domingo, 18 de setembro de 2011

Impunidade e ocultação da verdade



Os políticos conseguem ainda surpreender-me. Já sabia que, ao fazerem o jogo político, recorriam amiúde a estratégias de duvidosa valência ética. É raro o político que cumpre escrupulosamente aquilo que havia prometido em campanha eleitoral. Mas subsiste sempre a dúvida se o fez por ter esbarrado com condições previamente desconhecidas e perigosamente adversas, que impediram o cumprimento das promessas, ou se tudo estava escrupulosamente planeado com o único fim de vencer eleições a expensas da verdade.

Quando, contudo, os meios de comunicação social noticiam mentiras descaradas, ocultação de informação essencial, branqueamento das contas públicas para fins eleitoralistas, não deixo de me surpreender. No governo anterior vivemos permanentemente mergulhados na ilusão de que tudo corria bem, alienados do mundo real, quando a tormenta se aproximava sem apelo nem agravo. Agora o desplante do presidente do governo regional da Madeira passeia-se perante nós com tal ostentação que até parece mentira que tenha acontecido o que realmente aconteceu, ou seja, a ocultação de gastos e despesas nas contas públicas da Madeira durante vários anos, produzindo mais um buraco orçamental na já precária situação financeira do país. E o que é mais confrangedor é o facto de nada acontecer a este senhor que tem vindo a gastar o que tem e o que não tem. Provavelmente ainda será recompensado com a enésima reeleição, porque cada qual quer saber apenas do seu cantinho, do seu pequeno mundo e está-se liminarmente marimbando para as consequências de determinadas ações no todo nacional. E se estrebucharmos muito, ainda somos brindados com a ameaça do separatismo madeirense.

Num país civilizado, este senhor já tinha sido expulso do governo por má gestão dos bens públicos e daí haveria de decorrer a sua responsabilização política e eventualmente judicial. Ainda ninguém me explicou por que razão um gestor de uma simples empresa pode ser levado a tribunal por gestão danosa, mas o presidente de um governo regional pode passar impunemente mesmo quando se torna evidente que sonegou informação essencial a respeito de gastos lesivos da fazenda pública.

Tenhamos vergonha! Se assim for, talvez continuemos a ter os políticos que merecemos, mas havemos de merecer na vida política gente com rigor técnico e inteireza ética.



Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

3 comentários:

  1. "havemos de merecer na vida política gente com rigor técnico"

    ainda não percebeste a diferença: os técnicos fornecem as alternativas (por exemplo: a ponte, se for construída aqui custa x, se ali, y) e os políticos decidem

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  2. É certo. Mas isso não impede que os políticos sejam bons também técnicos e sobretudo tenham em conta as melhores orientações técnicas.

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  3. ser-se tecnicamente capaz nunca impediu alguém de ser um político, assim como um político nunca precisou de ser tecnicamente habilitado: será que é preciso ser-se militar para conduzir a defesa nacional ou há que ter formação em relações internacionais para liderar os negócios estrangeiros?

    se te ativeres às pastas das finanças e afins, aí é diferente, embora já tivéssemos ministros nessas pastas sem qualquer formação específica nesses domínios: Salgado Zenha, o actual presidente do TC...

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