terça-feira, 5 de julho de 2011

«A coisa mais preciosa que temos»


 
«Comparada com a realidade, a nossa ciência pode parecer primitiva e infantil, mas é a coisa mais preciosa que temos». Assim Einstein, que vê na ciência não um, mas o valor primordial da história humana.
Sou um defensor acérrimo da ciência. Seria estúpido se o não fosse, dado que a experiência do seu desenvolvimento nos últimos séculos tem mostrado o seu valor explicativo e preditivo. E se houve tempos em que os cientistas assumiam posições arrogantes — no sentido de desvalorizarem tudo o que não fosse conhecimento científico e, sobretudo, de elevarem os dados das ciências a certezas inabaláveis —, hoje impera a humildade. Sabem que todo o conhecimento é, de certa maneira, transitório e que a ciência se move no plano das probabilidades e não no das certezas.
E apesar disso, não sei se subscrevo a frase de Einstein. A humanidade viveu a maior parte da sua «curta» história sem a ciência (tal como a conhecemos e praticamos hoje). Ao afirmarmos que se trata da «coisa mais preciosa que temos», estamos necessariamente a negar ao lapso histórico anterior ao advento da ciência moderna a possibilidade de se ter vivido com o bem mais precioso que a humanidade alguma vez possuiu. Mas não é essa a minha principal questão. Por que razão haveria a ciência de ser o bem mais precioso quando a comparamos com o conhecimento ético — incluindo aqui os grandes princípios que norteiam o convívio humano, mas também os grandes valores como a justiça, a verdade ou a honestidade —, o mundo afetivo (sobretudo a relação de amor desinteressada, a compaixão, a dedicação aos outros…) e, para os crentes, a relação com o mistério? Na minha escala de valores, são, em primeira instância, os outros a «coisa mais preciosa que temos». Só depois virão os conhecimentos, as coisas, o imenso campo das descobertas e produções humanas, etc.
Poderia parafrasear o que acabei de dizer com este maravilhoso provérbio: «Há ouro e há muitas pérolas, mas a coisa mais preciosa são os lábios instruídos» (Pr 20,15). O apelo à sabedoria inscreve-se aqui no campo da relação com os outros, no campo da ética, e não, evidentemente, no espaço do conhecimento científico. Lábios instruídos são os que dizem o que deve ser dito e omitem o que deve ser omitido, a partir de um juízo que cada indivíduo é chamado a fazer em cada circunstância da vida.
Claro que não comparo a ciência ao ouro e às pérolas que o provérbio diz ficarem aquém da sabedoria. E creio mesmo que a ciência é um dos bens mais elevados da cultura humana. É por isso que não entendo a existência de uma certa religiosidade inteiramente avessa ao conhecimento científico, que se revela tanto nos fundamentalismos antievolucionistas, como na menos perniciosa crença em milagres.
Tenho a maior admiração por Einstein e pelo fantástico mundo das suas descobertas. Só acho que exagerou um pouco. Afinal ninguém é perfeito!

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Gostei muito deste post porque revela que mesmo em relação às maiores autoridades, sejam elas científicas ou outras, podemos e devemos estar sempre atentos com espírito crítico às suas mensagens porque ninguém é inquestionável.
    A história tem muitos testemunhos de gente que foi considerada inquestionável e seguida sem consciência crítica provocando infelicidade e sofrimento em seu redor.Compete-nos aprender uns com os outros, mas de forma crítica, mesmo que o outro seja um grande nome científico ou de qualquer outra área.

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