sábado, 20 de agosto de 2011

Agricultura e preservação do ambiente

 Floresta Amazónica


Os acontecimentos não são facilmente interpretáveis. Sobretudo se tivermos em conta a complexidade das sociedades modernas e a sua interdependência, a chamada globalização. Duas notícias recentes suscitam em mim sentimentos aparentemente contraditórios.
A primeira, que diz respeito a um fenómeno que se arrasta pelo menos desde 2010, é a denúncia do aumento dos preços dos produtos alimentares a nível mundial. Os efeitos, segundo o presidente do Banco Mundial, serão dois: empurrar para a pobreza extrema vários milhões de seres humanos e provocar a instabilidade política em zonas do planeta mais inconstantes. As vítimas são invariavelmente as mesmas. Os países em desenvolvimento (um eufemismo para países pobres) estão muito mais vulneráveis a esta escalada de preços, uma vez que o grosso dos seus rendimentos é canalizado para esses bens. Mas o maior problema parece ser o que estará eventualmente para vir. Se os países mais ricos reconhecerem que os alimentos são um bem escasso, como vão reagir? Travar as exportações seria a maneira mais simples de fazer face à dificuldade e, consequentemente… condenar à morte muitos milhões do outro lado das fronteiras. Seria o puro egoísmo e hipocrisia dos ricos, que aprovam belos documentos em fóruns internacionais, defendendo os direitos fundamentais de todos os seres humanos, mas tomam medidas concretas no plano económico condenando à inanição e morte muitos milhões. Sempre é verdade que todos somos iguais, mas uns mais iguais do que outros! E nesta situação, só a opinião pública pode evitar que uma tal sentença possa ser proferida. Nas sociedades democráticas, o poder não é apenas entregue aos políticos, enquanto legítimos representantes dos interesses coletivos, mantém-se igualmente nas mãos da sociedade civil, podendo e devendo ela exercê-lo quando os governantes orientam a sua ação a partir de critérios exclusivamente económicos ou, o que é bem pior, nacionalistas, como se os outros seres humanos, só porque não tiveram a sorte de nascer num país abastado, não fossem portadores dos mesmos direitos e da mesma dignidade. A solidariedade planetária deve sobrepor-se aos egoísmos nacionais, tal como o interesse de toda uma nação se deve sobrepor aos interesses de determinados grupos específicos. Em qualquer parte do mundo, o homo sapiens é simplesmente o homo sapiens. Toda a distinção que conduza à redução dos direitos fundamentais deve ser abandonada, em nome da unidade inalienável da família humana.
A segunda notícia é a de que a floresta da Amazónia perdeu só em junho de 2011 mais de trezentos quilómetros quadrados de superfície. Contudo, o mais assustador é que não só não foi possível deter (e nem sequer conter) a desflorestação do maior pulmão do mundo, como até se assistiu a um aumento da sua desflorestação em relação a anos anteriores. Mesmo depois de todos os avisos oriundos da comunidade científica e de ativistas, bem como das alterações (climáticas e não só) no precário equilíbrio biológico do nosso planeta, teimamos em dizimá-lo, apesar de estarmos conscientes de que é a única habitação, na imensa extensão do universo, que podemos legar aos nossos filhos e aos nossos netos. A verificar-se no futuro o que tem ocorrido até agora, herdarão um cúmulo de detritos onde já não será possível sequer imaginar toda a variedade e beleza que a Terra nos oferece. Somos afortunados por viver num tempo em que ainda é possível usufruir de toda essa diversidade! E com o lixo que lhes havemos de legar, condenamos à morte as gerações vindouras. Seria muito pedir a cada cidadão, a cada agente económico, a cada político que cuidasse do único espaço onde sabemos ser possível a vida humana? Na Amazónia são os interesses dos madeireiros. Noutras partes do mundo serão os interesses económicos de outros agentes. E quem zela pelos interesses inadiáveis da humanidade enquanto família planetária? Tendemos a ver apenas até onde o nosso olhar alcança. Enquanto caminhamos, não erguemos do chão a vista, com medo de que o horizonte nos abale a consciência ética. Como poderemos esboçar objetivos que ultrapassem a mesquinhez dos nossos interesses restritos? É ainda o mesmo egoísmo, a mesma forma parcelar de observar o mundo e a humanidade que nos faz virar as costas aos estrangeiros, aos que têm outra cor de pele, aos que defendem ideias diferentes ou são crentes de outras religiões e restringe os nossos objetivos ao tempo de vida de cada geração, sem salvaguardar as condições de existência a que as próximas têm também direito.
Mas há um outro ponto de contacto entre estas duas notícias. Queremos que os bens alimentares sejam suficientes para toda a humanidade. Exigimos que cheguem a todos os cantos do planeta. Mas esta obrigação ética, aliada ao aumento exponencial do número de seres humanos no planeta (atualmente cerca de seis mil oitocentos e quinze milhões de pessoas), obriga à utilização do espaço terrestre tanto para habitação como para a atividade agrícola. Produzir alimentos suficientes para alimentar tantas pessoas exige grandes extensões de terra. É esse um dos motivos por que a desflorestação do planeta é tão rápida. Queremos, portanto, coisas contraditórias: que todos tenham acesso aos alimentos e que o planeta possa manter a biodiversidade que lhe é caraterística. Só parece haver uma solução para o dilema: a diminuição drástica dos índices de natalidade em todo o mundo. Se continuarmos a aumentar como tem acontecido até agora, não há planeta que chegue para as necessidades básicas. E muitos dos seres humanos, legitimamente, querem viver bem acima das necessidades básicas!
Nos países mais ricos, a natalidade tem sido contida. Estudos feitos revelam que a sua redução não se deve apenas às campanhas favoráveis ao controlo da natalidade, mas sobretudo ao aumento da escolaridade. Quanto mais escolarizada estiver uma sociedade, menor número de filhos, em média, tem uma família. A educação é a pedra de toque para a salvação do planeta, a nossa casa comum, e a criação de condições humanamente dignas para todos as pessoas, qualquer que seja a sua proveniência, credo, condição social, etc.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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