sábado, 16 de julho de 2011

Um novo apelo à reforma


 
Cerca de trezentos padres austríacos assinaram um apelo à reforma na Igreja, empenhando-se diretamente nesse processo e desobedecendo, assim, às orientações oficiais da Igreja. Usam, deste modo, o direito de exprimirem publicamente as suas opiniões e de agirem em conformidade com a própria consciência, mesmo quando a perspetiva das estruturas está nos seus antípodas.
Propõem-se, portanto, não recusar a comunhão a pessoas de boa vontade — particularmente a divorciados recasados, a membros de outras Igrejas cristãs e, em certos casos, católicos que abandonaram a Igreja; permitir nas suas paróquias que o anúncio da palavra de Deus seja feito por fiéis leigos competentes e professoras de religião; defender publicamente a admissão de mulheres e de pessoas casadas ao sacerdócio; exprimir a sua total solidariedade para com os seus colegas que deixaram o sacerdócio para se casar e também com aqueles padres que continuam nas suas funções como sacerdotes, apesar de estarem a viver uma relação; etc.
No fundo, estes padres não só exigem a reforma da Igreja, como se comprometem em avançar nesse sentido, no âmbito das suas paróquias, em clara desobediência às diretivas oficiais da Igreja.
O cardeal Schönborn, de Viena, reagiu a esta tomada de posição, acusando o grupo de ferir a unidade da Igreja, afirmando mesmo que os casos mais extremos devem considerar abandonar a Igreja. Confessou-se chocado com a natureza pública da atitude dos padres em questão, mas admitiu encontrar-se com uma delegação em agosto ou setembro.
Sublinho, antes de mais, a coragem destes homens. No fundo, muito do que eles defendem é partilhado por muitíssimos padres e leigos dos mais variados países do mundo. A única diferença é que estes confessam publicamente a sua perspetiva e as suas tomadas de posição concretas, enquanto os outros tomam medidas semelhantes sem tornar público que o fazem. O cardeal de Viena mostrou-se chocado com o caráter público do apelo. Mas eu pergunto-me qual é a forma mais honesta de atuar. E não tenho muitas dúvidas quanto à resposta a dar. Temos de abandonar a hipocrisia que ainda grassa em algumas formas de atuar da Igreja, onde se age sem transparência e de forma mais ou menos oculto. Mas, como diz Jesus, nada do que é oculto será poupado à luz do dia. Muitos padres dão a comunhão a pessoas recasadas. De um modo geral, ninguém acha estranho e tudo acontece de forma normal. Mas se o mesmo padre se atrever a defender publicamente tal posição, os mais conservadores procuram-se empurrá-lo para fora da Igreja, como aliás propôs o próprio cardeal.
Não é a posição dos conservadores que me enerva. Têm todo o direito de defender as suas perspetivas, de viver em consonância com elas e de procurar que a Igreja corresponda à imagem que dela fazem. O que me enerva mesmo é a sua intransigência, a sua intolerância em conviver com quem persa diversamente. Elevam a obediência a valor supremo e, uma vez que Roma se pronuncia sobre tudo e mais alguma coisa, ao resto do povo de Deus é deixada apenas a liberdade de acatar e de agir em conformidade, como carneirinhos alinhados, sem autonomia nem vontade própria.
Pois a mim parece-me muitíssimo razoável o que estes padres pedem e as posições que tomam. E gostaria que fossem respeitados sem terem de sofrer o ostracismo a que normalmente são condenados os espíritos livres no interior da Igreja.
No que me toca, vejo na Igreja uma comunidade onde podem conviver muitas orientações diversas, sem que isso ponha minimamente em causa a unidade. Bastaria que regressássemos à simplicidade do evangelho de Cristo, como ponto de unidade inequívoco, e deixássemos o resto à liberdade de cada um. Afinal é ou não em Cristo que todos — conservadores e progressistas — depositam a sua confiança?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Parabéns aos padres austríacos e a todos os que ajudam a divulgar o seu acto de coragem.
    São posturas destas que ajudam a Igreja a abrir-se ao mundo sem perder a identidade espiritual que a caracteriza.

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  3. Concordo com a sua posição. A Igreja precisa de mudar! Infelizmente, parece que estamos a retroceder. Continue! Gosto muito dos seus textos.
    M Rosário Luís

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