cidadãos para o erário público. Num círculo vicioso sem retorno, dificilmente nos ergueremos da atual situação de penúria. Enquanto isso, outros engordam no balanço da crise. E uma sociedade mais injusta, mas desequilibrada, porque mais desigual, poderá triunfar do ponto de vista macroeconómico (coisa dificilmente credível), mas será menos humana e, portanto, menos tolerável.
É certo que a realidade deplorável em que estamos mergulhados não é apenas resultado da crise externa. Seria fácil encontrar culpados no exterior da consciência coletiva nacional. É certo também que os desmandos políticos muito influíram para tal situação. E não deixa de ser verdade que a ganância e a vigarice deram o seu contributo. Contudo, creio serem dois os aspetos fulcrais que impedem a nossa recuperação: a desorganização endémica e a falta de iniciativa. Nenhuma sociedade sem planeamento, na qual tudo é realizado ao sabor do vento, conforme as circunstâncias, sem visão de conjunto, sem objetivos definidos e meios consentâneos com tais objetivos, pode alguma vez vingar. E aí estão alguns comportamentos a indiciarem o vício do caos que se alimenta de medidas corretivas mas nunca prospetivas: uma reunião raramente começa a horas, o fisco não está preparado para pôr cobro a toda uma economia paralela sem responsabilidade social, o pagamento de dívidas é coisa que parece não apoquentar os que as contraíram… Enfim, é o caos tomando conta das pessoas e das instituições. Não creio que tenhamos de trabalhar mais horas. Precisamos de trabalhar melhor, com mais competência e em instituições organizadas, que não sejam elas próprias obstáculos ao trabalho individual, mas sistemas onde cada um sabe exatamente qual o seu papel, qual o papel dos outros e como se devem relacionar para a obtenção de fins previamente definidos.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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