quarta-feira, 27 de julho de 2011

O padre Roy e o sacerdócio feminino


 
Agora é a vez de um grupo de padres norte-americanos se manifestarem em defesa de um seu colega — o padre Roy Bourgeois — que parece ter participado numa celebração de ordenação de mulheres católicas, inteiramente ao arrepio da doutrina oficial da Igreja, imposta unilateralmente pelo Vaticano. O governo central da Igreja não só não reconhece a ordenação destas mulheres como as declarou automaticamente excomungadas. No entanto, como muito poucos se importam com estas pomposas declarações do Vaticano, nenhuma delas se terá verdadeiramente sentido fora da Igreja. É novamente a arrogância do poder que põe as suas garras em ação, proibindo, expulsando e coibindo as pessoas de se manifestarem de modo a que as suas perspetivas possam ser verdadeiramente tidas em conta.
O padre Roy, membro da ordem religiosa Maryknoll Fathers and Brothers, com sede em Nova Iorque, recebeu uma carta do Vaticano, em 2008, alertando para a possibilidade de ser excomungado, caso não abjurasse. Até a linguagem cheira a mofo: faz lembrar o processo contra Galileu que o papa João Paulo II reconheceu ter sido um erro da Igreja. Mas esse reconhecimento público dos múltiplos erros da instituição parece não ter surtido qualquer efeito sobre a forma como a hierarquia ao mais alto nível continua a atuar. Os métodos pouco mudaram, alteraram-se apenas os destinatários.
Numa longa carta enviada ao Vaticano, o padre Roy explicou que estava tão-só a seguir a sua consciência — último reduto ético do ser humano autónomo e adulto. A ordem religiosa a que pertence, sob pressão do autoritarismo vaticano, já lhe enviou o primeiro de dois alertas canónicos, exigindo que abjure e ameaçando-o de expulsão, caso o não faça. Roy respondeu que não abjuraria para salvar o sacerdócio ou a sua pensão, uma vez que tal opção corresponderia a uma mentira.
E é neste contexto intimidatório e prepotente que cento e cinquenta e sete padres de uma organização americana reformista assinaram uma declaração em defesa do direito do padre Roy de expressar o que lhe dita a consciência. O objetivo de tal ação é pressionar a ordem religiosa a mantê-lo dentro da organização.
Para o padre Roy, o problema da proibição do acesso das mulheres ao sacerdócio é uma mera questão de sexismo, muito semelhante ao racismo. Visa sonegar a um determinado grupo um conjunto de direitos que outros grupos têm e apenas pelo facto de pertencerem a um determinado género ou, no caso do racismo, por exibirem uma cor diferente. A conclusão de Roy é clara: trata-se de um pecado e como tal não tem qualquer tipo de justificação. «Não importa o quão arduamente nós, padres e líderes da Igreja, começando pelo papa, tentemos justificar a exclusão das mulheres como iguais. Esse não é o modo de Deus. Esse é o modo dos homens.»

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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