sábado, 29 de outubro de 2011

Sabedoria e ética

 
A sabedoria popular, inscrita ou não no texto bíblico, parece revelar duas tendências complementares, mas de significação totalmente diversa. A primeira corresponde a uma pura descrição da realidade nua e crua, tal e qual se nos desvenda no espetáculo do mundo. Não tem, pelo menos na superfície textual, qualquer intenção ética. Não parece pretender incutir valores, alterar a realidade, modificar o status quo, elevar o ser humano acima da mediocridade em que tantas vezes se vê atolado. Visa apenas pôr, diante de um olhar atento, a violência do mundo, a sua crueza às vezes indescritível, o seu caráter aberrante ou anómalo. O juízo crítico sobre tal configuração do real cabe somente ao leitor. Enunciador do discurso e destinatário do mesmo gozam, neste caso, de plena liberdade. O primeiro, no seu papel meramente revelador; o segundo, no seu eventual juízo de aceitação, de rejeição ou indignação perante um mundo que se afigura disforme, mas inescapável, ou ainda sob a ação crítica de cada ser humano com poder para o desmoronar e reconstruir sobre novos fundamentos.
A respeito do que acabei de referir, deparei-me com este provérbio: «O pobre é odioso até para o seu amigo, numerosos são os amigos do rico» (Pr 14, 20). E pronto! Cabe agora ao leitor deduzir as considerações que bem entender. E podem ser de cariz completamente diferente. Por exemplo, pode-se pressupor que a intenção do enunciado é a de produzir no leitor a intenção de tudo fazer para fugir à pobreza e alcançar a riqueza, por forma a aumentar o seu capital de amizade junto daqueles com quem se cruza. Ou pode-se pressupor uma crítica velada ao comportamento humanamente censurável que se reflete no desprezo pelo pobre — porque não pode ser proveitoso para os interesses pessoais dos outros —, ou na lisonja do rico, confundida com amizade, para dele obter proventos. Ou pode-se ainda pressupor que o enunciado subscreve o comum procedimento de «amar» tão-só quem está em condições de ser auxílio nas adversidades — segundo a lei natural da evolução das espécies — e de rejeitar aqueles de quem nada poderemos obter, porque nada têm para oferecer. Ou pode-se ainda pressupor uma crítica profunda à ordem estabelecida, decorrente da ordem «natural» das coisas (a lei do mais forte), apelando a valores que estão para lá da sobrevivência e do êxito individual e reconhecendo no bem da comunidade e, portanto, de todos os elementos que a compõem, a condição de possibilidade para a felicidade individual. Assim sendo, o ato de odiar o pobre é reprovável porque põe os interesses individuais sobre os coletivos, afundando o seu mentor no próprio lamaçal. E são apenas algumas interpretações possíveis. Provavelmente, outras poderão ser deduzidas do mesmo provérbio. O grau de liberdade interpretativa é, por conseguinte, amplo.
A segunda tendência é muito mais restritiva e orientada, dando ao leitor um leque bastante mais limitado de interpretações possíveis. Revestida de um caráter ético, imprime uma injunção sobre a consciência do leitor, convidando-o a adotar o ponto de vista do enunciado. Segue esta tendência o seguinte provérbio: «Quem oprime um pobre ofende o seu criador, quem tem compaixão do indigente honra-o» (Pr 14, 31). Mas tal máxima, coloca um problema: pode o provérbio analisado no parágrafo acima ser interpretado de maneira oposta à orientação ética deste com que nos deparamos agora? Ou seja, o livro bíblico dos Provérbios é um mosaico de textos sem relação de sentido entre si? Tendo as pequenas unidades textuais coligidas aí origens diferentes e diversificadas, a sua inclusão num único texto não nos obriga a procurar conciliar os sentidos que podem decorrer de cada uma, harmonizando-as assim, de forma a dar unidade ao todo em que se inserem? Seja qual for a nossa posição sobre esta matéria, é evidente que o presente texto visa criar nos leitores um forte sentimento de compaixão pelo pobre, condenar sem apelo nem agravo toda a opressão que sobre eles é exercida, tendo em conta a fragilidade da sua posição social, e promover comportamentos que eventualmente conduzam, ou tenham pelo menos a intenção de os conduzir à reabilitação social, habitando eles nas margens do tecido social.
É também deste segundo género o provérbio seguinte: «O iníquo aceita prendas por baixo do manto para desviar o curso da justiça» (Pr 17,23). Nada mais atual. A corrupção no âmbito da justiça é um tema sempre pertinente, que mais não seja enquanto se não debelar definitivamente a avidez humana que tudo pretende recolher no seu celeiro, independentemente dos meios usados e da sua valência ética.
E o último provérbio que gostaria de trazer à colação é, a meu ver, de enorme importância. Sabemos que a lei de talião, segundo a qual cada um deve sofrer uma pena correspondente ao crime cometido («olho por olho, dente por dente»), foi já um enorme avanço em relação a práticas anteriores que não respeitavam minimamente o princípio da proporcionalidade. Se alguém me roubava uma galinha podia ficar à mercê da minha ira e… perder a vida! A lei de talião é a introdução de um princípio de justiça nas relações humanas, represando a ira humana dentro de limites humanamente aceitáveis. Mas a consciência coletiva evoluiu para patamares superiores de humanidade. Estamos habituados a ouvir dizer que Jesus de Nazaré veio introduzir um corte no princípio estipulado pela lei de talião. E de facto, fê-lo. Leia-se, a este propósito, Mt 5-38-42: «Ouviram o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente.” Eu, porém, digo-vos: Não oponham resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado.» A força das palavras de Jesus desfere um golpe fatal no princípio de proporcionalidade que a lei de talião veio introduzir. Mas agora não no sentido de tornar a vingança um ato recomendável ou sequer aceitável, mas exatamente no sentido de abominar a violência, qualquer que ela seja, como resposta à violência de que se foi vítima. Exige, pois, do ser humano um ato de superioridade ética que o coloca acima de todo o sentimento de vingança e mesmo de toda a vontade de justiça que inflija ao agressor o mesmo golpe que o agressor havia infligido. E se é certo que estas palavras de Jesus, carregadas de um irenismo sem limites, são uma crítica pungente a toda a forma de violência, por mais justificada que pretenda ser, também não é possível ocultar que, neste aspeto, Jesus está em sintonia com a tradição sapiencial judaica. E aqui está o provérbio bíblico, muito anterior às palavras de Jesus, a demonstrar o que acabei de referir: «Não digas: “Como me fez a mim assim farei a ele, darei a cada um segundo aquilo que merece”» (Pr 24,29).


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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