domingo, 17 de julho de 2011

A China e o Tibete



A China é um país imenso, com uma cultura multimilenar. E é sobretudo através desse legado cultural que a China contribui para o enriquecimento das civilizações de outras latitudes e longitudes. Sinto-me mais humano quando leio Lao-Tzu ou Confúcio e, com discursos e imagens diferentes, pressinto que os povos não estão assim tão longe uns dos outros: todos se sentem interpelados pelos mesmos mistérios, pelas mesmas apreensões, pela mesma tipologia de relações.
Sobretudo nos últimos anos, a China tem-se transformado num colosso económico. O seu sistema único e bicéfalo, que consiste em manter o mesmo sistema político (marxista, maoista, totalitário) e abraçar com enorme sucesso as regras da economia capitalista — o que, em si, é uma contradição nos termos — tem visto resultados, no que se refere ao desenvolvimento material, verdadeiramente fascinantes. Contudo, uma sociedade não é humana apenas por satisfazer as necessidades materiais de um povo. Há valores universalmente aceites que habitam no coração da humanidade e, portanto, quando banidos da organização social, todo o sistema de relações se ressente e desumaniza. Ficamos mais longe da vida por que todos ansiamos. E o centro deste sistema de valores é ocupado pela liberdade — com todas as suas conotações —, a possibilidade de intervenção cívica e política dos cidadãos na vida pública e a democracia. Infelizmente, mantendo anacronisticamente um sistema caduco, todos estes valores estão arredados da vida pública chinesa, por força de um poder despótico que julga poder decidir em detrimento da voz dos outros, permanentemente esquecida, aniquilada, silenciada e subjugada.
Os sistemas comunistas revelaram-se tão ou mais imperialistas do que as antigas potências coloniais europeias. Anexaram a ferro e fogo os povos vizinhos, sem lhes reconhecerem o direito à autodeterminação. Entre muitos exemplos, talvez o mais eloquente seja o da anexação violenta e atroz do Tibete em 1950 pelo exército comunista de Mao Tsé Tung.
Recentemente, o Dalai Lama — líder espiritual tibetano — encontrou-se com Obama, apesar das pressões da China no sentido de tal encontro não ocorrer. O presidente dos Estados Unidos manteve a posição americana, segundo a qual o Tibete é parte do território chinês, mas reforça a necessidade do diálogo direto entre as autoridades chinesas e os representantes do Tibete no sentido de resolverem o longo diferendo que os contrapõe e reitera o apoio à proteção da cultura, da religião e das tradições tibetanas. E este apelo faz todo o sentido, uma vez que a China tem trabalhado incessantemente para a descaraterização da cultura tibetana, através da educação e da violência sobre os mosteiros budistas.
Estamos longe de um mundo verdadeiramente livre, em que cada povo possa decidir qual o seu destino. E a China — a par com a Rússia — é um dos mais emblemáticos territórios que ainda não passaram pelo necessário processo de descolonização. Mas o tempo há de encarregar-se de o fazer. É que a consciência mundial tem evoluído exatamente no sentido da liberdade, da afirmação da autonomia das pessoas e dos povos e do respeito pela identidade cultural de cada um.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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