sábado, 27 de agosto de 2011

Uma outra forma de vida


 
Pergunto-me se o crescimento económico, índice central de desenvolvimento nas atuais sociedades, fundadas na economia de mercado, não terá um limite. O aumento constante da riqueza produzida será, a longo prazo, um caminho sustentável? Parece-me difícil que assim seja. Os recursos disponíveis no planeta são limitados e não comportam uma exploração galopante que tenda para o infinito. Se outras razões não houver, esta parece-me constituir uma baliza inultrapassável.
Se este prognóstico estiver correto — e não sendo economista, não estou certo disso —, estará a economia capitalista condenada? De facto, o capitalismo funciona com base na procura permanente de maiores níveis de acumulação de riqueza e, portanto, de crescimento económico. Talvez as previsões de Marx, segundo as quais o capitalismo transporta consigo o vírus da sua própria autodestruição, estejam certas. Será tudo uma questão de tempo!
E se começássemos desde já a preparar essa outra sociedade, fundada em outros critérios que não a desenfreada acumulação de lucros, em vez de esperarmos o momento em que a crise derradeira não permitir outra saída? É que se esperarmos passivamente esse tempo, quando chegar talvez seja tarde de mais; talvez os recursos naturais estejam irremediavelmente comprometidos; talvez tenhamos perdido a oportunidade de reorganizarmos, em tempo útil, a vida coletiva com base noutra hierarquia de valores.
Provavelmente, teremos de ser mais modestos. Teremos de nos contentar com níveis de bem-estar mais moderados em vez de prosseguirmos o ideal da satisfação constante de novos desejos, sempre acirrados por uma agressiva e poderosa máquina publicitária.
Aprender a viver com menos, mas não com menor qualidade, eis o sábio equilíbrio que somos chamados a estabelecer. Possivelmente, não necessitando de produzir tanto, talvez possamos dedicar mais tempo a outros interesses, a outras necessidades mais profundas: o afeto, o lazer, a cultura, etc. Mas para que isso ocorra, é urgente darmos um salto qualitativo em termos de literacia cultural, diversificando os valores a que damos importância e dedicamos tempo. Habituados a viver não apenas do, mas sobretudo para o trabalho, o preenchimento do tempo pessoal, para além das horas dedicadas à profissão, é, em muitos casos, vivido sob o signo da falta de sentido e da desorientação. Como um narcótico que exige ser consumido, e sempre em doses mais elevadas, o trabalho infiltra-se na vida humana roubando espaço a qualquer outra atividade permeada de sentido. O capitalismo transforma-nos simplesmente em imparáveis máquinas de produção. Quando estaremos em condições de adquirir outra sabedoria de vida pessoal e coletiva?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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