quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Bem superior às pérolas é o seu valor


 
A Bíblia hebraica (a Tanakh) é constituída por três partes: a Torah (a Lei), que os cristãos designam por Pentateuco (constituído pelos cinco primeiros livros da Bíblia), os Neviim ou Profetas e os Ketuviim ou Escritos. A este terceiro conjunto, pertence o livro dos Provérbios, um texto de caráter sapiencial. Não é, de modo algum, um conjunto orgânico, mas um documento compósito no qual foram reunidos textos diversos do género literário sapiencial de épocas bem diferenciadas.
Um dos aspetos mais interessantes desta coletânea é o facto de conter textos atribuídos a autores árabes (fictícios), uma vez que a sabedoria dos povos vizinhos de Israel era muito considerada entre os sábios israelitas. Alguns trechos são ainda autênticas reelaborações de textos egípcios ou acádicos (ugaríticos), que hoje felizmente se conhecem. Este facto pode ter um significado religioso bastante interessante: Israel, ou pelo menos os sábios israelitas, não compreendia a revelação de Deus como sua pertença exclusiva. Deus também se manifestava aos outros povos, ainda que de maneira incipiente. É provavelmente essa a razão pela qual os escritores bíblicos não tinham qualquer pejo em se inspirarem em textos estrangeiros que gozavam de grande autoridade no Próximo Oriente Antigo, quando procediam à redação dos seus.
Talvez este facto nos possa fazer pensar um pouco — a nós, cristãos —, quando pretendemos ser a única (no sentido de a mais perfeita e necessária à salvação) Verdade de Deus à humanidade. Na realidade, Deus não se resume aos nossos esquemas mentais. E não seria de modo algum compreensível que se revelasse definitivamente a um determinado povo, enquanto permanecia calado ou exprimisse de maneira confusa a sua palavra na história dos demais. A pretensão absoluta do cristianismo, tal como a de qualquer outra religião, não tem, a meu ver, nenhuma justificação racional.
Mas o que me importa referir aqui é o conteúdo do epílogo do livro dos Provérbios (31, 10-31) ao fazer, num belo texto poético, o elogio da mulher perfeita. Todos sabemos que a cultura hebraica era essencialmente patriarcal, fundada, portanto, no poder do homem, tanto no âmbito estritamente familiar como no da organização pública da vida. No entanto, este texto pode ser ainda hoje uma interessantíssima reflexão sobre aquilo que se espera — do ponto de vista da ação prática, fundada numa ética e numa visão religiosa do mundo — não apenas da mulher mas também do homem.
Vejamos quais são as virtudes enaltecidas pelo autor do texto. Antes de mais, a mulher perfeita é digna de confiança; a sua ação rege-se pelo princípio ético do bem e, ao conduzir a vida a partir dele, fá-lo de modo coerente durante a totalidade da sua vida; é trabalhadora e solícita na orientação dos afazeres dos que estão sob sua tutela (o texto descreve com pormenor os vários trabalhos que eram confiados à mulher); tem compaixão dos pobres e partilha com eles os seus haveres; é previdente, não permitindo que o futuro lhe traga surpresas desagradáveis, razão pela qual não teme o que há de vir; é forte, decorosa, sábia e bondosa no falar e, sobretudo, teme a Deus (ou seja, obedece à sua vontade expressa através da Lei). E por condensar todas estas virtudes, uma mulher assim é, na realidade, um tesouro difícil de encontrar, sendo o seu valor bem superior ao das pérolas.
Por reunir semelhantes virtudes, os bens não lhe hão de faltar, o futuro há de sorrir-lhe, os filhos e o marido hão de elogiá-la, o marido, exatamente por causa dela, será considerado entre os homens da cidade e as obras dela elogiadas pelos que governam os destinos da comunidade.
A par do enaltecimento das virtudes, vem igualmente a denúncia do que é comummente tido como valioso, mas não passa, afinal, de puro engano: a graça e a beleza física. Para a formulação deste juízo, profundamente baseada na experiência de vida, poderão ter concorrido, embora de forma não explícita, a noção da precaridade temporal dos bens físicos, bem como a efemeridade da perceção que o outro vai tendo deles ao longo dos anos.
Abstraindo do conteúdo patriarcal deste texto, patente na atribuição destas virtudes apenas à mulher, julgo que continua a ser um interessante ponto de orientação tanto para mulheres como para homens, quando investem na procura da pessoa com quem hão de partilhar a totalidade da vida (no seu duplo sentido).
 
Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Parabéns por esta interessantíssima reflexão.
    Considero que o que é valioso, mais do que as pérolas, em homens e mulheres, é a sua riqueza interior, a sua personalidade, o seu carácter, os valores que preconiza, a forma como interage com os outros, a sua sensibilidade e a sua inteligência.
    A beleza física, que com a beleza interior, desempenha também um papel fundamental na atracção entre duas pessoas, considero que nunca deixa de existir mesmo com os efeitos da passagem do tempo.
    A beleza física de alguém em cada década que passa é diferente, mas atractiva, se soubermos captá-la sem as lentes distorcidas da publicidade que teima em insistir que todos devemos sempre ter caras e corpos jovens, manipulados muitas vezes de tal forma que nem correspondem à realidade.
    O mito da eterna juventude e o de que só novas paixões são capazes de despertar atracção estão muito presentes nos tempos que vivemos e podem conduzir a terríveis desilusões e à perda daquele ou daquela que era de facto mais valioso(a) que as pérolas, mas que não se soube valorizar devidamente ao deixar-se arrastar por estes mitos.
    Concordo, pois como refere este post, que vale a pena deixar-mo-nos inspirar por quantos textos nos conduzem a uma leitura sábia e dignificante da vida, como é o caso. Ela será assim, não apenas bela, como propiciará uma felicidade autêntica em que cada um(a) é apreciado(a) exactamente por ser aquilo que é tenha que idade tiver.

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