terça-feira, 19 de julho de 2011

«No coração desta terra»


 
Terminei ontem a leitura desta obra-prima da literatura ocidental, de J. M. Coetzee — nobel da literatura em 2003. E não é pelo enredo que a obra se compara às melhores produções de literatura. É pela forma como a protagonista desenvolve um mundo sui generis, entre o onírico e o real, profundamente submerso na solidão, arrecadando na secura do deserto inóspito que o espaço oferece a sua própria condição de pessoa amargurada com a vida, no exílio de si mesma: «…escolhi sempre o meu destino, que é morrer aqui, neste jardim petrificado, atrás de portões trancados, junto dos ossos do meu pai, num espaço onde ecoam hinos que eu podia ter escrito…»
Entre a alienação e o desencanto, entre a força da natureza, sem tréguas ou regras éticas, e a putrefação da morte deambulando pelo espaço, pelo tempo adverso e inconsistente, sobrevive a todos até à sua identificação com o coração daquela terra onde sempre vivera. E é difícil que o leitor conheça a verdade, enquanto relação com a realidade que a narração cria, porque a história relatada coincide com o olhar desfocado e doente da protagonista, cuja perspetiva desfigura o real. Não há salvação para o leitor, uma vez que não tem outra focalização possível. É o mundo, tal como esta mulher terrosa e encanecida o desfigura, que se ergue perante o leitor. E não há outra visão a que recorrer para confrontar a realidade com a efabulação da mulher meio enlouquecida e contraditoriamente lúcida.
Vivendo a relação senhor-escravo como inevitável, descreve uma situação social que não merece a reprimenda de uma consciência politicamente crítica. É a natureza que integra a lei do mais forte sem dó nem piedade, fazendo verter em cada situação o equilíbrio de forças que se desfaz e refaz.
De novo (como em Dostoiévski), a ausência de Deus tudo permite: «Quanto à ausência de Deus neste deserto de pedra, não há nada que me possam dizer que eu já não saiba. Aqui tudo é permitido. Nada é castigado. Tudo se esquece para sempre. Deus esqueceu-nos e nós esquecemos Deus. (…) Somos os náufragos de Deus tal como somos os náufragos da história. É esta a origem do nosso sentimento de solidão.» E o comportamento quotidiano da protagonista confirma isso mesmo: que não existem limites onde represar o ódio, a violência, o ciúme. Porque longe de si mesma, a personagem afasta-se igualmente de Deus que resume toda a história da consciência humana, dos valores universais ou do amor ilimitado. No fundo, na poeira do chão ou na dureza da pedra que a fazenda incorpora está a liberdade sem outro conteúdo que não sejam os impulsos da própria vontade mesquinha e circunstancial: o niilismo abandonado a si mesmo, perdido entre a razão e a demência.
O autor cumpriu do princípio ao fim a promessa inconfessada de criar uma personagem que, na sua contradição interna, vive até ao limite o tempo que é o nosso.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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