quarta-feira, 20 de julho de 2011

Ao cabo de vinte anos


 
Há quase vinte anos, quando chegámos ao hotel que haveria de ser a nossa estadia de lua de mel, sentei-me numa poltrona do quarto e proclamei, quase brutalmente:
— Agora estamos condenados a viver juntos o resto dos nossos dias.
Ainda estava a assimilar o facto de a minha vida se ter sujeitado a uma revolução copernicana. E não há dúvida de que o casamento, quando levado a sério — sem a superficialidade de quem acha que partilha a termo certo a vida com outrem ou, pelo menos, não tem de se empenhar a fundo no sucesso da relação —, constitui uma reversão da própria vida com consequências profundas e duradouras.
Vinte anos depois tenho a certeza de que fiz a opção certa. Talvez porque me tenha empenhado na relação, tal como a minha mulher (ou ainda mais ela), por forma a transfigurar o meu quotidiano individual num quotidiano pessoal que inclui radicalmente a presença e a ação do outro.
A minha mulher, no seu incurável otimismo, veio, sem dúvida, contrabalançar uma certa tendência obscura, depressiva e pessimista da minha personalidade. Não que eu me veja a mim mesmo aprisionado numa visão destrutiva do mundo, mas porque cultivo, quase sem consciência disso, uma forma crítica e negativa de observar a realidade, vendo aflorar nela mais o «inverno do nosso descontentamento» do que a luminosidade que naturalmente vai emitindo.
Nem todos os momentos destes vinte anos foram felizes. Houve nuvens que passaram sobre a nossa teimosia em abraçar a vida. Mas nenhuma existência, qualquer que tenha sido a sua opção fundamental, é afortunada a ponto de passar pelo mundo sem ter de suportar o fragor das tempestades. Somos um navio que ora navega tranquilo, sob o céu sereno, ora tem de enfrentar a violência das tormentas. E porque nunca estive sozinho, porque passei pelas adversidades com a presença benevolente da minha mulher (e de Deus), pude atravessar as intempéries sem naufragar. A ela e a Deus devo aquilo em que me fui transformando, lenta e pacientemente. Penso que sempre um pouco melhor do que fora.
Em maior grau, a vida trouxe-nos momentos de enorme felicidade. Talvez o maior de todos tenha sido o nascimento dos nossos dois filhos. Tanta coisa para agradecer! Tanta beleza para contemplar! Tanta vida para viver!
Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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