sábado, 5 de novembro de 2011

Dinamitar a ilha de Manhattan


 
Vale a pena visualizar um pequeno documentário sobre a fome nas Filipinas, intitulado «Chicken à la Carte» (2005), de Ferdinand Dimadura, em http://www.cultureunplugged.com/play/1081/Chicken-a-la-Carte. Um texto fílmico que abala o coração de quem ainda se deixe impressionar pela desgraça alheia. Revela a assimetria inadmissível entre a abundância desbragada e a penúria extrema, num mundo onde a distribuição dos bens é tão desequilibrada quanto injusta. E serão as regras de funcionamento da economia capitalista a ditar esta calamidade humana, num planeta de frustrações e desencantos.
É certo que o acesso aos bens económicos não é a única, nem sequer a mais importante fonte de felicidade. Este dado está explícito no encontro pleno de densidade humana que a refeição familiar representa, no final do documentário. É sobretudo a relação interpessoal que favorece ou impede que sejamos autenticamente felizes. Mas indicadores como a fome de cerca de 13% da população mundial, entre 2005 e 2007, contabilizada em 847,5 milhões de pessoas no planeta (dados estatísticos da FAO), a média mundial da mortalidade infantil, em 2009 (dados da FAO), de 46,5‰, sendo que o país com maior nível de mortalidade infantil — a República Centro-Africana — tem uma taxa de 209‰, seguida de muitos outros países com níveis de mortalidade infantil perfeitamente absurdos só podem alertar a consciência individual e coletiva para o facto de este mundo com todas as suas regras sofrer de doença sem terapia à vista, se mantivermos o mesmo nível de indiferença e reforçarmos os mecanismos de injustiça que geram tal situação.
O que esperamos nós de um mundo assim? Talvez não possamos dinamitar sozinhos a ilha de Manhattan — como refere o poema seguinte do poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade —; ilha que representa simbolicamente o coração do capitalismo. Mas decerto poderemos em conjunto com todos os restantes sete mil milhões de homens e mulheres que habitam simultaneamente o mesmo espaço num ponto recuado do universo refundar o mundo sobre outras bases. Mais humanas. Mais autenticamente democráticas.

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco,
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo.
Praticas laboriosamente os gestos universais,
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual.
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas,
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue-frio, a conceção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas.
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear.
Coração orgulhoso, tens pressa de confessar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a ilha de Manhattan.

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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