quinta-feira, 6 de outubro de 2011

«Caim»


 
Junto ao termo da sua existência, Saramago parece ter querido arrumar as contas com deus. Ao longo da sua meritória carreira literária, assestou por diversas vezes o arco esticado das palavras literárias contra aquilo que ele considerava ser uma mera ilusão sem qualquer fundamento na realidade. «Caim» é o corolário de todo esse esforço orientado para a demonstração da incongruência e da inutilidade da ideia de deus, bem como da barbárie que representa.
Caim, o fratricida, é condenado por deus a errar pela Terra sem ter onde repousar. Foragido, vagueia no espaço e no tempo, à procura de si mesmo. Os constantes anacronismos, analepses e prolepses permitem ao protagonista viajar no tempo e tornar-se contemporâneo de acontecimentos que biblicamente nunca lhe foram simultâneos. Esta estratégia narrativa parece estar ao serviço de uma estrutura ideológica: desmascarar a ação de Deus perante o olhar talvez ingénuo do leitor bíblico.
É até possível descortinar uma eventual incursão no tempo atual, uma subliminar e dura crítica à ação de Israel na questão palestiniana, não sem uma certa ponta de antissemitismo na seguinte declaração do narrador: «quando, muito mais tarde, [os israelitas] passaram a existir, com as desastrosas consequências já por de mais conhecidas (…)».
Um narrador heterodiegético tece permanentemente considerações interpretativas sobre os acontecimentos e as personagens da história. Apesar de ser um mero espectador, as suas incursões na história fazem-se por via de uma apaixonada crítica e da interpretação dos eventos.
Mas a morte de Abel — irmão de Caim — não é apenas o resultado da inveja do irmão. Decorre igualmente da indiferença de deus em relação ao sacrifício que Caim havia preparado e à preferência pelo sacrifício de Abel, sem qualquer motivo aparente que o justifique. Na sua vontade soberana, deus elegeu Abel e esse facto fez nascer em Caim o ciúme e a inveja homicida. E é isso que torna deus conivente com o assassinato, não porque o tenha querido mas porque realizou as condições que o precipitaram. Caim está, assim, revoltado com deus e tanto mais quanto mais se apercebe, nas suas viagens pelo tempo e pelo espaço, quão arbitrária e irracional é a vontade divina. Por isso, a revolta de Caim contra deus resulta na morte de Abel e nas vítimas humanas que lhe hão de suceder. No fundo, foi deus o autor da morte interior de Caim, transpassado agora pela infâmia e a maldade, à semelhança de deus. Caim quer a morte de deus, vaticina-a mesmo («Com o tempo todos os poços acabam por secar, a tua hora também há de chegar»), mas não lhe é dada a força para o aniquilar de uma vez por todas.
Qual o deus com quem Saramago quer fazer as contas? A leitura do livro é clarificadora. Trata-se de um deus sanguinário, que não hesita em matar direta ou indiretamente não apenas os culpados mas igualmente os inocentes, que julga arbitrariamente pessoas e acontecimentos de acordo com critérios cuja racionalidade se não descortina, longe da bondade e da justiça, um deus que, perante situações gritantes de maldade e injustiça, mantém-se inerte e calado, ausente do mundo como quem passa ao lado do homem sofredor e faz de conta que o não vê, mas que se apressa a estar presente no mundo e a nele intervir por meros caprichos pessoais («sou dotado de uma consciência tão flexível que sempre a encontro de acordo com o que quer que faça»), que castiga a mais pequena desobediência mantendo o ser humano sob tutela, que nem sequer poupa os seus fiéis ao sofrimento de verem a sua fé posta à prova de maneira lancinante e desumana… É, pois, um deus desconfiado e irascível. E assim sendo, é culpado da existência do mal, da desgraça ameaçadora, da destruição reiterada e do sofrimento plural do mundo, que ora ocorre em nome dele, ora acontece com a sua aprovação explícita ou tácita, ora ocorre sob o desinteresse permissivo da sua inação absurda. É, pois, cúmplice do mal e da sua intrínseca injustiça. A sua omnipotência e a sua presumível bondade são incompatíveis com o abandono a que vota aqueles que supostamente ama. E bastará para justificar uma tal imagem de deus referir que os seus desígnios são inescrutáveis? É evidente que não. A inescrutabilidade de Deus não implica de modo algum um comportamento inteiramente irracional. Imperscrutabilidade não é sinónimo de arbitrariedade.
Um deus assim exige apenas resignação dos seus fiéis (Job: «da mão de deus recebemos o bem e o mal»). Não é permitido o mais leve traço que possa conduzir a algo que se assemelhe a uma rebelião, ou ao desenvolvimento de um sentido crítico em linha com a racionalidade do pensamento humano ou sequer a recusa em obedecer quando se torna claro que aquilo que é exigido não faz sentido ou é inteiramente desumano (cf. o sacrifício de Isaac).
E é essa a razão por que Caim assume a posição de crítico demolidor de deus. Ele não pode suportar um deus que o julga a partir de critérios éticos que ele próprio não cumpre enquanto age no mundo. Um deus incongruente e hipócrita é, afinal, o deus que Saramago quer desmascarar.
Se em larga medida a história da humanidade foi conduzida não apenas mas também por objetivos de natureza religiosa, estamos longe de poder afirmar tão categoricamente o que o narrador proclama: «A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós nem nós o entendemos a ele.» Se é verdade que a história da humanidade pode ser compreendida como a história dos seus desentendimentos com deus, já não parece tão evidente que Deus nos não entenda. Nós, sem dúvida, estamos longe de o entender. Transfiguramos em divinas meras palavras humanas, meras lutas pelo poder, meras afirmações de estatuto, sob a proteção hierática do sagrado, como se pudéssemos dele dispor a partir dos nossos interesses. Pretendemos ser os donos da verdade e usurpamos assim o lugar que só a Deus pertence, numa espécie de idolatria de que nunca nos libertámos. Talvez seja este o maior pecado da humanidade crente. E quão longe estamos de nos transformarmos naqueles humildes seres que peregrinam à procura da verdade, sem jamais dela tomarem posse.
Um deus assim ou não existe, por ser simplesmente contraditório com os atributos que ao infinito se adequam, ou para nada serve porque se torna um inimigo da vida e do ser humano, alguém em quem não é possível confiar.
O texto de Saramago é, no fundo, uma paródia do texto bíblico. Uma caricatura repleta de humor, na qual se distorce a realidade bíblica, incutindo aos eventos e personagens uma certa sensação de ridículo.

Não tenho certeza alguma em relação à existência de Deus. Se Deus fosse uma evidência racional não precisaríamos da fé e Deus mais não seria do que um elemento interno ao mundo («Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe», como afirma João Duns Escoto, c. 1265-1308). Mas não creio que possa existir o deus contra o qual se revolta Saramago. É certo que o antigo testamento apresenta enormes ambiguidades quanto à imagem de Deus. Demasiado antropomórfico, ora se ira com a maldade humana, ora decide exterminar os seus inimigos, ora se enternece com a fragilidade humana, etc. Há, pois, um progresso na maneira bíblica de interpretar Deus. Em Jesus, desaparece esta ambiguidade. Deus é inequivocamente bom e justo. Mas não será o antigo testamento palavra de Deus como o é o novo testamento? Não creio que se possa atribuir semelhante característica ao texto bíblico, tanto no seu conjunto como nas partes que o compõem. A Bíblia é o testemunho da história da relação da humanidade com Deus e da maneira como o ser humano foi, ao longo dos séculos, tomando consciência dessa relação e da identidade divina. Tal como os livros sagrados de outras tradições religiosas. Deus é e permanece o inefável, o mistério absoluto, o indizível. Tudo o que dissermos a seu respeito veste a roupagem da nossa humanidade. E este vício de forma e de conteúdo é inescapável. A alternativa seria nunca falarmos de Deus. Mas neste processo de compreensão da realidade divina há uma evolução que tem de ser tida em conta quando se quer interpretar o texto bíblico como um macrotexto e não apenas como um cúmulo de textos dispersos escritos certamente em épocas e contextos diferentes. Há uma unidade evolutiva que me parece essencial preservar para se captar o sentido do texto no interior das comunidades religiosas cristãs (e judaicas). É por isso que o novo testamento terá, do ponto de vista cristão, a primazia sobre o antigo e os evangelhos sobre todos os outros textos.
Saramago põe o dedo na ferida quando acusa Deus de intervir na história humana apenas quando quer, permitindo assim que as maiores atrocidades sejam cometidas. Como poderemos equacionar a relação de Deus com o mundo? Decerto que a forma profundamente antropomórfica como o texto bíblico a equaciona em nada ajuda. Deus aparece e intervém ou cala-se e abandona o ser humano à sua condição de acordo com critérios inexplicáveis ou até inaceitáveis. Teremos de equacionar a relação de Deus com o mundo de uma forma totalmente diferente. Ele é o princípio sem princípio, a origem sem origem, o fundo universal de todas as coisas, a meta para onde tudo caminha, o fundamento do universo e da humanidade… A sua natureza é, portanto, de um nível inteiramente diferente da natureza do mundo. Não pode, pois, intervir no mundo à maneira de um objeto. Teremos de renunciar a vislumbrar o agir de Deus em ações pontuais no curso da história e da natureza. De outra forma como poderemos justificar Deus perante tanta injustiça, tanto sofrimento, tanta maldade que o mundo alberga? Como poderemos dar conta da sua santidade, ou seja, da sua natureza não mundana?
E Saramago entrevê esta situação de orfandade a que a humanidade fica entregue após a morte de Deus. A propósito da continuidade da espécie humana, o narrador pergunta-se para que terá a espécie de continuar, como se fosse a «única e derradeira esperança do universo». Na verdade, aniquilando Deus, não há para a humanidade qualquer salvação, qualquer finalidade última, qualquer sentido que assegure ao futuro aquela luminosidade que o presente não tem nem o passado alguma vez pressentiu.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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