domingo, 10 de julho de 2011

O cuidado dos mais velhos

 
Os índices de humanismo de uma sociedade serão decerto vários, mas dois deles parecem-me essenciais: a maneira como se cuida das crianças e dos idosos.

A Organização Mundial de Saúde colocou Portugal entre os cinco piores países no que se refere ao tratamento dos idosos — num conjunto de cinquenta e três países europeus. É mais um motivo de vergonha e um indicador de atraso civilizacional.

Os maus tratos que se lhes inflige são de diversos tipos. Desde a violência física até à mais subtil violência psicológica que inclui, entre outras formas, o abandono e a solidão. As notícias que têm vindo a lume sobre idosos mortos cuja presença nas suas residências só é detetada depois de vários anos chocam qualquer consciência minimamente bem formada. É claro que, se os idosos preferem viver sozinhos nas suas casas em vez de se deslocarem para a habitação dos seus familiares ou, o que é mais comum, serem integrados em lares, tal decisão deve ser deixada ao seu arbítrio. Seria também um exercício de violência obrigá-los a viver onde não se sentem a seu contento. Mas daí até cortar todo o tipo de laços, desinteressar-se inteiramente pela sua saúde ou pelo seu bem-estar, vai um longo hiato que corresponde a uma inimaginável crueldade.

É urgente crescermos em humanidade. Os outros, sobretudo aqueles em relação a quem temos mais obrigações, não são objetos que se possam usar quando são úteis e deitar fora quando a sua utilidade prática já não é evidente. Em muitas situações são até sentidos como empecilhos. E sabemos o que normalmente se faz a tudo o que impeça o regular funcionamento da vida: atira-se fora, se for possível, e, caso não seja, ignora-se a sua existência, condenando-a à solidão, ao isolamento e ao abandono.

Altos índices de humanismo requerem algum despojamento pessoal. Só uma sociedade que é capaz de prescindir do próprio prazer em benefício dos outros caminha em direção a um sentido ético que ilumina a vida e lhe aquece o coração.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Sem comentários:

Enviar um comentário