quarta-feira, 29 de junho de 2011

Uma insanável contradição?


 
Em conversa com um colega meu, dizia-me ele que há uma contradição insanável em matéria de educação. Se reforçarmos as políticas que visam aumentar os níveis de exigência, o saber, o esforço dos alunos para que alcancem metas elevadas no campo dos conhecimentos e das competências, acabamos por excluir uma boa parcela de alunos cuja origem social e cultural não lhes permite investir na escola como seria desejável. Se, pelo contrário, reforçarmos as políticas inclusivas (e aqui não me refiro apenas a políticas educativas de inclusão dos alunos com necessidades especiais) — uma vez que os custos sociais da deserção em massa das escolas são muitíssimo elevados (aumento do analfabetismo, da iliteracia científica e cultural, do desemprego, da marginalidade, etc.) — vemo-nos na contingência de diminuir, talvez até drasticamente, os níveis de exigência no acesso aos bens culturais que a escola pretende transmitir e democratizar.
Numa situação ideal, teríamos uma sociedade inteiramente escolarizada que constituía a base da valorização dos percursos escolares e, consequentemente, a preciosa ajuda de que carece a escola para motivar os alunos para tão importantes valores. Mas, infelizmente, não vivemos numa sociedade ideal. A realidade está bem longe de ser essa. Durante anos, perdemos o comboio da alfabetização e quando acordámos já os outros tinham percorrido uma longuíssima estrada. Agora, temos de concorrer com eles para tornar a nossa economia tão produtiva quanto a deles, mas não temos o húmus a partir do qual se constrói todo o edifício. Estamos a prepará-lo com décadas de atraso.
O que fazer então? Logo depois da revolução de 1974, julgámos que tudo se fazia unificando o ensino e desmantelando as alternativas menos prestigiantes (o chamado ensino técnico, comercial…). Esquecemo-nos, contudo, de que não somos, de facto, todos iguais. Na voragem do pensamento democrático, queríamos que todos tivessem o mesmo tipo de ensino, para garantir igualdade de acesso à cultura escolar. Mas igualdade de oportunidades no acesso à escola não significa tratar de forma igual as diferenças que os alunos revelam entre si. E se há miúdos que s enquadram muito bem num ensino chamado «regular», outros convivem mal (pelas mais variadas razões) com a cultura (humanista e, sobretudo, científica) que esse ensino lhes quer transmitir. Percebeu-se agora que é necessário diversificar as alternativas para responder a uma gama enorme de necessidades, obviando ao abandono escolar que o chamado ensino unificado produziu.
Assim, de acordo com a opinião de alguns, teríamos um ensino de maior qualidade para uns e um ensino de menor qualidade (que responde apenas a «objetivos mínimos») para outros. O que importaria, nestes casos, não seria conduzir os alunos a uma real aprendizagem, mas, caricaturando um pouco as coisas, à alteração das estatísticas sobre educação que nos têm envergonhado face à maioria dos países mais desenvolvidos.
Estaremos, assim, agonizando num espartilho que não permite a vida, nem um futuro para as gerações atuais? Não creio. Recuso-me mesmo a acreditar nisso. Não porque concorde com muitas políticas implementadas pelos vários governos, mas porque acredito que é possível dar a todos a possibilidade de adquirirem um conjunto de conhecimentos e de competências que lhes sejam úteis para a vida profissional e pessoal. E como? Certamente diversificando os percursos, porque não somos, de facto, todos iguais; transformando os percursos considerados menos prestigiantes em algo simultaneamente útil e exigente, que capacite os alunos para fazer face aos problemas que vão ter de enfrentar ao longo da vida; eliminando a quantidade de burocracia em que os professores vivem submersos diariamente; exigindo aos alunos, com o auxílio obrigatório das famílias, que correspondam a padrões de desempenho previamente definidos e compatíveis com as idades; produzindo programas disciplinares de leitura simples e clara, por forma a que a sua leitura informe qualquer pessoa do conjunto de aprendizagens que vão ser exigidas aos alunos; dando formação contínua específica aos professores que necessitem dela e motivando os outros para a autoformação, de modo a não tornar a formação contínua num cárcere que se soma a todas as tarefas que a escola solicita; fazendo exames externos no final de cada ciclo; implementando uma avaliação de professores não burocratizada, mas que exija algum trabalho de investigação a par da observação e avaliação de aulas; e talvez sobretudo dando às escolas os meios para imporem disciplina aos alunos, porque sem um ambiente pacífico onde se possa direcionar a sua atenção para o que é fundamental, nenhuma aprendizagem pode realmente ser feita.
Vamos ver o que nos traz esta nova equipa no ministério da educação. Decerto que estarão empenhados em gastar menos, porque a ausência de recursos assim o impõe, mas seria perdermos mais uma oportunidade não implementar as reformas essenciais que muitos esperam e o país reclama.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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