sexta-feira, 8 de julho de 2011

Maria José Nogueira Pinto



A morte de Maria José Nogueira Pinto veio reavivar em mim aquele sentimento de perda que se aninha na alma quando as condições da própria vida se alteram substancialmente. Nunca a conheci pessoalmente, mas a sua presença — vigorosa e interveniente — fazia-se notar no quotidiano da vida pública. E foi para mim um exemplo a seguir. Não tanto pelas posições concretas que tomava, mas pela atitude de frontalidade, pela verticalidade ética, pela forma denodada e até irreverente como defendia as suas convicções (mesmo quando não eram partilhadas pela maioria), pela ausência de medo em assumir publicamente aquilo em que acreditava e, para mim que sou crente, pela forma como interpretava a existência à luz do eternidade, do mistério inacessível no qual vivemos, nos movemos e existimos. E essa perspetiva fazia com que pudesse enfrentar as maiores adversidade e desafios com esperança e empenho, sem se deixar derrotar pelos fracassos ou pelos obstáculos que os adversários lhe erguiam. É esta força humana (e divina) que constitui para mim um exemplo a seguir.
Li a sua última crónica. Essencialmente autobiográfica, mas eivada de confiança no futuro pessoal e coletivo. De facto, como diz citando o salmo, se o Senhor é meu pastor, nada me faltará. E é assim, abandonando a Deus a própria existência até ao limite das próprias capacidades que o crente estará disponível para reconstruir a cidade humana a partir do próprio universo de valores, esteio de qualquer intervenção humana honesta e bem-intencionada.
E, sobretudo, acredito com ela que «uma vida boa não é uma boa vida». Uma e outra poderão até ser incompatíveis. O que pode esperar uma pessoa frontal, interventiva e de convicções fortes, se não a oposição de muitos e constantes grãos de areia nos mecanismos da vida? Mas uma vida boa — que se pauta por valores e convicções e não coloca o bem-estar imediato do sujeito acima de tudo — é dificilmente compatível com uma boa vida, na qual o essencial é o bem-estar pessoal, a ausência de qualquer conflito, ainda que à custa de se não tomar posição quando a consciência a tal obrigaria.
E é em Deus, que tem gravado o nome de cada ser humano na palma da sua mão, que agora vive em plenitude. Como acredito que seja. Na pátria definitiva para onde todos caminhamos.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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