domingo, 16 de outubro de 2011

Uma questão antropológica


 
Quem é o ser humano? Será que poderemos reter numa definição a complexidade da condição humana?

Ao longo de séculos, o pensamento ocidental tem vindo a interessar-se pela questão antropológica que as perguntas acima pressupõem. Houve um tempo em que tudo parecia mais fácil de compreender. Não seria o ser humano aquela dualidade corpo-espírito cuja relação era entendida ora como essencial, ora como acessória?

O advento da modernidade, sobretudo após o desenvolvimento da ciência moderna, veio fraturar as certezas do passado, introduzindo dúvidas pertinentes no debate antropológico. Paradoxalmente, as ciências tendem a pressupor o ancoramento material de todas as manifestações mentais e espirituais do ser humano de tal forma que, desse núcleo somático originário derivem todos os fenómenos ditos «espirituais». Se a condição misteriosa do ser humano é ainda uma realidade, tal não invalida que ulteriores pesquisas do foro bioneurológico venham a esclarecer o tipo de relação das células — unidades mínimas da vida material — com as emoções, os pensamentos, os fenómenos mentais ou espirituais de cada ser humano. Ainda estaríamos, portanto, no início do processo de compreensão da pessoa, do seu núcleo central, da sua consciência, do seu ser originário e singular (cf. António Damásio, O livro da consciência). O otimismo das ciências — sustentado por décadas de triunfo e prestígio — assegurar-nos-ia o cabal conhecimento da natureza humana, reduzida a processos materiais individualmente simples, mas no seu conjunto altamente complexos.

É certo que a manipulação do cérebro produz alterações na personalidade, na consciência e até na forma como cada indivíduo se autoconcebe (ou perde tal capacidade). A conclusão de muitos investigadores é, pois, a seguinte: a consciência humana e o eu autoconsciente são fenómenos derivados, não originários, dependentes da função encefálica. Neste novo contexto do pensamento moderno, não somos o nosso corpo, como outrora já outros o haviam afirmado, somos apenas o nosso corpo material, no qual se produzem emoções, raciocínios, estados mentais, consciência dos outros e de si mesmo.

Assistimos, assim, ao triunfo do materialismo sobre antigas e modernas conceções antropológicas com conotações metafísicas. Poderá, contudo, aceitar-se tal resposta como válida?

Eu diria que é sempre possível uma outra visão alternativa igualmente aceitável e em consonância com os factos físicos observados. Somos coagidos pelos factos a admitir uma estreita ligação entre corpo e dimensão espiritual, singular, do ser humano. Mas a redução desta última a um epifenómeno da primeira não parece estar suficientemente fundada cientificamente. Trata-se antes, segundo creio, de uma conceção ideológica que se interpõe entre os factos observados e as conclusões inferidas. É sempre possível formular a hipótese segundo a qual determinadas alterações cerebrais não permitem a plena manifestação da dimensão espiritual — o eu único e irrepetível —, não exigindo que se negue a esta a sua condição ontológica primária e independente das funções físicas corporais. Danos provocados no órgão físico comprometem, sem dúvida, a plena manifestação do eu, uma vez que aquele é o meio através do qual este se revela aos outros e a si próprio. O meu eu subjetivo e espiritual parece-me um dado intuitivamente tão originário, tão fundamental como o eu de todos os outros seres humanos na sua plena capacidade de nos surpreender por via da liberdade que os constitui.

Cada ser humano é essencialmente um mistério, porque para lá da sua aparição no mundo dos entes, das coisas e dos outros seus semelhantes está um eu originário impenetrável ao conhecimento alheio e até certo ponto ao seu próprio conhecimento. Só o EU absoluto, que é simultaneamente o Outro absoluto, terá de cada ser plena consciência. Só para Deus somos inteiramente transparentes, em razão dos limites do nosso conhecimento e da nossa intuição, os quais impedem a total decifração da consciência única e irrepetível que cada um é para si mesmo e para cada um dos seus semelhantes.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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