domingo, 3 de julho de 2011

O pecado foi inventado pela Igreja?

Anne La Bouchardière, «Ritual Firedance»

Vi o filme «José e Pilar». Uma espécie de documentário sobre a relação amorosa de José Saramago com Pilar del Rio.
Admiro a coerência deste homem. Mas, às vezes, a coerência resvala para o campo da intransigência e esta para uma certa cegueira que nos impede de racionar sem a nefasta influência dos preconceitos que todos temos e nos podem armadilhar a vida, tornando-nos reféns das suas ciladas.
Ser ateu militante é um direito de qualquer cidadão. A dignidade do ser humano e a liberdade que lhe está associada não permitiria que a sociedade exercesse qualquer espécie de violência sobre a liberdade individual, impondo-lhe um universo de valores religiosos, políticos, ou outros, com que ela se não identificasse. Toda a tirania é desumanidade.
Contudo, ser ateu não pode impedir a pessoa de olhar para a realidade com algum grau de objetividade e desprendimento, para que as suas convicções mais profundas não transformem o real apreendido pelo sujeito numa quimera sem fundamento na realidade factual.
Fiquei estupefacto quando ouvi o Saramago dizer — estou a citar de cor — que o pecado tinha sido inventado pela Igreja para que funcionasse como instrumento de domínio sobre os outros. Não sou propriamente ingénuo. Sei bem que ao longo da história da Igreja o pecado e as suas eventuais consequências ultraterrenas (o castigo eterno, o inferno) foram usados, por quem detinha o poder (religioso e político ou religioso-político), em algumas (não tão poucas como isso) circunstâncias, como instrumento de domínio sobre os outros. E isso é não só inaceitável do ponto de vista humano como até contrário à imagem de Deus que decorre da mensagem de Jesus.
Mas daí até declarar que a noção de pecado tinha sido arquitetada pela Igreja, ainda vai um longo caminho. E a distância entre uma e outra afirmação é simplesmente o espaço que dista entre a verdade e a ficção que provém da conceção ideológica de Saramago que aqui toma a forma de um preconceito.
Basta conhecer alguma coisa (não muito) da Bíblia para perceber que o conceito de pecado é muitíssimo anterior ao nascimento do cristianismo. Todo o antigo testamento é disso testemunha.
Podemos certamente dar as mais diversas definições de pecado, mas para simplificar defini-lo como desobediência àquilo que os crentes acreditam ser a vontade divina (de um Deus ou de vários deuses). E a vontade divina pode manifestar-se em normas de caráter ético-moral («não matar», por exemplo), em normas rituais (sacrifícios, etc.) ou em afirmações doutrinais (por exemplo, «crer na vida eterna»). Neste sentido, a noção de pecado remonta às primeiras manifestações religiosas e, portanto, aos primórdios da humanidade. Os tabus, as regras, os princípios, os códigos de leis, os processos litúrgicos, as listas de crenças abundam em todas as manifestações religiosas, sendo atribuídos à divindade ou a uma sua revelação. Aceitá-los e mobilizá-los nas situações adequadas era obrigações do crente, uma vez que correspondiam à vontade divina e eram o garante da salvação humana. A sua omissão, a prática de atos que os contradiziam, ou a oposição aberta tornavam, aos olhos da comunidade crente, o sujeito culpado de um «delito» religioso que consistia na desobediência expressa à vontade divina, desviando o indivíduo dos limites da salvação possível para a fronteira da sua perdição.
Estamos, portanto, muito longe de podermos afirmar que a Igreja forjou a noção de pecado para submeter as consciências individuais. Que ela tenha usado esse mecanismo universal como instrumento de poder, não restam dúvidas, mas não em todo o tempo e lugar, e muito menos sempre pelas piores razões. Num tempo em que a educação (formal) era praticamente nula, exigir que não se exercesse violência sobre o seu semelhante ou que se dissesse a verdade podia não resultar senão com base em razões de ordem religiosa. Era, portanto, compreensível que assim fosse. Hoje os tempos mudaram. Com o advento da escolarização e o desenvolvimento da autonomia humana, as pessoas percebem que a violência e a mentira devem ser evitadas, independentemente de terem ou não convicções de ordem religiosa. Estamos no campo dos fundamentos da ética que aqui não vamos aprofundar.
Volto, pois, à minha posição inicial. Tenho para mim que devemos precaver-nos da influência negativa que as nossas conceções ideológicas (as nossas pré-compreensões) podem exercer sobre os nossos comportamentos ou a nossa visão do mundo. E estar aberto a mudar de parecer não é ser incoerente. É estar convicto de que a verdade se não deixa aprisionar pela nossa mente.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. A ideia de pecado não foi forjada pela igreja, por certo, mas muitas atitudes que a igreja prega serem pecado não são reprovadas pela Bíblia em momento algum. Por exemplo o homossexualismo feminino. Por outro lado a igreja católica prega a adoração de imagens e abençoa armas. Qualquer um com um pouco de conhecimento bíblico sabe que adorar imagens é pecado e matar outro ser humano também

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