segunda-feira, 29 de agosto de 2011

«Conversa n'A catedral»


 
O romance de Mario Vargas Llosa, autêntica obra-prima da arte de narrar, recorre a técnicas verdadeiramente inovadoras no campo da literatura narrativa, como o cruzamento de tempos distintos da história ao longo de toda a obra, exigindo ao leitor um esforço suplementar de compreensão para se não perder nos diferenciados tempos diegéticos narrados simultaneamente, ou a apagamento do narrador por meio de saltos constante do discurso direto ao discurso indireto e, sobretudo, ao discurso indireto livre. Uma obra verdadeiramente gigantesca do universo romanesco do século XX.

O conteúdo desenvolve-se em torno de um encontro casual entre duas personagens que, à mesa de uma pestilenta tasca de Lima (capital do Peru), chamada «A catedral», desenrolam o fio das suas memórias de vários anos. E nesse rosário de lembranças, transparece o Peru corrupto e absurdo, miserável e mesquinho, totalitário e medonho, hipócrita e opaco. Em suma, um Peru onde se «pode ser tão sacana e viver feliz.» Os dois protagonistas são igualmente duas frustrações que desdobram sobre a mesa da tasca o facto de não terem podido realizar o que sonharam ou nem ousaram sonhar, porque longe de todas as possibilidades pessoais, históricas e sociais.
Ambrosio representa a pobreza surda, que se envergonha de si mesma, subserviente, que nem equaciona a possibilidade de ter direito a um lugar na vida social onde lhe não falte o essencial para a sobrevivência humana, porque considera a sua condição resultado apenas de uma inexorável e cega fatalidade ou de mera e inatacável conveniência social. Tudo o que obtém da vida é fruto de uma espécie de bondade «caridosa» que se contrista com a desgraça, mas nunca o efeito de uma justiça social que toda a consciência moderna reclama enquanto facto integrante e solidário da comunidade humana.
Santiago Zavala, oriundo de uma família de classe social elevada, com fortes ligações à ditadura, é um burguês que, no seu orgulho pessoal e rebeldia interior, não suporta os condicionamentos educacionais e sociais e rompe assim com os laços familiares, integrando primeiro as lutas estudantis organizadas pelos movimentos comunistas e, depois — desiludido com uma ideologia que é tão condicionante da liberdade individual como a ditadura peruana de direita e desiludido com os acontecimentos — renuncia à luta política e envereda pela modestíssima carreira de jornalista, para poder, apesar da frustração em que mergulha, respirar sem a sujeição a tutelas e padrões alheios.
Dois homens expropriados do mesmo bem-estar de que a maioria do Peru se vê privada. Ambrosio por razões de pertença e constrangimentos de ordem social; Santiago por ter negado a si mesmo o lugar social que o nascimento lhe havia oferecido.
Cada qual à sua maneira, defendem-se de um Peru deprimido, depauperado, apodrecido pela corrupção e por uma ditadura que protege interesses de grupo. E defendem-se por meio da evasão do álcool, da frequência de bordéis e, estranhamente, da constituição de relações de afeto pessoais que libertem o indivíduo de um olhar insuportável, crítico e fatalista sobre a vida política e social. Falta a Santiago a força anímica que lhe permita canalizar a sua insurreição — inteiramente cerrada no fundo do próprio ser — para a realização de um sonho que o liberte das amarras familiares de origem e o eleve, por mérito próprio, à condição social que, no fundo, sente ser a sua. E é assim que a advocacia, como tantos outros sonhos, ficam na berma da estrada à espera de melhores dias.
Mas a estonteante narrativa de Llosa é também a história privada de uma pluralidade de famílias e das relações, patentes ou ocultas, que entre elas se estabelecem. São os valores que se contrapõem, os segredos que arruínam a história pessoal, por obra de uma moral burguesa e hipócrita, as paixões que se repercutem com maior ou menor grau na vida social, os desencontros…
Por fim, é o Peru político, arrastado por interesses de classe e até por interesses pessoais que se digladiam para obterem ou manterem o poder. Ressuma, neste contexto, a perversão de uma ditadura que não convive de modo nenhum com o pensamento plural e que recorre à força, ao uso indiscriminado da violência, às prisões políticas, à censura aberta ou encapotada, ao reforço de um dogmatismo (que, deste ponto de vista, se não diferencia do dogmatismo comunista) exigindo obediência cega, como se fora uma fé religiosa, a eleições que visam manter a aparência democrática, a manifestações forjadas oficialmente, através da arregimentação por via do medo ou do dinheiro, para que não falte ao regime o apoio aparente da massa popular, à contenção de toda a tensão e revolta, patente em greves ou outras manifestações não autorizadas, ao custo colossal da segurança do regime que recorre a todos os meios para atingir os seus fins, como o suborno de descontentes e ambiciosos, ao convívio benevolente com uma classe média que vive de expedientes à custa da exploração dos deserdados… Um regime, portanto, virado sobre si mesmo, sobre a sua própria subsistência. Razão pela qual se narra simultaneamente a história de um Peru indigente, cuja doença mortal se propaga como uma patologia infetocontagiosa. Mas a ditadura não é um todo coerente. Contém os germes das suas contradições e, portanto, da sua destruição, porque os senhores do regime se não contentam com qualquer lugar. Querem tudo. E conspiram abertamente pela derrota do ditador de turno para assumirem eles os lugares cimeiros ou vingarem alguma desconsideração que o regime lhes tenha feito. Porque a história política e a história pessoal têm ligações que nem sempre se reconhecem, por habitarem espaços escondidos da alma humana, longe dos olhares curiosos dos outros.

Que terá tudo isto a ver com a história do século XX português? Creio que muito. Também por aqui sofremos a depressão de um regime autoritário, que teimava, para estrangeiro ver, em manter a aparência democrática, mas fazia sucumbir toda a novidade, asfixiando o tecido social português e reduzindo-o a escombros. E ainda hoje nos ressentimos dessa página negra da história nacional. O atraso económico, os reduzidos níveis de intervenção política e social do povo, o analfabetismo total ou funcional, a corrupção, o recurso a técnicas de sobrevivência fundadas na esperteza saloia, no logro, na fuga às obrigações sociais…
Estaremos — como parecia preconizar o pessimismo de Jorge de Sena ao afirmar que «Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo, porque estará para sempre perdido como merece. Nós é que precisamos que nos salvem dele!» — irremediavelmente perdidos na nossa mediocridade coletiva? Não acredito em fatalismos, mas uma reviravolta estrutural no país que amo não se faz senão em várias gerações. Contudo, para que tal venha a suceder, necessitamos de visionários, de gente que saiba para onde vai e porque se encaminha para determinado fim. E precisa igualmente da intervenção cívica de todos os cidadãos no sentido de proporem alternativas viáveis e de exercerem o seu direito ao controlo sobre o poder político. Porque uma democracia não pode ser um sistema meramente formalista. Não basta haver eleições. É urgente inovar o quotidiano com a criatividade mental que nos afasta dos outros animais.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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