sábado, 22 de outubro de 2011

Um orçamento brutal


 
Aí está um orçamento brutal que se reveste supostamente daquela inevitabilidade que os erros do passado agigantaram. Poderemos estar descansados com tais medidas de austeridade; ou seja, poderemos alimentar a esperança de que as medidas preconizadas na receita orçamental subtraem Portugal ao fosse onde caiu por negligência dos seus governantes? Estou em crer que não. Todos advertem — até o próprio governo — que as consequências da execução de tal orçamento serão profundamente recessivas. O desemprego subirá em flecha. As desigualdades sociais hão de acentuar-se e, com elas, a consciência de que sobrevivemos num país mais injusto e menos solidário. O tecido empresarial sofrerá um rombo acentuado, sobretudo as pequenas e médias empresas, que constituem a maior parte do tecido produtivo do país. E se é verdade que o aumento de impostos vai pesar nos bolsos de todos os cidadãos — o IVA, o IRS… —, também parece incontestável que o saque aos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos é um novo imposto encapotado que recai apenas sobre uma parcela dos trabalhadores por conta de outrem, aumentando assim a sensação de injustiça e a certeza de que os sacrifícios não serão equitativamente repartidos. E é gritante que os trabalhadores por conta de outrem sejam sempre os mais afetados. Onde estão as grandes fortunas, os grandes negócios, as operações financeiras? Tudo se parece revestir daquela perversão liberal que tende a ver os salários dos empregados como uma dádiva bondosa dos empregadores e não como um direito adquirido pelo trabalho produtivo que realizam; ou ainda a ideia de que ter um emprego é já ser suficientemente afortunado, como se o desemprego não fosse um atentado insuportável ao direito ao trabalho de todos os cidadãos e o emprego não fosse apenas a realização prática de tal direito.
Esta época faz lembrar a do fim da primeira República. Financeiramente reinava o caos. Era necessário (dizia-se) um redentor que viesse pôr fim ao desmando das contas públicas. E tal «redentor» apareceu! Mas ficou de pedra e cal os quarenta anos que se seguiram, desmantelando liberdades e garantias dos cidadãos e embrutecendo um povo submisso e inculto. Como todos os ditadores que se perpetuam no poder, julgando-se os únicos detentores daquela visão de futuro que mais nenhum tem, que mais nenhum pode ter. E a culpa, em parte, é da frágil democracia, fraturada por lutas internas, políticas desastrosas e ausência total de consensos sobre questões de fundo que marcam indelevelmente o futuro do país.
Haveria alternativa à política adotada pelo atual governo? Certamente que sim. Se não quiséssemos pôr as contas em dia num lapso de tempo tão curto, se não quiséssemos ser tão intransigentes quanto à dimensão dos sacrifícios a pedir, se não pretendêssemos ir além do que o próprio acordo exigia do Estado…
O nosso país parece uma barca à deriva no mar alto. Quando os ventos sopram de norte, somos empurrados irreparavelmente para sul, quando os ventos sopram do sul, somos irremediavelmente impelidos para norte. Ora vêm governos que gastam o que o país produz e o que o país não é capaz de produzir, empenhando-o nos mercados internacionais; ora vêm governos que, na pressa de sanar os males de que padecemos, aplicam golpes letais ao pobre moribundo. E é sempre a pressa, balizada por prazos eleitorais, que nos arrasta para o precipício.
Espero apenas que nos detenhamos à beira dele. Só não sei se teremos a sabedoria de o fazer.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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