sábado, 29 de outubro de 2011

Sabedoria e ética

 
A sabedoria popular, inscrita ou não no texto bíblico, parece revelar duas tendências complementares, mas de significação totalmente diversa. A primeira corresponde a uma pura descrição da realidade nua e crua, tal e qual se nos desvenda no espetáculo do mundo. Não tem, pelo menos na superfície textual, qualquer intenção ética. Não parece pretender incutir valores, alterar a realidade, modificar o status quo, elevar o ser humano acima da mediocridade em que tantas vezes se vê atolado. Visa apenas pôr, diante de um olhar atento, a violência do mundo, a sua crueza às vezes indescritível, o seu caráter aberrante ou anómalo. O juízo crítico sobre tal configuração do real cabe somente ao leitor. Enunciador do discurso e destinatário do mesmo gozam, neste caso, de plena liberdade. O primeiro, no seu papel meramente revelador; o segundo, no seu eventual juízo de aceitação, de rejeição ou indignação perante um mundo que se afigura disforme, mas inescapável, ou ainda sob a ação crítica de cada ser humano com poder para o desmoronar e reconstruir sobre novos fundamentos.
A respeito do que acabei de referir, deparei-me com este provérbio: «O pobre é odioso até para o seu amigo, numerosos são os amigos do rico» (Pr 14, 20). E pronto! Cabe agora ao leitor deduzir as considerações que bem entender. E podem ser de cariz completamente diferente. Por exemplo, pode-se pressupor que a intenção do enunciado é a de produzir no leitor a intenção de tudo fazer para fugir à pobreza e alcançar a riqueza, por forma a aumentar o seu capital de amizade junto daqueles com quem se cruza. Ou pode-se pressupor uma crítica velada ao comportamento humanamente censurável que se reflete no desprezo pelo pobre — porque não pode ser proveitoso para os interesses pessoais dos outros —, ou na lisonja do rico, confundida com amizade, para dele obter proventos. Ou pode-se ainda pressupor que o enunciado subscreve o comum procedimento de «amar» tão-só quem está em condições de ser auxílio nas adversidades — segundo a lei natural da evolução das espécies — e de rejeitar aqueles de quem nada poderemos obter, porque nada têm para oferecer. Ou pode-se ainda pressupor uma crítica profunda à ordem estabelecida, decorrente da ordem «natural» das coisas (a lei do mais forte), apelando a valores que estão para lá da sobrevivência e do êxito individual e reconhecendo no bem da comunidade e, portanto, de todos os elementos que a compõem, a condição de possibilidade para a felicidade individual. Assim sendo, o ato de odiar o pobre é reprovável porque põe os interesses individuais sobre os coletivos, afundando o seu mentor no próprio lamaçal. E são apenas algumas interpretações possíveis. Provavelmente, outras poderão ser deduzidas do mesmo provérbio. O grau de liberdade interpretativa é, por conseguinte, amplo.
A segunda tendência é muito mais restritiva e orientada, dando ao leitor um leque bastante mais limitado de interpretações possíveis. Revestida de um caráter ético, imprime uma injunção sobre a consciência do leitor, convidando-o a adotar o ponto de vista do enunciado. Segue esta tendência o seguinte provérbio: «Quem oprime um pobre ofende o seu criador, quem tem compaixão do indigente honra-o» (Pr 14, 31). Mas tal máxima, coloca um problema: pode o provérbio analisado no parágrafo acima ser interpretado de maneira oposta à orientação ética deste com que nos deparamos agora? Ou seja, o livro bíblico dos Provérbios é um mosaico de textos sem relação de sentido entre si? Tendo as pequenas unidades textuais coligidas aí origens diferentes e diversificadas, a sua inclusão num único texto não nos obriga a procurar conciliar os sentidos que podem decorrer de cada uma, harmonizando-as assim, de forma a dar unidade ao todo em que se inserem? Seja qual for a nossa posição sobre esta matéria, é evidente que o presente texto visa criar nos leitores um forte sentimento de compaixão pelo pobre, condenar sem apelo nem agravo toda a opressão que sobre eles é exercida, tendo em conta a fragilidade da sua posição social, e promover comportamentos que eventualmente conduzam, ou tenham pelo menos a intenção de os conduzir à reabilitação social, habitando eles nas margens do tecido social.
É também deste segundo género o provérbio seguinte: «O iníquo aceita prendas por baixo do manto para desviar o curso da justiça» (Pr 17,23). Nada mais atual. A corrupção no âmbito da justiça é um tema sempre pertinente, que mais não seja enquanto se não debelar definitivamente a avidez humana que tudo pretende recolher no seu celeiro, independentemente dos meios usados e da sua valência ética.
E o último provérbio que gostaria de trazer à colação é, a meu ver, de enorme importância. Sabemos que a lei de talião, segundo a qual cada um deve sofrer uma pena correspondente ao crime cometido («olho por olho, dente por dente»), foi já um enorme avanço em relação a práticas anteriores que não respeitavam minimamente o princípio da proporcionalidade. Se alguém me roubava uma galinha podia ficar à mercê da minha ira e… perder a vida! A lei de talião é a introdução de um princípio de justiça nas relações humanas, represando a ira humana dentro de limites humanamente aceitáveis. Mas a consciência coletiva evoluiu para patamares superiores de humanidade. Estamos habituados a ouvir dizer que Jesus de Nazaré veio introduzir um corte no princípio estipulado pela lei de talião. E de facto, fê-lo. Leia-se, a este propósito, Mt 5-38-42: «Ouviram o que foi dito: “Olho por olho e dente por dente.” Eu, porém, digo-vos: Não oponham resistência ao mau. Mas, se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém quiser litigar contigo para te tirar a túnica, dá-lhe também a capa. E se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, caminha com ele duas. Dá a quem te pede e não voltes as costas a quem te pedir emprestado.» A força das palavras de Jesus desfere um golpe fatal no princípio de proporcionalidade que a lei de talião veio introduzir. Mas agora não no sentido de tornar a vingança um ato recomendável ou sequer aceitável, mas exatamente no sentido de abominar a violência, qualquer que ela seja, como resposta à violência de que se foi vítima. Exige, pois, do ser humano um ato de superioridade ética que o coloca acima de todo o sentimento de vingança e mesmo de toda a vontade de justiça que inflija ao agressor o mesmo golpe que o agressor havia infligido. E se é certo que estas palavras de Jesus, carregadas de um irenismo sem limites, são uma crítica pungente a toda a forma de violência, por mais justificada que pretenda ser, também não é possível ocultar que, neste aspeto, Jesus está em sintonia com a tradição sapiencial judaica. E aqui está o provérbio bíblico, muito anterior às palavras de Jesus, a demonstrar o que acabei de referir: «Não digas: “Como me fez a mim assim farei a ele, darei a cada um segundo aquilo que merece”» (Pr 24,29).


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

sábado, 22 de outubro de 2011

Um orçamento brutal


 
Aí está um orçamento brutal que se reveste supostamente daquela inevitabilidade que os erros do passado agigantaram. Poderemos estar descansados com tais medidas de austeridade; ou seja, poderemos alimentar a esperança de que as medidas preconizadas na receita orçamental subtraem Portugal ao fosse onde caiu por negligência dos seus governantes? Estou em crer que não. Todos advertem — até o próprio governo — que as consequências da execução de tal orçamento serão profundamente recessivas. O desemprego subirá em flecha. As desigualdades sociais hão de acentuar-se e, com elas, a consciência de que sobrevivemos num país mais injusto e menos solidário. O tecido empresarial sofrerá um rombo acentuado, sobretudo as pequenas e médias empresas, que constituem a maior parte do tecido produtivo do país. E se é verdade que o aumento de impostos vai pesar nos bolsos de todos os cidadãos — o IVA, o IRS… —, também parece incontestável que o saque aos subsídios de férias e Natal dos funcionários públicos é um novo imposto encapotado que recai apenas sobre uma parcela dos trabalhadores por conta de outrem, aumentando assim a sensação de injustiça e a certeza de que os sacrifícios não serão equitativamente repartidos. E é gritante que os trabalhadores por conta de outrem sejam sempre os mais afetados. Onde estão as grandes fortunas, os grandes negócios, as operações financeiras? Tudo se parece revestir daquela perversão liberal que tende a ver os salários dos empregados como uma dádiva bondosa dos empregadores e não como um direito adquirido pelo trabalho produtivo que realizam; ou ainda a ideia de que ter um emprego é já ser suficientemente afortunado, como se o desemprego não fosse um atentado insuportável ao direito ao trabalho de todos os cidadãos e o emprego não fosse apenas a realização prática de tal direito.
Esta época faz lembrar a do fim da primeira República. Financeiramente reinava o caos. Era necessário (dizia-se) um redentor que viesse pôr fim ao desmando das contas públicas. E tal «redentor» apareceu! Mas ficou de pedra e cal os quarenta anos que se seguiram, desmantelando liberdades e garantias dos cidadãos e embrutecendo um povo submisso e inculto. Como todos os ditadores que se perpetuam no poder, julgando-se os únicos detentores daquela visão de futuro que mais nenhum tem, que mais nenhum pode ter. E a culpa, em parte, é da frágil democracia, fraturada por lutas internas, políticas desastrosas e ausência total de consensos sobre questões de fundo que marcam indelevelmente o futuro do país.
Haveria alternativa à política adotada pelo atual governo? Certamente que sim. Se não quiséssemos pôr as contas em dia num lapso de tempo tão curto, se não quiséssemos ser tão intransigentes quanto à dimensão dos sacrifícios a pedir, se não pretendêssemos ir além do que o próprio acordo exigia do Estado…
O nosso país parece uma barca à deriva no mar alto. Quando os ventos sopram de norte, somos empurrados irreparavelmente para sul, quando os ventos sopram do sul, somos irremediavelmente impelidos para norte. Ora vêm governos que gastam o que o país produz e o que o país não é capaz de produzir, empenhando-o nos mercados internacionais; ora vêm governos que, na pressa de sanar os males de que padecemos, aplicam golpes letais ao pobre moribundo. E é sempre a pressa, balizada por prazos eleitorais, que nos arrasta para o precipício.
Espero apenas que nos detenhamos à beira dele. Só não sei se teremos a sabedoria de o fazer.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

domingo, 16 de outubro de 2011

Uma questão antropológica


 
Quem é o ser humano? Será que poderemos reter numa definição a complexidade da condição humana?

Ao longo de séculos, o pensamento ocidental tem vindo a interessar-se pela questão antropológica que as perguntas acima pressupõem. Houve um tempo em que tudo parecia mais fácil de compreender. Não seria o ser humano aquela dualidade corpo-espírito cuja relação era entendida ora como essencial, ora como acessória?

O advento da modernidade, sobretudo após o desenvolvimento da ciência moderna, veio fraturar as certezas do passado, introduzindo dúvidas pertinentes no debate antropológico. Paradoxalmente, as ciências tendem a pressupor o ancoramento material de todas as manifestações mentais e espirituais do ser humano de tal forma que, desse núcleo somático originário derivem todos os fenómenos ditos «espirituais». Se a condição misteriosa do ser humano é ainda uma realidade, tal não invalida que ulteriores pesquisas do foro bioneurológico venham a esclarecer o tipo de relação das células — unidades mínimas da vida material — com as emoções, os pensamentos, os fenómenos mentais ou espirituais de cada ser humano. Ainda estaríamos, portanto, no início do processo de compreensão da pessoa, do seu núcleo central, da sua consciência, do seu ser originário e singular (cf. António Damásio, O livro da consciência). O otimismo das ciências — sustentado por décadas de triunfo e prestígio — assegurar-nos-ia o cabal conhecimento da natureza humana, reduzida a processos materiais individualmente simples, mas no seu conjunto altamente complexos.

É certo que a manipulação do cérebro produz alterações na personalidade, na consciência e até na forma como cada indivíduo se autoconcebe (ou perde tal capacidade). A conclusão de muitos investigadores é, pois, a seguinte: a consciência humana e o eu autoconsciente são fenómenos derivados, não originários, dependentes da função encefálica. Neste novo contexto do pensamento moderno, não somos o nosso corpo, como outrora já outros o haviam afirmado, somos apenas o nosso corpo material, no qual se produzem emoções, raciocínios, estados mentais, consciência dos outros e de si mesmo.

Assistimos, assim, ao triunfo do materialismo sobre antigas e modernas conceções antropológicas com conotações metafísicas. Poderá, contudo, aceitar-se tal resposta como válida?

Eu diria que é sempre possível uma outra visão alternativa igualmente aceitável e em consonância com os factos físicos observados. Somos coagidos pelos factos a admitir uma estreita ligação entre corpo e dimensão espiritual, singular, do ser humano. Mas a redução desta última a um epifenómeno da primeira não parece estar suficientemente fundada cientificamente. Trata-se antes, segundo creio, de uma conceção ideológica que se interpõe entre os factos observados e as conclusões inferidas. É sempre possível formular a hipótese segundo a qual determinadas alterações cerebrais não permitem a plena manifestação da dimensão espiritual — o eu único e irrepetível —, não exigindo que se negue a esta a sua condição ontológica primária e independente das funções físicas corporais. Danos provocados no órgão físico comprometem, sem dúvida, a plena manifestação do eu, uma vez que aquele é o meio através do qual este se revela aos outros e a si próprio. O meu eu subjetivo e espiritual parece-me um dado intuitivamente tão originário, tão fundamental como o eu de todos os outros seres humanos na sua plena capacidade de nos surpreender por via da liberdade que os constitui.

Cada ser humano é essencialmente um mistério, porque para lá da sua aparição no mundo dos entes, das coisas e dos outros seus semelhantes está um eu originário impenetrável ao conhecimento alheio e até certo ponto ao seu próprio conhecimento. Só o EU absoluto, que é simultaneamente o Outro absoluto, terá de cada ser plena consciência. Só para Deus somos inteiramente transparentes, em razão dos limites do nosso conhecimento e da nossa intuição, os quais impedem a total decifração da consciência única e irrepetível que cada um é para si mesmo e para cada um dos seus semelhantes.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

«Caim»


 
Junto ao termo da sua existência, Saramago parece ter querido arrumar as contas com deus. Ao longo da sua meritória carreira literária, assestou por diversas vezes o arco esticado das palavras literárias contra aquilo que ele considerava ser uma mera ilusão sem qualquer fundamento na realidade. «Caim» é o corolário de todo esse esforço orientado para a demonstração da incongruência e da inutilidade da ideia de deus, bem como da barbárie que representa.
Caim, o fratricida, é condenado por deus a errar pela Terra sem ter onde repousar. Foragido, vagueia no espaço e no tempo, à procura de si mesmo. Os constantes anacronismos, analepses e prolepses permitem ao protagonista viajar no tempo e tornar-se contemporâneo de acontecimentos que biblicamente nunca lhe foram simultâneos. Esta estratégia narrativa parece estar ao serviço de uma estrutura ideológica: desmascarar a ação de Deus perante o olhar talvez ingénuo do leitor bíblico.
É até possível descortinar uma eventual incursão no tempo atual, uma subliminar e dura crítica à ação de Israel na questão palestiniana, não sem uma certa ponta de antissemitismo na seguinte declaração do narrador: «quando, muito mais tarde, [os israelitas] passaram a existir, com as desastrosas consequências já por de mais conhecidas (…)».
Um narrador heterodiegético tece permanentemente considerações interpretativas sobre os acontecimentos e as personagens da história. Apesar de ser um mero espectador, as suas incursões na história fazem-se por via de uma apaixonada crítica e da interpretação dos eventos.
Mas a morte de Abel — irmão de Caim — não é apenas o resultado da inveja do irmão. Decorre igualmente da indiferença de deus em relação ao sacrifício que Caim havia preparado e à preferência pelo sacrifício de Abel, sem qualquer motivo aparente que o justifique. Na sua vontade soberana, deus elegeu Abel e esse facto fez nascer em Caim o ciúme e a inveja homicida. E é isso que torna deus conivente com o assassinato, não porque o tenha querido mas porque realizou as condições que o precipitaram. Caim está, assim, revoltado com deus e tanto mais quanto mais se apercebe, nas suas viagens pelo tempo e pelo espaço, quão arbitrária e irracional é a vontade divina. Por isso, a revolta de Caim contra deus resulta na morte de Abel e nas vítimas humanas que lhe hão de suceder. No fundo, foi deus o autor da morte interior de Caim, transpassado agora pela infâmia e a maldade, à semelhança de deus. Caim quer a morte de deus, vaticina-a mesmo («Com o tempo todos os poços acabam por secar, a tua hora também há de chegar»), mas não lhe é dada a força para o aniquilar de uma vez por todas.
Qual o deus com quem Saramago quer fazer as contas? A leitura do livro é clarificadora. Trata-se de um deus sanguinário, que não hesita em matar direta ou indiretamente não apenas os culpados mas igualmente os inocentes, que julga arbitrariamente pessoas e acontecimentos de acordo com critérios cuja racionalidade se não descortina, longe da bondade e da justiça, um deus que, perante situações gritantes de maldade e injustiça, mantém-se inerte e calado, ausente do mundo como quem passa ao lado do homem sofredor e faz de conta que o não vê, mas que se apressa a estar presente no mundo e a nele intervir por meros caprichos pessoais («sou dotado de uma consciência tão flexível que sempre a encontro de acordo com o que quer que faça»), que castiga a mais pequena desobediência mantendo o ser humano sob tutela, que nem sequer poupa os seus fiéis ao sofrimento de verem a sua fé posta à prova de maneira lancinante e desumana… É, pois, um deus desconfiado e irascível. E assim sendo, é culpado da existência do mal, da desgraça ameaçadora, da destruição reiterada e do sofrimento plural do mundo, que ora ocorre em nome dele, ora acontece com a sua aprovação explícita ou tácita, ora ocorre sob o desinteresse permissivo da sua inação absurda. É, pois, cúmplice do mal e da sua intrínseca injustiça. A sua omnipotência e a sua presumível bondade são incompatíveis com o abandono a que vota aqueles que supostamente ama. E bastará para justificar uma tal imagem de deus referir que os seus desígnios são inescrutáveis? É evidente que não. A inescrutabilidade de Deus não implica de modo algum um comportamento inteiramente irracional. Imperscrutabilidade não é sinónimo de arbitrariedade.
Um deus assim exige apenas resignação dos seus fiéis (Job: «da mão de deus recebemos o bem e o mal»). Não é permitido o mais leve traço que possa conduzir a algo que se assemelhe a uma rebelião, ou ao desenvolvimento de um sentido crítico em linha com a racionalidade do pensamento humano ou sequer a recusa em obedecer quando se torna claro que aquilo que é exigido não faz sentido ou é inteiramente desumano (cf. o sacrifício de Isaac).
E é essa a razão por que Caim assume a posição de crítico demolidor de deus. Ele não pode suportar um deus que o julga a partir de critérios éticos que ele próprio não cumpre enquanto age no mundo. Um deus incongruente e hipócrita é, afinal, o deus que Saramago quer desmascarar.
Se em larga medida a história da humanidade foi conduzida não apenas mas também por objetivos de natureza religiosa, estamos longe de poder afirmar tão categoricamente o que o narrador proclama: «A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós nem nós o entendemos a ele.» Se é verdade que a história da humanidade pode ser compreendida como a história dos seus desentendimentos com deus, já não parece tão evidente que Deus nos não entenda. Nós, sem dúvida, estamos longe de o entender. Transfiguramos em divinas meras palavras humanas, meras lutas pelo poder, meras afirmações de estatuto, sob a proteção hierática do sagrado, como se pudéssemos dele dispor a partir dos nossos interesses. Pretendemos ser os donos da verdade e usurpamos assim o lugar que só a Deus pertence, numa espécie de idolatria de que nunca nos libertámos. Talvez seja este o maior pecado da humanidade crente. E quão longe estamos de nos transformarmos naqueles humildes seres que peregrinam à procura da verdade, sem jamais dela tomarem posse.
Um deus assim ou não existe, por ser simplesmente contraditório com os atributos que ao infinito se adequam, ou para nada serve porque se torna um inimigo da vida e do ser humano, alguém em quem não é possível confiar.
O texto de Saramago é, no fundo, uma paródia do texto bíblico. Uma caricatura repleta de humor, na qual se distorce a realidade bíblica, incutindo aos eventos e personagens uma certa sensação de ridículo.

Não tenho certeza alguma em relação à existência de Deus. Se Deus fosse uma evidência racional não precisaríamos da fé e Deus mais não seria do que um elemento interno ao mundo («Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe», como afirma João Duns Escoto, c. 1265-1308). Mas não creio que possa existir o deus contra o qual se revolta Saramago. É certo que o antigo testamento apresenta enormes ambiguidades quanto à imagem de Deus. Demasiado antropomórfico, ora se ira com a maldade humana, ora decide exterminar os seus inimigos, ora se enternece com a fragilidade humana, etc. Há, pois, um progresso na maneira bíblica de interpretar Deus. Em Jesus, desaparece esta ambiguidade. Deus é inequivocamente bom e justo. Mas não será o antigo testamento palavra de Deus como o é o novo testamento? Não creio que se possa atribuir semelhante característica ao texto bíblico, tanto no seu conjunto como nas partes que o compõem. A Bíblia é o testemunho da história da relação da humanidade com Deus e da maneira como o ser humano foi, ao longo dos séculos, tomando consciência dessa relação e da identidade divina. Tal como os livros sagrados de outras tradições religiosas. Deus é e permanece o inefável, o mistério absoluto, o indizível. Tudo o que dissermos a seu respeito veste a roupagem da nossa humanidade. E este vício de forma e de conteúdo é inescapável. A alternativa seria nunca falarmos de Deus. Mas neste processo de compreensão da realidade divina há uma evolução que tem de ser tida em conta quando se quer interpretar o texto bíblico como um macrotexto e não apenas como um cúmulo de textos dispersos escritos certamente em épocas e contextos diferentes. Há uma unidade evolutiva que me parece essencial preservar para se captar o sentido do texto no interior das comunidades religiosas cristãs (e judaicas). É por isso que o novo testamento terá, do ponto de vista cristão, a primazia sobre o antigo e os evangelhos sobre todos os outros textos.
Saramago põe o dedo na ferida quando acusa Deus de intervir na história humana apenas quando quer, permitindo assim que as maiores atrocidades sejam cometidas. Como poderemos equacionar a relação de Deus com o mundo? Decerto que a forma profundamente antropomórfica como o texto bíblico a equaciona em nada ajuda. Deus aparece e intervém ou cala-se e abandona o ser humano à sua condição de acordo com critérios inexplicáveis ou até inaceitáveis. Teremos de equacionar a relação de Deus com o mundo de uma forma totalmente diferente. Ele é o princípio sem princípio, a origem sem origem, o fundo universal de todas as coisas, a meta para onde tudo caminha, o fundamento do universo e da humanidade… A sua natureza é, portanto, de um nível inteiramente diferente da natureza do mundo. Não pode, pois, intervir no mundo à maneira de um objeto. Teremos de renunciar a vislumbrar o agir de Deus em ações pontuais no curso da história e da natureza. De outra forma como poderemos justificar Deus perante tanta injustiça, tanto sofrimento, tanta maldade que o mundo alberga? Como poderemos dar conta da sua santidade, ou seja, da sua natureza não mundana?
E Saramago entrevê esta situação de orfandade a que a humanidade fica entregue após a morte de Deus. A propósito da continuidade da espécie humana, o narrador pergunta-se para que terá a espécie de continuar, como se fosse a «única e derradeira esperança do universo». Na verdade, aniquilando Deus, não há para a humanidade qualquer salvação, qualquer finalidade última, qualquer sentido que assegure ao futuro aquela luminosidade que o presente não tem nem o passado alguma vez pressentiu.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

domingo, 2 de outubro de 2011

O que desejamos para os outros?


 
Quem somos nós, seres humanos? Capazes das mais fraternas atitudes, somos também promotores dos mais primários sentimentos. Vivemos suspensos entre a santidade e a maldição, entre a bondade quase a roçar o infinito e a perversão ética, que se desdobra em vingança, ódio, inveja… Somos afinal uma espécie de rapsódia onde todas as músicas vão sendo executadas, se o permitirmos. É o que diz o Génesis quando nos faz nascer do barro e simultaneamente do sopro divino que nos anima e eleva acima de nós mesmos.
A verdade é que, por mais que conheça a natureza humana, sempre me deixo consternar com os instintos primários que descaradamente se revelam nas mais inesperadas situações. Há tempo, uma pessoa que bem conheço regozijou-se com a morte de outrem. Tinha certamente motivos sérios para sentir pouca empatia por aquela pessoa. As razões seriam suficientes para lhe recusar uma relação de amizade. Não temos de sentir por todos os seres humanos o mesmo afeto, o mesmo carinho, a mesma simpatia. Há até razões — para nós muitas vezes desconhecidas — que tornam impossível uma relação mais próxima com determinadas pessoas. Mas daí até sentir que a morte de alguém — e não estou a falar de nenhum monstro da história humana — pode ser fonte de alegria suprema, vai um longo caminho.
Tenho para mim que o princípio ético do amor ao próximo que Jesus enunciou não corresponde à obrigação moral de nutrir sentimentos de afeto pelos outros. Mas será decerto um convite a reconhecer que os outros são «carne da nossa carne» e membros da mesma família humana. Procurar entender as razões dos seus comportamentos e criar condições para que sejam felizes, apesar de tudo, decorre desse reconhecimento fundamental. E que maior prova de amor, no sentido que a palavra tem nos evangelhos, podemos dar do que permitir que acedam às condições que tornam possível a sua humanização? Alegrar-se com a morte de alguém talvez condiga com a imperfeição humana, mas não faz justiça à santidade a que o sopro primordial nos elevou.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.