quinta-feira, 28 de julho de 2011

«Dos homens e dos deuses»



Apesar ou talvez exatamente por causa da sua realização cinematográfica claramente alternativa, o excelente filme que é «Dos homens e dos deuses», do realizador francês Xavier Beauvois, fez-me refletir sobre aspetos essenciais que norteiam a vida humana e que percorrem a narrativa de fio a pavio: o sentido da vida; o valor de uma existência simples, despojada de bens e, sobretudo, despojada de si mesma por não se compreender como valor supremo a salvaguardar, quaisquer que sejam as condições; a reflexão sobre as razões da dádiva da própria vida, ainda que sem procurar a morte; a entrega aos outros, pertençam ou não ao nosso grupo tribal, à nossa cultura ou religião, até ao limite da vida; a coragem e ousadia de alguns, mas também o medo e a natural vontade de encarar a própria vida como um bem supremo e eventualmente fugir até onde seja possível a sua preservação; a partilha de vida no interior da própria comunidade e em relação ao círculo de pessoas que foram construindo a aldeia em torno do mosteiro, como um refúgio, um abrigo contra carências de todo o tipo; a forma desinteressada e natural como aqueles monges davam conselhos, discutiam os assuntos da aldeia com os seus chefes ou tratavam as maleitas do corpo; a profunda sobriedade do culto religioso, repleto de uma espiritualidade que tudo invade; os problemas organizacionais internos à vida comunitária, incluindo a questão do poder ou da autoridade democrática e da forma como são exercidos no contexto da vida religiosa…
Só isto que acabei de enunciar já seria suficiente para fazer daquela comunidade uma lição de vida cristã e de humanidade. Mas há mais. O filme pretende retratar acontecimentos históricos. «Em 1996, sete monges da Ordem Cisterciense da Estrita Observância são raptados e assassinados em Tibhirine, aldeia aninhada na região argelina do Magrebe. É o culminar da escalada de violência que opõe o Grupo Islâmico Armado, extremista, ao governo que acusa de corrupto.»[1]
Todavia, o que mais me importa sublinhar é o facto de o cristianismo ter tido sempre, ao longo da sua história bimilenária, quem vivesse autenticamente a espiritualidade originária, pregada e vivida por Jesus de Nazaré, que — longe das complexas questões doutrinárias, do fausto litúrgico de certos contextos ou da forma autocrática como o poder é exercido em determinados círculos eclesiásticos — consiste em algo simples: despojamento, entrega solidária aos outros, trabalho quotidiano para bem da comunidade, partilha das decisões e convicção de que a vida pessoal só tem valor quando orientada para os outros, mesmo que sujeita à agressão ou à violência. No fundo, é o amor, tal como Jesus o pregou, que constitui o cerne da vida cristã. Ou dito com as palavras de um dos maiores poetas americanos do século XX: «Amo ergo sum, e precisamente nessa proporção» (Ezra Pound). Parafraseando Descartes e o seu célebre «Cogito ergo sum» — esta verdade inabalável que constitui o ponto de partida de todo o pensamento cartesiano —, Ezra Pound altera-lhe o verbo, por forma a enunciar a sua inabalável crença de que o amor e só o amor realizam toda a existência.
A vida singela destes monges diz-nos que não precisamos de praticar feitos heroicos ou de procurar as luzes de ribalta de uma sociedade que parece dar valor apenas às celebridades, por mais efémeras, autodestrutivas ou destituídas de inteligência que sejam. Uma vida simples, fiel a si mesma, quotidianamente doada aos outros pode ter um sentido bem maior do que todas as parangonas sociais ou religiosas. É na simplicidade do quotidiano que mostramos autenticamente que tipo de vida escolhemos viver. E é nele que tudo se afunda ou ganha sentido.


[1] Da notícia de Margarida Ataíde de 11/11/2010, em http://www.agencia.ecclesia.pt/


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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