domingo, 2 de outubro de 2011

O que desejamos para os outros?


 
Quem somos nós, seres humanos? Capazes das mais fraternas atitudes, somos também promotores dos mais primários sentimentos. Vivemos suspensos entre a santidade e a maldição, entre a bondade quase a roçar o infinito e a perversão ética, que se desdobra em vingança, ódio, inveja… Somos afinal uma espécie de rapsódia onde todas as músicas vão sendo executadas, se o permitirmos. É o que diz o Génesis quando nos faz nascer do barro e simultaneamente do sopro divino que nos anima e eleva acima de nós mesmos.
A verdade é que, por mais que conheça a natureza humana, sempre me deixo consternar com os instintos primários que descaradamente se revelam nas mais inesperadas situações. Há tempo, uma pessoa que bem conheço regozijou-se com a morte de outrem. Tinha certamente motivos sérios para sentir pouca empatia por aquela pessoa. As razões seriam suficientes para lhe recusar uma relação de amizade. Não temos de sentir por todos os seres humanos o mesmo afeto, o mesmo carinho, a mesma simpatia. Há até razões — para nós muitas vezes desconhecidas — que tornam impossível uma relação mais próxima com determinadas pessoas. Mas daí até sentir que a morte de alguém — e não estou a falar de nenhum monstro da história humana — pode ser fonte de alegria suprema, vai um longo caminho.
Tenho para mim que o princípio ético do amor ao próximo que Jesus enunciou não corresponde à obrigação moral de nutrir sentimentos de afeto pelos outros. Mas será decerto um convite a reconhecer que os outros são «carne da nossa carne» e membros da mesma família humana. Procurar entender as razões dos seus comportamentos e criar condições para que sejam felizes, apesar de tudo, decorre desse reconhecimento fundamental. E que maior prova de amor, no sentido que a palavra tem nos evangelhos, podemos dar do que permitir que acedam às condições que tornam possível a sua humanização? Alegrar-se com a morte de alguém talvez condiga com a imperfeição humana, mas não faz justiça à santidade a que o sopro primordial nos elevou.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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