domingo, 19 de junho de 2011

Três provérbios


 
A recolha bíblica de provérbios, que constituem o melhor da sabedoria popular do judaísmo antigo — acumulada a partir da reflexão sobre a experiência de vida, as práticas quotidianas e as consequências das atitudes humanas —, encontra-se num livro homónimo que integra o cânone do antigo testamento.

Nas minhas incursões quotidianas pelos textos sagrados judaico-cristãos, deparei-me com três provérbios cuja lição se aplica perfeitamente aos dias de hoje, e até, mais especificamente, à situação atual de Portugal.

O primeiro reza assim: «Quem vigia a sua boca conserva a vida, quem abre demasiado os lábios encontra a ruína» (Pr 13, 3). Que bela orientação de vida! Falamos de mais, não refletimos previa e suficientemente sobre o que vamos dizer ou sobre as atitudes que vamos tomar, nem o fazemos sobre o que já dissemos ou fizemos e as consequências que daí advieram, para podermos retirar lições que nos guiem nos meandros, por vezes complexos, da vida. A verborreia, fútil e sem conteúdo, com que inundamos as relações humanas amplifica a nossa inépcia frente a quem nos ouve. Dizemos dos outros o que não conhecemos, avaliamos as situações a partir de ideias preconcebidas que se instalaram na nossa consciência e dali comandam discursos e ações, produzimos ideias sem qualquer sustentação, porque nos não damos ao trabalho de investigar seriamente se a nossa opinião está alicerçada na verdade dos factos, inventariamos disparates pondo amiúde em causa a honorabilidade de outrem… E nada disso nos apoquenta ou sequer nos faz pensar que a palavra é um dom que deve ser usado com a parcimónia necessária, para que se não transforme em tagarelice sem sentido ou até comprovada má-fé. Por isso, é preciso vigiar o que se diz, como uma sentinela, do alto da sua torre, vigia o inimigo que se aproxima. Mas aqui o inimigo é mais insidioso, porque interior. Somos nós próprios quando derramamos sobre os ouvidos dos outros o lixo que, com total incúria, fomos deixando acumular na própria consciência. Pensar antes de proferir uma palavra que seja é «vigiar a boca», de tal modo que não se preste a levar-nos à ruína, cercando de espinhos o lugar onde dormimos à espera da salvação que não virá.

O segundo provérbio afirma o seguinte: «As riquezas rapidamente acumuladas diminuem, quem as junta pouco a pouco acrescenta-as» (Pr 13, 11). A ganância e a cobiça humanas levam à perdição de quem por elas se deixa conduzir. Há dois tipos de ambição. A que nos torna mais humanos, porque o seu conteúdo consiste em alongarmo-nos na estrada do ser, no mundo interior onde a vida efetivamente se constrói; e a que nos torna prisioneiros das coisas, quando nelas centramos toda a vontade, todo o desejo. Infelizmente, numa sociedade eminentemente marcada pela produção, pelo consumo, pela moda ou pela publicidade, tudo se edifica em torno do ter. Queremos tudo e agora. Recusamos qualquer delonga. Adiar é verbo que não sabemos conjugar, tanto na vida pessoal como na vida profissional. E uma vez que a ambição não tem limites, uma tal atitude torna-nos profundamente infelizes. Há sempre alguma coisa a conquistar, algum objeto a possuir… E neste caminho que perverte todo o sentido da vida, os meios reunidos não se submetem a nenhuma ética da responsabilidade: são os que permitem que tudo possa estar já ao nosso alcance. Transformamos o nosso coração numa fábrica de desejos sem remédio e sem descanso. Sob o afã que tal comportamento nos inflige, olhamos os outros como seres manipuláveis, cujo controlo é necessário para que todos os nossos caprichos se cumpram. E quando não descortinamos oportunidades que nos possam catapultar para o centro do sucesso, preferimos viver de expedientes, mas nunca percorrer o longo e paciente caminho do esforço contínuo e do trabalho incessante que torna possível a vida sem nos alienarmos na desmedida e mortal cobiça.

O terceiro provérbio talvez seja o que mais atual se manteve nos cerca de duzentos mil anos ao longo dos quais o homo sapiens habita a Terra: «O poderoso destrói a propriedade dos pobres e há quem seja eliminado sem processo» (Pr 13, 23). Ontem como hoje, a igualdade fundamental de todos os seres humanos está ainda por realizar. E não se trata de uma igualdade que anule as diferenças, mas que as inclua. Gritantes são as injustiças que os possidentes cometem em relação aos pobres. Antes, eram as pequenas parcelas de propriedade rural de que eram espoliados por força da vontade omnipotente dos grandes; hoje, a propriedade dos pobres é essencialmente a sua capacidade de produzir trabalho. Salários vergonhosamente baixos — que contrastam com lucros abundantes das empresas em que labutam —, condições de trabalho insalubres, doenças contraídas devido à atividade laboral e pouca ou nenhuma proteção antes e durante o processo de enfermidade — em contraste com as excelentes condições de trabalho e os apetrechadíssimos hospitais em que os ricos podem tratar-se —, reformas escandalosamente deprimentes, que mal dão para a subsistência diária, etc. E que têm os poderosos a ver com isto? Não são eles que detêm o governo no aparelho de Estado, que produzem as leis, que organizam as sociedades? Seria injusto se não reconhecêssemos que houve um avanço significativo na conquista de direitos sociais durante o século XX, mas essas conquistas — que não podem ser entendidas como esmolas facultativas, mas como direitos inerentes à dignidade humana — são hoje flagrantemente postas em causa pelo advento de um novo capitalismo sem rosto, comandado pelas grandes multinacionais e por grupos de interesse pouco ou nada solidários com os outros. Ontem como hoje, «o poderoso destrói a propriedade dos pobres» retirando-lhe sequer o acesso aos bens mínimos a que qualquer ser humano tem direito. Depois, esses mesmos que lhes negaram o usufruto desses direitos acusam a escola de não ser suficientemente promotora de mobilidade social. Mas como pode ser a escola promotora de mobilidade social se as condições de partida das crianças são tão assimétricas que a maior parte das crianças vivem num ambiente onde a maior preocupação é a obtenção de condições mínimas de sobrevivência? Como podem estas crianças estarem sequer interessadas na cultura que a escola veicula, quando os seus pais põem noutros objetivos, bem mais prementes, a sua atenção?

O segundo aspeto do provérbio é tão dolorosamente verdadeiro que toda a sociedade se deveria sentir ofendida com as consequências que daí advêm. «E há quem seja eliminado sem processo», diz o texto, lamentando o facto. Hoje as condições já não são as mesmas do tempo em que tal provérbio foi proferido, mas continuamos a observar uma inaceitável assimetria na relação dos vários grupos sociais com a justiça. É verdade que todos, mesmo os mais pobres, podem aceder à justiça e ser defendidos das agressões de que são alvo. Mas como estamos longe da equidade quando os ricos contratam para sua defesa os melhores advogados, que utilizam todas as estratégias que a lei permite (e talvez as que a lei não permite) para que os seus constituintes saiam incólumes do julgamento dos seus crimes de colarinho branco, enquanto aos pobres são atribuídos, para sua defesa, advogados sem qualquer experiência ou simplesmente incompetentes! E é assim que os poderosos eliminam os pobres exatamente no fórum onde o mais debilitado deveria ver reconhecido o seu direito frente à prepotência dos mais fortes.

Não sou um defensor da ditadura do proletariado — nem de qualquer outro tipo de ditadura —, prezo a liberdade como prezo a justiça. Nem me inscrevo naquelas teorias que promovem o ódio aos ricos como meio direcionado para a derrota da injustiça social. Sou partidário de uma resistência ativa e pacífica, que faça ouvir a sua voz, que denuncie o que está errado e avilta o ser humano, que promova uma sociedade fundada na igualdade fundamental entre todos os seres humanos. Por isso, não posso senão sentir-me indignado pela forma como ainda não resolvemos estes problemas estruturais. Mas também sei que o caminho é longo, que ninguém abre mão do poder que tem — seja ele de que tipo for — sem a tal ser obrigado, que o grito dos pobres sobe até Deus ao mesmo tempo que se estende à consciência universal da humanidade. E sem nos rebelarmos pacificamente nada de novo há de acontecer.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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