quarta-feira, 6 de julho de 2011

O cardeal patriarca e a ordenação das mulheres

Numa entrevista realizada a treze de maio para a revista da Ordem dos Advogados[1], o cardeal patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, transmitiu uma visão aberta da questão do acesso das mulheres à ordenação sacerdotal. No entanto, a repercussão dessas declarações só agora se fizeram sentir por terem sido citadas pela agência noticiosa Ecclesia e também pelo Vatican Insider, um jornal lançado pelo diário italiano La Stampa.
Eis o essencial das suas declarações sobre o assunto:
«Uma vez, num contexto de um encontro internacional sobre a nova evangelização, em Viena, foi lançada esta pergunta [a da ordenação das mulheres] e eu disse que não há neste momento nenhum papa que tenha poder para isso. Isso traria tensões, e só acontecerá se Deus quiser que aconteça e se estiver nos planos dele acontecerá. (…).
«O santo padre João Paulo II, a certa altura, pareceu dirimir a questão. Penso que a questão não se dirime assim; teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental; há esta tradição, digamos assim… nunca foi de outra maneira. (…) É uma igualdade fundamental de todos os membros da Igreja. (…) [A solução do problema] não é com certeza para a nossa vida, hoje então, no momento que estamos a viver, é um daqueles problemas que é melhor nem levantar, suscita uma série de reações.»
É animadora a forma como o cardeal patriarca aborda a questão. Sem deixar de apontar as dificuldades que resultariam da sua implementação, move o problema para o campo das questões em aberto, ao arrepio da maneira como as fações mais tradicionalistas têm entendido o problema. Na verdade, na linha do que João Paulo II tinha defendido, haveria questões de natureza teológica que impediriam de forma irrevogável a ordenação das mulheres. A opinião do cardeal patriarca é exatamente a contrária: não há razões de ordem teológica que sustentem esta posição drástica. E não havendo semelhantes fundamentos, a questão coloca-se apenas ao nível do direito. O que hoje é legalmente negado pode vir a ser legalmente permitido. Mais: um dos princípios fundamentais das sociedades modernas é a afirmação do princípio da igualdade de oportunidades entre homem e mulher. Deste princípio decorre que as mulheres não podem ficar privadas do acesso a determinados cargos apenas pelo facto de serem mulheres. E é, na realidade, o que acontece na Igreja: uma injustiça que brada aos céus!
Qualquer crente sabe que deve deixar nas mãos de Deus o futuro da história humana e eclesial. Mas isso não pode ser desculpa para nos calarmos quando uma injustiça é cometida ou para nos dedicarmos exclusivamente ao ócio, como se Deus interviesse diretamente no mundo sem ter atribuído ao ser humano a razão e a liberdade que lhe permitem ser colaboradores de Deus na criação do mundo. Também no caso da ordenação das mulheres — como em todos os outros — não podemos deixar apenas nas mãos de Deus uma mudança que se torna cada vez mais premente, apesar das tensões que vier a provocar.
Mas o cardeal patriarca sabe, muitíssimo melhor do que eu, qual o estado atual da correlação de forças entre os mais reformistas e os mais conservadores. Como outrora em tempos de crise, num tempo em que a Igreja perde influência junto da sociedade, a tendência é para as estruturas eclesiais se enquistarem num conservadorismo avesso a qualquer reforma. Infelizmente, a estratégia da praça-forte nunca foi boa conselheira: afasta a Igreja da sociedade, aumenta as tensões tanto internas como externas e reduz, cada vez mais, a Igreja a uma espécie de seita que foge do mundo porque nele não encontra o espaço onde fazer vingar as suas posições, para muitos tão inaceitáveis como prejudiciais à própria missão evangelizadora da Igreja.


[1] Boletim da Ordem dos Advogados, n.º 78, maio de 2011.



Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Considero que a ordenação das mulheres é não apenas um direito das próprias como um direito da Igreja e do mundo. Gostaria de ter a felicidade de ainda testemunhar essa mudança fundamental, mas se o peso da tradição não permitir que tal suceda em vida minha ficarei feliz quando suceder, já mergulhada na Eternidade.

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