segunda-feira, 20 de junho de 2011

Soledad


 
Um belíssimo poema de Cecília Merireles (Cecília Benevides de Carvalho Meireles, Rio de Janeiro, 7 de novembro de 1901 – Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1964), datado de 1940, foi musicado por Alain Oulmain (Cruz Quebrada, 15 de junho de 1928 – Paris, 28 de março de 1990) para a voz de Amália Rodrigues (Amália da Piedade Rodrigues, Lisboa, 1 de julho de 1920 – Lisboa, 6 de outubro de 1999).

Soledad

Antes que o sol se vá,
— como pássaro perdido
também te direi adeus,
Soledad.

Terra morrendo de fome,
pedras secas, folhas bravas
ai, quem te pôs esse nome,
Soledad!
sabia o que são palavras.

Antes que o sol se vá
— como um sonho de agonia
cairás dos olhos meus,
Soledad!

Indiazinha tão sentada
na cinza do chão deserta
ai, Soledad!
que pensas? não penses nada,
que a vida é toda secreta.

Como estrela nestas cinzas,
antes que o sol se vá,
nem depois não virá Deus,
Soledad?

Pois só ele explicaria
a quem teu destino serve,
sem mágoa nem alegria,
ai, Soledad! Para um coração tão breve…

Ai, Soledad, Soledad,
ai, rebozo[1] negro, adeus!
ai, antes que o sol se vá…

A versão cantada por Amália tem algumas repetições que derivam, provavelmente, de determinados efeitos musicais que Oulmain pretendia dar. Nesta versão, a última estrofe é também omitida.

Soledad

Soledad
Antes que o sol se vá,
— como pássaro perdido
também te direi adeus,
Soledad, Soledad.
também te direi adeus.

Terra, terra morrendo de fome,
pedras secas, folhas bravas
ai, quem te pôs esse nome,
Soledad! Soledad!
sabia o que são palavras.

Antes que o sol se vá
— como um gesto de agonia
cairás dos olhos meus,
Soledad!

Indiazinha, indiazinha tão sentada
na cinza do chão deserta
que pensas? Não pensas nada,
Soledad! Soledad!
ai que a vida é toda secreta.

Como estrela, como estrela nestas cinzas,
antes que o sol se vá,
nem depois não virá Deus,
Soledad, Soledad,
nem depois não virá Deus.

Pois só ele explicaria
a quem teu destino serve,
sem mágoa nem alegria,
Para um coração tão breve…

Também te direi adeus,
Soledad.

O tempo é delimitado pela repetição asfixiante do verso «antes que o sol se vá». E «antes que o sol se vá» terá o sujeito agonizante de dizer «adeus» à solidão. Como se fora um outro de si mesmo, a solidão habitara a alma e dela se havia de libertar, junto ao crepúsculo obsidiante que tudo consome, que tudo desfaz, que tudo pulveriza.
Não que esse tempo anterior ao crepúsculo fosse mais rico em vida, mais liberto para o ser, mais carregado de alegria. Bem pelo contrário, na companhia da solidão, o sujeito vivia como «terra morrendo de fome, pedras secas, folhas bravas». Sentada no chão deserto, a solidão autoconstitui-se no outro onde sobrevive e é aí, nesse espaço de angústia, que, por osmose, se identificam mutuamente, de tal forma que uma eventual separação dilui os dois numa sombra sem nexo nem existência.
E essa presença obsessiva é interpelada a responder à pergunta sobre o significado do silêncio que persiste na sua face de desolação; mas o sujeito que a interpela não lhe dá tempo para proferir qualquer resposta, se é que alguma resposta poderia ser dita; responde ele próprio, tornando supérflua toda a réplica que pudesse pretender decifrar o âmago da vida, o seu sentido íntimo e último. Não. Se existe um sentido ele está escondido em Deus, que não virá, nem depois do crepúsculo cair sobre a vida. E só Deus explicaria a quem serve o destino da solidão, para onde se orienta o seu itinerário, que sentido poderá ter o caminho ermo da vida que, «sem mágoa nem alegria», habita o coração do sujeito. Não um coração onde a plenitude se encontre, mas em qual a brevidade (temporal, espacial, existencial?) é a sua própria estrutura interna.
A consciência da necessária perda da companhia que a solidão sempre fora torna o sujeito um «pássaro perdido», do qual se afasta a sua única consolação vital, caindo-lhe dos olhos, num choro sem redenção, porque era uma estrela (talvez a única) na penúria da alma. Um xaile sobre os ombros da vida, a solidão trouxera-lhe a proteção contra o inimigo interior que transporta consigo a face da morte. E é no processo de cisão entre o que o sujeito nunca fora (porque nunca existira sem aquela companhia terrível e protetora) e a solidão que o habita que o adeus se diz até à falésia na qual se não poderá vislumbrar coisa alguma, nem mesmo Deus, companhia ausente na ausência de tudo.


[1] Rebozo é uma espécie de xaile usado pelas mulheres mexicanas.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

2 comentários:

  1. Olá, este poema é lindo e a canção da Amália também. Sempre pensei como seria a reação da Cecília ao ouvir um poema seu em forma de canção, já que a música era um tema tão constante nos poemas delas. Você sabe em que livro este poema foi editado?

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    1. Retirei da net a seguinte indicação:
      «Soledad, México — 1940 ». In Cecília Meireles (1901-1964). Vaga Música. 1942.

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