segunda-feira, 25 de julho de 2011

Subindo o Douro vinhateiro


 
Este fim de semana regressámos ao Porto e fizemos a subida do Douro vinhateiro, aquela paisagem natural espantosamente luxuriante onde o rio nos rega de mansidão a alma. Estranhei apenas ver nas arribas a proliferação excessiva de eucaliptos. Um mal a que teremos de nos acostumar? Não sei! Porém, é o sinal inequívoco da voragem económica sem atenção às pegadas ecológicas que teimamos em deixar por onde quer que haja humanidade. Tal como a extração de areia que trouxe a desgraça aos despreocupados passageiros que morreram no Douro quando a ponte desabou já corroída pela avidez do lucro. No local, um belo anjo recorda que em Deus tudo pode ser transfigurado e que a tragédia, apesar de tudo, fez emergir uma maior preocupação das entidades oficiais pela segurança dos cidadãos.

Seja como for, valeu a pena sentir naqueles socalcos o trabalho honesto e o esforço contínuo por erguer da terra-mater um dos melhores vinhos de todo o mundo. Somos ou não capazes de sair do atoleiro em que reiteradamente nos convertemos? Sem dúvida que sim. Basta coragem, dedicação e vontade, coisa que nem sempre abunda.

Depois descemos até ao Porto, essa bela cidade granítica, de rosto voltado para o rio, que ora lhe oferece aquilo de que precisa, ora se enfurece fazendo ruir os incautos negócios junto às suas movediças margens.

Entretanto, à noite, ouvindo as notícias, fiquei estupefacto com o morticínio que um louco havia levado a cabo na pacata Noruega. E pergunto-me — como regularmente o faço em situações análogas — que motivação pode justificar, na mente de alguém, semelhante monstruosidade. Parece que se tratou de uma missão quase religiosa, quase medieval, com o propósito de realizar a limpeza étnica da Europa, alegadamente conspurcada pela presença alheia. E em vez de perceber que a Europa, como o mundo inteiro, é a casa comum de todos os habitantes da Terra, estes sanguinários defensores da tradição rasgam o corpo do mundo em pequenas parcelas e desejam erguer muralhas em torno da que lhes calhou em sorte para que ninguém mais possa juntar a sua à cultura indígena. Mas o que foi a Europa, à semelhança de quase todos os outros recantos do mundo, senão uma miscigenação constante e secular de culturas díspares? É a sua riqueza. É a sua vocação: a de receber o que os outros lhe podem oferecer e a de dar ao mundo o que foi construindo lenta e laboriosamente. Será isto perda da própria identidade? Talvez um pouco. Mas o que é a identidade de um povo senão um contínua que se prolonga no tempo integrando simultaneamente o recurso à tradição e a projeção no futuro, o orgulho por se ser devedor de uma história e a rutura com aspetos que, queiramos ou não, não subsistem às circunstâncias da vida? A identidade é uma realidade móvel, tal como tudo o que integra a vida humana, por estar necessariamente submetida à dimensão temporal. Não perceber isto é assassinar a história, é pretender trancar num baú o percurso sempre novo da vida. Talvez os noruegueses já não sejam tão loiros como foram, talvez os portugueses sejam agora mais escuros do que eram, mas que importa isso quando todos crescemos em humanidade, respeitando a diferença e colhendo dela o vinho mais apetecível que nos pode ser servido à refeição quotidiana?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Sem comentários:

Enviar um comentário