segunda-feira, 29 de agosto de 2011

«Conversa n'A catedral»


 
O romance de Mario Vargas Llosa, autêntica obra-prima da arte de narrar, recorre a técnicas verdadeiramente inovadoras no campo da literatura narrativa, como o cruzamento de tempos distintos da história ao longo de toda a obra, exigindo ao leitor um esforço suplementar de compreensão para se não perder nos diferenciados tempos diegéticos narrados simultaneamente, ou a apagamento do narrador por meio de saltos constante do discurso direto ao discurso indireto e, sobretudo, ao discurso indireto livre. Uma obra verdadeiramente gigantesca do universo romanesco do século XX.

O conteúdo desenvolve-se em torno de um encontro casual entre duas personagens que, à mesa de uma pestilenta tasca de Lima (capital do Peru), chamada «A catedral», desenrolam o fio das suas memórias de vários anos. E nesse rosário de lembranças, transparece o Peru corrupto e absurdo, miserável e mesquinho, totalitário e medonho, hipócrita e opaco. Em suma, um Peru onde se «pode ser tão sacana e viver feliz.» Os dois protagonistas são igualmente duas frustrações que desdobram sobre a mesa da tasca o facto de não terem podido realizar o que sonharam ou nem ousaram sonhar, porque longe de todas as possibilidades pessoais, históricas e sociais.
Ambrosio representa a pobreza surda, que se envergonha de si mesma, subserviente, que nem equaciona a possibilidade de ter direito a um lugar na vida social onde lhe não falte o essencial para a sobrevivência humana, porque considera a sua condição resultado apenas de uma inexorável e cega fatalidade ou de mera e inatacável conveniência social. Tudo o que obtém da vida é fruto de uma espécie de bondade «caridosa» que se contrista com a desgraça, mas nunca o efeito de uma justiça social que toda a consciência moderna reclama enquanto facto integrante e solidário da comunidade humana.
Santiago Zavala, oriundo de uma família de classe social elevada, com fortes ligações à ditadura, é um burguês que, no seu orgulho pessoal e rebeldia interior, não suporta os condicionamentos educacionais e sociais e rompe assim com os laços familiares, integrando primeiro as lutas estudantis organizadas pelos movimentos comunistas e, depois — desiludido com uma ideologia que é tão condicionante da liberdade individual como a ditadura peruana de direita e desiludido com os acontecimentos — renuncia à luta política e envereda pela modestíssima carreira de jornalista, para poder, apesar da frustração em que mergulha, respirar sem a sujeição a tutelas e padrões alheios.
Dois homens expropriados do mesmo bem-estar de que a maioria do Peru se vê privada. Ambrosio por razões de pertença e constrangimentos de ordem social; Santiago por ter negado a si mesmo o lugar social que o nascimento lhe havia oferecido.
Cada qual à sua maneira, defendem-se de um Peru deprimido, depauperado, apodrecido pela corrupção e por uma ditadura que protege interesses de grupo. E defendem-se por meio da evasão do álcool, da frequência de bordéis e, estranhamente, da constituição de relações de afeto pessoais que libertem o indivíduo de um olhar insuportável, crítico e fatalista sobre a vida política e social. Falta a Santiago a força anímica que lhe permita canalizar a sua insurreição — inteiramente cerrada no fundo do próprio ser — para a realização de um sonho que o liberte das amarras familiares de origem e o eleve, por mérito próprio, à condição social que, no fundo, sente ser a sua. E é assim que a advocacia, como tantos outros sonhos, ficam na berma da estrada à espera de melhores dias.
Mas a estonteante narrativa de Llosa é também a história privada de uma pluralidade de famílias e das relações, patentes ou ocultas, que entre elas se estabelecem. São os valores que se contrapõem, os segredos que arruínam a história pessoal, por obra de uma moral burguesa e hipócrita, as paixões que se repercutem com maior ou menor grau na vida social, os desencontros…
Por fim, é o Peru político, arrastado por interesses de classe e até por interesses pessoais que se digladiam para obterem ou manterem o poder. Ressuma, neste contexto, a perversão de uma ditadura que não convive de modo nenhum com o pensamento plural e que recorre à força, ao uso indiscriminado da violência, às prisões políticas, à censura aberta ou encapotada, ao reforço de um dogmatismo (que, deste ponto de vista, se não diferencia do dogmatismo comunista) exigindo obediência cega, como se fora uma fé religiosa, a eleições que visam manter a aparência democrática, a manifestações forjadas oficialmente, através da arregimentação por via do medo ou do dinheiro, para que não falte ao regime o apoio aparente da massa popular, à contenção de toda a tensão e revolta, patente em greves ou outras manifestações não autorizadas, ao custo colossal da segurança do regime que recorre a todos os meios para atingir os seus fins, como o suborno de descontentes e ambiciosos, ao convívio benevolente com uma classe média que vive de expedientes à custa da exploração dos deserdados… Um regime, portanto, virado sobre si mesmo, sobre a sua própria subsistência. Razão pela qual se narra simultaneamente a história de um Peru indigente, cuja doença mortal se propaga como uma patologia infetocontagiosa. Mas a ditadura não é um todo coerente. Contém os germes das suas contradições e, portanto, da sua destruição, porque os senhores do regime se não contentam com qualquer lugar. Querem tudo. E conspiram abertamente pela derrota do ditador de turno para assumirem eles os lugares cimeiros ou vingarem alguma desconsideração que o regime lhes tenha feito. Porque a história política e a história pessoal têm ligações que nem sempre se reconhecem, por habitarem espaços escondidos da alma humana, longe dos olhares curiosos dos outros.

Que terá tudo isto a ver com a história do século XX português? Creio que muito. Também por aqui sofremos a depressão de um regime autoritário, que teimava, para estrangeiro ver, em manter a aparência democrática, mas fazia sucumbir toda a novidade, asfixiando o tecido social português e reduzindo-o a escombros. E ainda hoje nos ressentimos dessa página negra da história nacional. O atraso económico, os reduzidos níveis de intervenção política e social do povo, o analfabetismo total ou funcional, a corrupção, o recurso a técnicas de sobrevivência fundadas na esperteza saloia, no logro, na fuga às obrigações sociais…
Estaremos — como parecia preconizar o pessimismo de Jorge de Sena ao afirmar que «Cada vez mais penso que Portugal não precisa de ser salvo, porque estará para sempre perdido como merece. Nós é que precisamos que nos salvem dele!» — irremediavelmente perdidos na nossa mediocridade coletiva? Não acredito em fatalismos, mas uma reviravolta estrutural no país que amo não se faz senão em várias gerações. Contudo, para que tal venha a suceder, necessitamos de visionários, de gente que saiba para onde vai e porque se encaminha para determinado fim. E precisa igualmente da intervenção cívica de todos os cidadãos no sentido de proporem alternativas viáveis e de exercerem o seu direito ao controlo sobre o poder político. Porque uma democracia não pode ser um sistema meramente formalista. Não basta haver eleições. É urgente inovar o quotidiano com a criatividade mental que nos afasta dos outros animais.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

sábado, 27 de agosto de 2011

Uma outra forma de vida


 
Pergunto-me se o crescimento económico, índice central de desenvolvimento nas atuais sociedades, fundadas na economia de mercado, não terá um limite. O aumento constante da riqueza produzida será, a longo prazo, um caminho sustentável? Parece-me difícil que assim seja. Os recursos disponíveis no planeta são limitados e não comportam uma exploração galopante que tenda para o infinito. Se outras razões não houver, esta parece-me constituir uma baliza inultrapassável.
Se este prognóstico estiver correto — e não sendo economista, não estou certo disso —, estará a economia capitalista condenada? De facto, o capitalismo funciona com base na procura permanente de maiores níveis de acumulação de riqueza e, portanto, de crescimento económico. Talvez as previsões de Marx, segundo as quais o capitalismo transporta consigo o vírus da sua própria autodestruição, estejam certas. Será tudo uma questão de tempo!
E se começássemos desde já a preparar essa outra sociedade, fundada em outros critérios que não a desenfreada acumulação de lucros, em vez de esperarmos o momento em que a crise derradeira não permitir outra saída? É que se esperarmos passivamente esse tempo, quando chegar talvez seja tarde de mais; talvez os recursos naturais estejam irremediavelmente comprometidos; talvez tenhamos perdido a oportunidade de reorganizarmos, em tempo útil, a vida coletiva com base noutra hierarquia de valores.
Provavelmente, teremos de ser mais modestos. Teremos de nos contentar com níveis de bem-estar mais moderados em vez de prosseguirmos o ideal da satisfação constante de novos desejos, sempre acirrados por uma agressiva e poderosa máquina publicitária.
Aprender a viver com menos, mas não com menor qualidade, eis o sábio equilíbrio que somos chamados a estabelecer. Possivelmente, não necessitando de produzir tanto, talvez possamos dedicar mais tempo a outros interesses, a outras necessidades mais profundas: o afeto, o lazer, a cultura, etc. Mas para que isso ocorra, é urgente darmos um salto qualitativo em termos de literacia cultural, diversificando os valores a que damos importância e dedicamos tempo. Habituados a viver não apenas do, mas sobretudo para o trabalho, o preenchimento do tempo pessoal, para além das horas dedicadas à profissão, é, em muitos casos, vivido sob o signo da falta de sentido e da desorientação. Como um narcótico que exige ser consumido, e sempre em doses mais elevadas, o trabalho infiltra-se na vida humana roubando espaço a qualquer outra atividade permeada de sentido. O capitalismo transforma-nos simplesmente em imparáveis máquinas de produção. Quando estaremos em condições de adquirir outra sabedoria de vida pessoal e coletiva?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Os «segredos» de Fátima


 
Gosto de visitar Fátima, como me apraz visitar locais onde o silêncio possa fazer eco em mim, consentindo um melhor encontro comigo mesmo e com aquele de cuja existência tudo depende. Isto que direi de seguida não revela, pois, qualquer má vontade em relação a Fátima, enquanto local privilegiado para a oração. Sempre que lá vou, aproveito para procurar Deus, na medida das minhas parcas possibilidades, no abismo interior da alma.
Contudo, não posso deixar de dizer o quão me desgostam muitas práticas religiosas amplamente permitidas, se não mesmo incentivadas, pelas autoridades religiosas. Sobretudo as promessas e o seu cumprimento penoso e degradante, em nada conforme à dignidade das pessoas e muito menos à vontade benevolente de Deus, que não quer para o ser humano o sofrimento, mas a felicidade.
Na verdade, esta espiritualidade sacrificial nasce de um equívoco. O que significa a palavra penitência amplamente repetida nas memórias da irmã Lúcia? Decerto, no tempo em que foram redigidos e no contexto dos seus escritos, significa o sofrimento que alguém procura voluntariamente como via de salvação própria ou alheia. Mas por que razão um Deus bom e misericordioso haveria de exigir do ser humano um qualquer padecimento «reparador» como condição de possibilidade de toda a salvação? Alguma coisa não joga bem! Em meu entender, não é o sofrimento que Deus exige de nós, mas um comportamento ético que respeite cada pessoa, o lugar onde reside e se manifesta a autêntica imagem de Deus.
Na Bíblia, a palavra penitência significa «voltar-se», «mudar de direção» ou «mudar de mentalidade»[1]. É, portanto, sinónimo de arrependimento e conversão humana à vontade de Deus, permitindo assim que ele exerça o seu poder salvífico através do perdão e do acolhimento do pecador. Do ponto de vista da sua substância, não se refere a sofrimento, mas a transfiguração do coração e da consciência.
Parece-me, assim, desajustada a linguagem usada pela irmã Lúcia quando descreve os famosos «segredos» e quando coloca na boca de Maria constantes injunções ao jejum e à «penitência», dando largas a uma mentalidade religiosa amplamente apreciada nesse tempo e infelizmente não inteiramente ultrapassada.
Os chamados «segredos» de Fátima foram alegadamente revelados aos pastorinhos no dia 13 de julho de 1917. Mas os documentos que descrevem o que teria sucedido nesse dia são datados de 1941 (Terceira memória da irmã Lúcia), no que se refere aos dois primeiros, e de 1944 (Carta da irmã Lúcia), no que se refere ao terceiro segredo. A própria linguagem do «segredo» apela para a imaginação, para o mistério, para a linguagem apocalítico-profética.
Mas em primeiro lugar, leiamos os textos desta carmelita:

«Bem o segredo consta de três coisas distintas, duas das quais vou revelar.
A primeira foi pois a vista do inferno!
Nossa Senhora mostrou-nos um grande mar de fogo que parecia estar debaixo da terra. Mergulhados em esse fogo os demónios e as almas, como se fossem brasas transparentes e negras, ou bronzeadas com forma humana, que flutuavam no incêndio levadas pelas chamas que delas mesmas saíam, juntamente com nuvens de fumo, caindo para todos os lados, semelhante ao cair das faúlhas em os grandes incêndios sem peso nem equilíbrio, entre gritos e gemidos de dor e desespero que horrorizava e fazia estremecer de pavor. Os demónios distinguiam-se por formas horríveis e asquerosas de animais espantosos e desconhecidos, mas transparentes e negros. Esta vista foi um momento, e graças à nossa boa Mãe do Céu, que antes nos tinha prevenido com a promessa de nos levar para o Céu (na primeira aparição), se assim não fosse, creio que teríamos morrido de susto e pavor.
«Em seguida, levantámos os olhos para Nossa Senhora que nos disse com bondade e tristeza:
«— Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que eu disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar, mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite, alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. Para a impedir virei pedir a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá e terão paz, se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja, os bons serão martirizados, o Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas, por fim o meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á a Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz.»[2]

Leiamos também o texto do chamado terceiro «segredo»:

«Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo em a mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos numa luz imensa que é Deus: “algo semelhante a como se veem as pessoas num espelho quando lhe passam por diante” um Bispo vestido de Branco “tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre”. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fora de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trémulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas e várias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de várias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, neles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus.»[3]

O secretário da Congregação para a Doutrina da Fé, acompanhado pelo bispo de Leiria, encontrou-se com a irmã Lúcia num colóquio a 27 de abril de 2000, para obter dela algumas palavras a respeito da interpretação do terceiro segredo. Em concreto, o papa João Paulo II havia interpretado o terceiro segredo como dizendo respeito ao atentado de que fora vítima. Tratava-se agora de perceber se esta versão poderia ser subscrita pela vidente.
«A Irmã Lúcia concorda com a interpretação segundo a qual a terceira parte do «segredo» consiste numa visão profética, comparável às da história sagrada. Ela reafirma a sua convicção de que a visão de Fátima se refere sobretudo à luta do comunismo ateu contra a Igreja e os cristãos, e descreve o imane sofrimento das vítimas da fé no século XX.
«À pergunta: “A personagem principal da visão é o Papa?”, a Irmã Lúcia responde imediatamente que sim (…).
«Quanto à passagem relativa ao Bispo vestido de branco, isto é, ao Santo Padre, que é ferido de morte e cai por terra, a irmã Lúcia concorda plenamente com a afirmação do Papa: “Foi uma mão materna que guiou a trajetória da bala e o Santo Padre agonizante deteve-se no limiar da morte.”»

O então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (e atual papa) redigiu um comentário teológico bastante interessante, do qual gostaria de ressaltar alguns excertos.

«É isto o que a Mãe do Senhor queria comunicar à cristandade, à humanidade num tempo de grandes problemas e angústias? Serve-nos de ajuda no início do novo milénio? Ou não serão talvez apenas projeções do mundo interior de crianças, crescidas num ambiente de profunda piedade, mas simultaneamente assustadas pelas tempestades que ameaçavam o seu tempo?
«Podemos acrescentar que frequentemente as revelações privadas provêm da piedade popular e nela se refletem.
«Na visão interior, há, de maneira ainda mais acentuada que na exterior, um processo de tradução, desempenhando o sujeito uma parte essencial na formação da imagem daquilo que aparece. A imagem pode ser captada apenas segundo as suas medidas e possibilidades. Assim, tais visões não são em caso algum a “fotografia” pura e simples do Além, mas trazem consigo também as possibilidades e limitações do sujeito que as apreende.
«As imagens por eles delineadas não são de modo algum mera expressão da sua fantasia, mas fruto duma perceção real de origem superior e íntima. Poder-se-ia dizer que as imagens são uma síntese entre o impulso vindo do Alto e as possibilidades disponíveis para o efeito por parte do sujeito que as recebe. Esta sobreposição de tempos e espaços numa única imagem é típica de tais visões, que, na sua maioria, só podem ser decifradas a posteriori.
«“Devoção” ao Imaculado Coração de Maria é aproximar-se desta atitude do coração, na qual o fiat — “seja feita a vossa vontade” — se torna o centro conformador de toda a existência.
«Palavra-chave da primeira e segunda parte do “segredo”, a frase «salvar as almas»; palavra-chave desta [terceira] parte do “segredo” é o tríplice grito: “Penitência, Penitência, Penitência!”
«O que permanece é a exortação à oração como caminho para a “salvação das almas”, e no mesmo sentido o apelo à penitência e à conversão.»[4]

O que dizer de tudo isto? Apesar do esforço meritório do teólogo Ratzinger para reinterpretar o texto da irmã Lúcia à luz de uma visão mais conforme ao nosso tempo e, principalmente, à mensagem originária do cristianismo, devo confessar que o conteúdo das supostas aparições de Fátima é inútil, equívoco e desadequado.
Inútil porque não pretende acrescentar o que quer que seja ao conteúdo do Evangelho. Basta-nos, então, o Evangelho! Equívoco e desadequado porque, em momentos-chave, o seu conteúdo entra em flagrante contradição com o melhor entendimento da fé. Passo a justificar.
Para além da já referida conceção segundo a qual a vida cristã deve orientar-se, em boa medida, para a procura do sofrimento pessoal (perspetiva inteiramente contrária à mensagem e ação de Jesus), como forma de obter de Deus o perdão dos pecados (coisa estranha, sendo ele infinitamente misericordioso!), o texto está eivado de afirmações equívocas ou sem sentido.
Ao recorrer ao sistema semiótico da linguagem apocalítica, aproxima o seu discurso do tipo de linguagem a que têm recorrido algumas seitas modernas, por forma a incutir nas pessoas o medo da danação eterna, a controlo as consciências e da liberdade humana, mantendo o indivíduo sob tutela. Não é esta a religião de Cristo. «Foi para a liberdade que Cristo nos libertou» (Gl 5,1) e não para que nos mantenhamos escravos do medo de uma suposta ira de Deus. Se para Jesus Deus é amor, que mais haveremos de temer? «Quem irá acusar os crentes em Deus? Deus é quem nos justifica! Quem irá condená-los? Jesus Cristo, aquele que morreu, mais, que ressuscitou, que está à direita de Deus é quem intercede por nós. Quem poderá separar-nos do amor de Cristo? A tribulação, a angústia, a perseguição, a fome, a nudez, o perigo, a espada? Mas em tudo isso saímos mais do que vencedores, graças àquele que nos amou. Estou convencido de que nem a morte nem a vida, nem os anjos nem os principados, nem o presente nem o futuro, nem as potestades, nem a altura, nem o abismo, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Senhor nosso» (Rm 8, 33-39). E é esta confiança desmedida na bondade de Deus, que é ponto fulcral na mensagem cristã.
Não fosse o caso de se poder acolher como texto literário, a descrição do inferno, enquanto espaço antropomórfico, salpicado de demónios e almas submetidas ao mais deprimente pavor e sofrimento, raiaria o ridículo. É evidentemente a projeção das imagens de pregadores do seu tempo, lançando o terror sobre os fiéis nas suas homilias.
Outro problema de que enferma o texto é a centração de toda a mensagem numa personagem perfeitamente marginal da literatura cristã originária: Maria, a mãe de Jesus. Confrontemos os dogmas e as múltiplas devoções a Maria (incluindo a devoção ao Imaculado Coração de Maria) com a parcimónia com que esta personagem aflora no texto bíblico. A exuberância medieval que se estende até à idade moderna é, pois, inteiramente injustificada, atendendo à relevância da sua presença nos textos fundacionais do cristianismo. Mas percebe-se a razão por que a espiritualidade cristã foi empolando a figura de Maria. O contexto de uma religião patriarcal, centrada na figura do homem e do seu poder, não respondia à necessidade intrínseca e universal de proteção materna. Maria é assim o lado feminino de Deus, a reinvenção de Deus como Deusa-mãe, seio inaugural de todas as coisas. Obviamente, já nada disto tem que ver com a figura histórica daquela mulher que percorreu anonimamente a Palestina de há dois mil anos. Dir-se-ia que a mulher concreta foi um simples pretexto para o surgimento da Deusa. Claro que este problema não está inscrito apenas nos textos da irmã Lúcia, mas no «mariologismo» que, em conjunto com o culto da figura papal, tem perpassado a Igreja católica.
«(…) o grande sinal que Deus vos dá de que vai a punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre.» Gostaria de relevar três aspetos desta estranha afirmação. O primeiro prende-se com a ideia de que Deus pune o ser humano pelos pecados que comete. Ideia estranha a uma visão de Deus inteiramente positiva, de um Deus-amor, infinitamente bondoso. Uma eventual punição pelo pecado só pode ser entendida como uma autopunição humana, pois ao escolher a via da morte o ser humano não poderá encontrar senão a morte. Mas é a sua liberdade efetiva que o conduz ao desfecho, não uma qualquer punição divina, exterior! O segundo prende-se com o facto de interpretar um conjunto de fenómenos históricos inteiramente negativos (a guerra, a fome e as perseguições) como atos de Deus e não como resultado da liberdade humana, orientada por critérios avessos aos princípios que toda a consciência ética tem inscritos. O terceiro é um paradoxo: Deus pune o mundo dos seus crimes, mas alguns dos que são punidos não cometeram os crimes que conduziram à sua punição! Se a perseguição à Igreja e ao papa é uma punição divina, de que é que Deus castiga a Igreja e o papa?
A cura para os males do mundo não está, de acordo com o texto da irmã Lúcia, numa vida ética que se desdobre em atitudes concretas no quotidiano pessoal e coletivo, está em dois meros atos de devoção religiosa: a consagração da Rússia ao Coração Imaculado de Maria e a comunhão reparadora dos primeiros sábados! O primeiro ato é revelador de um certo anticomunismo primário da Igreja do século XX, o segundo é revelador de um pietismo que tem muito pouco a ver com o Evangelho.
Que significado terá a ideia da conversão da Rússia? A conversão é um ato eminentemente pessoal. A conversão de um país é no mínimo uma ideia estranha. Será a queda do totalitarismo comunista identificável com uma conversão? Não creio. Basta observar os novos problemas, entre os quais as mafias e a corrupção, que assolam a Rússia atual.
A narrativa da morte do papa vaticinada no terceiro «segredo» e da perseguição massiva ao catolicismo insere-se ainda numa visão apocalítica centrada na Igreja e sobretudo na figura do papa, enquanto personagem tutelar de uma inocência injustamente molestada. Não é alheio a todo este cenário um certo culto da personalidade que centra na pessoa do papa a sua atenção em vez de a centrar em Cristo. E que o papa João Paulo II se tenha visto diretamente implicado no vaticínio, catalisando a profecia em seu benefício, ainda que de boa-fé, compreende-se exatamente neste contexto.
Em suma, o que da mensagem de Fátima se pode aproveitar já o Evangelho contém. O que dela se não pode aproveitar aí está a testemunhar um caso clínico que bem teria merecido a seu tempo terapia adequada. Parafraseando Ratzinger (embora em sentido oposto) no seu inteligente comentário poderia afirmar que as aparições de Fátima, como muitas outras, mais não são do que projeções do mundo interior dos videntes, crescidos num ambiente de profunda piedade, mas simultaneamente assustados pelas tempestades que ameaçam o seu tempo.


[1] Monloubou L. & Du Buit F. M. Dicionário bíblico universal. Editora Santuário & Editora Vozes. Aparecida e Petrópolis. 2003.
[2] Irmã Lúcia, Terceira memória, de 31 de agosto de 1941. In http://www.vatican.va/ (23/08/2011).
[3] Carta da irmã Lúcia ao bispo de Leiria, Tuy, 3 de janeiro de 1944. In http://www.vatican.va/ (23/08/2011).
[4] Excertos do Comentário teológico de Joseph Ratzinger. In http://www.vatican.va/ (23/08/2011).

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.