quarta-feira, 8 de junho de 2011

Eleições legislativas


O resultado das eleições testemunha o facto de uma multidão de portugueses estar profundamente descontente com o primeiro-ministro e os seus múltiplos expedientes político, orientados para a negação da realidade e a construção de uma narrativa inteiramente fictícia, sem qualquer fundamento na realidade. Foi, pois, esta falta de transparência, de honestidade intelectual, bem como o seu discurso de desresponsabilização pelo estado das finanças públicas — quando todos sabem que, em grande medida, depende das opções que os governos foram assumindo ao longo de vários anos — que me parece ter sido o fator determinante da sua penalização perante o eleitorado.
Outro problema com que temos de nos debater, crucial para o funcionamento da democracia, é a dimensão da abstenção. Haverá, decerto, muitas razões para os cidadãos se eximirem do direito a votar; uma delas, contudo, coincidirá com o descrédito da classe política junto da opinião pública. É, portanto, essencial, credibilizá-la de novo. Mas ao contrário daquilo que muitos preconizam, a sua credibilização não passa por uma mudança do discurso dos meios de comunicação a respeito dos políticos. Mesmo sabendo que as notícias denunciadoras de procedimentos e comportamentos podem ser forjadas ou resultarem de atitudes de vingança, é incontestável que a comunicação social recorre, de uma forma geral, a notícias fundadas em factos com mais ou menos relevância social. Por conseguinte, não se trata de modificar a comunicação social e as regras com que funciona, mas da autotransformação da atuação dos políticos e da maneira como executam as suas funções públicas. Não será de rejeitar a hipótese segundo a qual os grandes valores éticos têm de conduzir a atividade política, ainda que a sua aplicação possa ser, a curto prazo, contraproducente, do ponto de vista das regras restritas de marketing político.
O resultado das eleições não me deixa em sossego. Qualquer cidadão consciente sabe que o seu comportamento enquanto cidadão se não esgota no ato de escolher os seus representantes. Além disso, tenho sérias dúvidas quanto aos objetivos políticos e económicos do PSD-CDS de Passos Coelho e Paulo Portas. Um governo que aceite, como se fosse uma inevitabilidade histórica, a liberalização e privatização de todos ou de grande número de serviços públicos de interesse geral não me apazigua a consciência. É que o processo de alienação das classes que não detêm os meios de produção nem o capital começa no ato de dependerem estruturalmente dos outros para poderem sobreviver; e se os seus níveis de dependência forem ainda maiores do que já eram, porque o Estado se demite das funções que tinha em campos tão importantes como, por exemplo, a saúde, milhares de pessoas ficam à mercê dos grandes grupos económicos que já ditam, em larga medida, o tipo de políticas que os Estados devem implementar. Uma economia que não seja direcionada para o bem do ser humano, de todo o ser humano, não tem razão de ser. E uma sociedade humanista não pode conviver com a perda de uma parcela significativa de cidadãos para as franjas da comunidade. A evolução humana não se confunde com a capacidade de produção, mas, sobretudo, com a integração de todos no tecido social, salvaguardando direitos inalienáveis, decorrentes pura e simplesmente da condição de se ser pessoa.
Oxalá esteja enganado, mas os tempos mais próximos podem alargar o fosso entre ricos e pobres e considerar de somenos importância — em nome de valores económico-financeiros — o aumento do desemprego e o empobrecimento da população com maiores dificuldades. E trilhar este caminho talvez nos equilibre as contas públicas, mas não nos fará mais humanos.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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