segunda-feira, 11 de julho de 2011

De novo a ordenação das mulheres na Igreja Católica

 
Impressiona-me a maneira como na Igreja Católica se entende a expressão «estar em comunhão com». Para alguns cristãos, sobretudo mais conservadores, estar em comunhão com a Igreja, enquanto comunidade cristã, reduz-se a estar em comunhão com o papa! E estar em comunhão com o papa significa meramente aceitar todas as suas opiniões ou declarações, quer façam sentido quer não.
Não é assim que entendo a expressão — que muito prezo — «estar em comunhão com alguém». Nos vinte anos que passaram desde que aceitei partilhar a vida com a minha mulher sempre procurei estar em comunhão com ela, mas nunca senti que isso me obrigasse a estar sempre de acordo com as suas posições ou com as suas decisões. Somos duas liberdades que partilham a vida e que, na sua autonomia, se respeitam naquilo que cada uma tem de peculiar. Só neste contexto entendo o que significa estar em comunhão, como expressão de um amor que se revela nas mais pequenas situações e que exige, por vezes, que algum de nós tenha de prescindir — por consenso — da sua posição para que se possa percorrer em conjunto o mesmo caminho. Mas na estrada da vida, há um amplo espaço para a autonomia individual. E mal seria se um de nós tivesse de prescindir das suas convicções — políticas, ideológicas, culturais, religiosas, etc. — para estar em comunhão com o outro, ou seja, para o amar. É que estar em comunhão, muito mais do que partilhar as mesmas ideias, significa amar o outro, respeitando a sua alteridade.
É também assim que entendo a comunhão na comunidade eclesial. Estar em comunhão com a Igreja é partilhar com ela o essencial do Evangelho e querer percorrer um caminho espiritual em conjunto com os outros. Evidentemente, os outros incluem os que chefiam as comunidades e também o papa. Mas o critério da comunhão não pode ser evidentemente as opiniões que o papa emite. O único critério é Jesus Cristo e o seu Evangelho. Tudo o resto são interpretações discutíveis, incluindo as dos papas.
Vem isto a propósito da reação de indignação que alguns tiveram quando o cardeal patriarca veio defender que a ordenação das mulheres era uma questão em aberto. De tal forma foi a pressão (muito provavelmente das instâncias do Vaticano), que se viu na obrigação de escrever um esclarecimento, no qual procura emendar o que antes havia afirmado. E isso porque, nas suas palavras, não teve «na devida conta as últimas declarações do magistério sobre o tema.» A verdade é que retrocede numa posição perfeitamente compreensível e aceitável: a de considerar que a posição do papa João Paulo II era, de facto, demasiado intransigente. E nisso tinha razão. O papa pretende encerrar um assunto que na verdade nenhum papa pode encerrar por mais definições dogmáticas que pronuncie. Porque os papas não podem enclausurar o Espírito de Deus nas suas limitadas definições. Deus será sempre maior do que qualquer posição assumida pela mais alta autoridade da Igreja. E a história está repleta de casos que supostamente tinham sido encerrados por papas ou concílios e tiveram de ser novamente abertos. Não é possível deter a história, simplesmente porque não é possível conter a ação de Deus.
Citando João Paulo II, D. José Policarpo convida os cristãos a acatarem a posição do papa, em nome da tal comunhão eclesial. Mas a intransigência do texto de João Paulo II é evidente: «Embora a doutrina sobre a ordenação sacerdotal que deve reservar-se somente aos homens, se mantenha na tradição constante e universal da Igreja e seja firmemente ensinada pelo magistério nos documentos mais recentes, todavia atualmente em diversos lugares continua-se a retê-la como discutível, ou atribui-se um valor meramente disciplinar à decisão da Igreja de não admitir as mulheres à ordenação sacerdotal. Portanto, para que seja excluída qualquer dúvida em assunto da máxima importância, que pertence à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar os irmãos (cf. Lc. 22,32), declaro que a Igreja não tem absolutamente a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres e que esta sentença deve ser considerada como definitiva por todos os fiéis da Igreja». Talvez fosse bom lembrar ao papa que a única realidade autenticamente definitiva é Deus. Tudo o mais é relativo, incluindo as afirmações «definitivas» que ele pronuncia.
Prefiro, portanto, manter a memória das primeiras declarações do cardeal patriarca e de sublinhar as suas palavras quando, no mesmo esclarecimento, refere a importância de «continuarmos a aprofundar a relação do sacerdócio ministerial com a qualidade sacerdotal de todo o povo de Deus». Ou seja: manter aberta a porta que um papa e uma estrutura pretendem manter fechada de forma arrogantemente insuportável.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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