domingo, 14 de agosto de 2011

Entre férias, fome e fadiga


 
Regresso de férias, longe da fadiga que a rotina diária nos impõe. De vez em quando, sentimos a urgência da fuga ao quotidiano: uma espécie de salvação de nós próprios ou dos outros ou das relações hierárquicas e das suas consequências sobre o nosso equilíbrio psicossocial. E é na evasão ao real — se é que o mundo em que nos refugiamos não é tão real quanto o outro — que bebemos o doce refrigério para uma existência maçadora e extenuante.
Ocasião também para nos encontrarmos com quem a escassez do tempo nos impede maior proximidade. Sobretudo, a minha velha tia de oitenta e seis anos cujas palavras sábias e coração aberto gosto de reter. Será que, quando se chega a tal idade, todos vivemos aquela sensação de querer e não querer simultaneamente a mesma coisa? Parece que a vida se aborrece de si mesma e nos prepara para a partida. Longe de nós, lamenta a distância. Mas se a convidamos para estar connosco, prende-se ao ninho onde vive e recusa amavelmente vir até onde o nosso afadigado quotidiano parece não ter lugar para a sua presença benfazeja. Que fiquem, pelo menos, na memória dos dias, os momentos que aproveitamos para estar com ela, quando a voracidade da vida nos consente.
E enquanto fruímos do consolo das férias, morrem de fome e sede milhares de somalis a quem o destino negou o direito à subsistência, sob o olhar impávido do mundo abastado a braços com as suas crises e as suas contradições internas. Pergunto-me se não haverá uma outra maneira de organizarmos o mundo, na qual todos possam aceder ao mínimo e as clivagens mundiais possam esbater-se sob a mão indulgente da partilha fraterna. E é também no próprio centro da opulência que os deserdados rompem com a paz aparente, instigados à violência pelas mais variadas razões, incendiando bens e pilhando as lojas um pouco por toda a próspera Inglaterra. Que dizer destes movimentos sociais, cuja motivação é múltipla e opaca, mas ideologicamente neutra (se é que existe tal realidade)? Alheios a fins políticos ou a outras ideologias com contornos claramente definidos, põem a nu as patologias que inundam a vida social, económica e política das sociedades possidentes. Talvez os seus gritos de revolta nos ensinem que não é com guetos, apesar de amplamente subsidiados, que se consegue a tão desejada quanto necessária inclusão social. Se é certo que os pobres desse contexto seriam ricos em outras latitudes, é a assimetria entre classes e a profunda desigualdade social que torna estas populações tão avessas a aceitar que medrem nutrindo-se das migalhas que caem da mesa dos ricos (cf. Lc 16, 21).
De regresso à vida diária, sonho com a unidade do mundo humano. E creio que é esse o caminho por onde nos atrevemos a viajar, entre avanços e retrocessos, que não é linear a história humana. Lá chegaremos. Não sei quando, mas lá chegaremos. Resta «apenas» redimir a totalidade dos que, em épocas passadas, foram as vítimas inocentes do tempo em que viveram. Demasiado cedo. Demasiado longe do tempo em que todos se sentarão com coração fraterno à mesa da vida.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Meu caro amigo jorge paulo, as férias de verão trazem-te fome e fadiga… parafraseando o título deste “post” diria que tens fome de mudança e fadiga da própria condição humana: só os mais capazes, os mais fortes sobreviverão. Contudo, gosto sempre de te ler, meu bom rousseauniano. Só te falta escrever um livro - “Emílio”.

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