sexta-feira, 1 de julho de 2011

Entre o riso e a dor


 
Os contextos sociais em que vivemos agem sobre nós de maneira subtil mas irrenunciável. A maior parte das vezes, nem nos damos conta da profundidade da sua influência. E passamos pelos mais diferenciados contextos, adequando a nossa atitude, as nossas palavras, a nossa postura àquilo que julgamos que os outros esperam de nós.
Nada disto tem que ver, necessariamente, com inautenticidade. Ou poderá ter, se o fizermos distorcendo de tal modo a nossa maneira de ser e as nossas convicções que tudo o que somos perante os outros for uma imagem disforme e longínqua da nossa identidade pessoal. Mas descurando atitudes patológicas ou simplesmente imorais, somos um universo de possibilidades que se vão ativando de acordo com o húmus onde podem vicejar.
A velha história do palhaço — destroçado pelas intempéries da vida —, rindo e fazendo rir no palco onde experimenta uma espécie de fuga ao real, é talvez a mais eloquente. E o que poderia fazer o pobre homem cujo pão quotidiano lhe advém da ficção diária que faz esquecer aos demais as desilusões e as tristezas? É isso que se espera dele, ainda que a sua alma sangre de amargura.
E é um pouco o que diz o provérbio bíblico, ou pelo menos a sua primeira parte: «Mesmo entre o riso o coração experimenta a dor e a alegria pode acabar em pena» (Pr 14, 13).
A segunda parte talvez se refira apenas à caducidade da vida. É praticamente impossível viver a salvo de qualquer situação negativa. Mas depende apenas de nós a maneira como nos deixamos interpelar por essas situações. E, afinal, a pena que sucede à alegria é tão precária como esta. Se nos deixarmos tomar pela garras do sofrimento e sob a sua alçada permanecermos, caminhamos para a autodestruição; se, pelo contrário, enfrentarmos as adversidades, não permitirmos que o seu poder se instale na alma e nela se inscreva de forma duradoura, caminhamos para a libertação de toda a angústia, de todo o sofrimento.
E afinal, para que estamos nós na Terra senão para fruirmos da vida, apesar dos supetões que ela nos vai dando?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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