sábado, 4 de junho de 2011

A censura


No blogue «Perplexo» anuncia-se que «William S. Burroughs, se fosse vivo, ficaria satisfeitíssimo: o seu livro de 1961, “The Soft Machine”, foi mais uma vez proibido.»
Todavia, não foi este facto, já de si importante, que me chamou mais a atenção; foi o comentário inepto que alguém fez a este post e que transcrevo: «Se o próprio comentador diz que o conteúdo do livro pouco adianta, pouco conteúdo tem, porque não evitar publicá-lo, deixando espaço para algo mais útil? Quantos livros pode uma pessoa ler durante a vida? Mesmo que não fizesse mais nada, apenas leria uma pequena fração dos livros publicados e certamente daria por mal perdido muito do tempo que gastou a ler alguns. Se este mundo que só pensa em vender para sacar o dinheiro aos leitores não cria no mínimo listas de livros, encabeçadas por títulos que indicassem ao potencial leitor o seu conteúdo, ao menos que alguém que já o leu e não gostou, e que tenha o poder de o fazer, o proíba, ou evite que seja publicado, pois certamente haverá outros livros com mais conteúdo e que deem ao leitor algum valor melhor.»
Não vamos perder tempo a lavrar qualquer observação relativa ao «estilo literário» do redator. Penso que não vale a pena fazê-lo! Curioso é, contudo, que, em plena democracia, depois de várias décadas de ditadura em que a liberdade de expressão foi uma miragem, haja alguém que advogue o regresso a métodos de censura prévia. É verdade que alguma censura já existe. Entrar no mundo editorial e ver publicada uma primeira obra não é fácil. Os próprios editores fazem triagens que deixam muito a desejar. Mas estão no seu direito. São as editoras que investem financeiramente numa obra e pagam os prejuízos que advierem do seu eventual fracasso. Mas defender que haja uma entidade com poderes sobrenaturais que estabeleça uma vez por todas o que tem ou não valor, o que deve ou não ser publicado, à qual se submetam todos os editores e autores é o simples retorno a um sistema autocrático ou, se quisermos ser brandos, paternalista. E é absolutamente inaceitável que tal sistema vigore. Seria não só cercear os autores do direito a escreverem o que bem entenderem e a divulgarem as suas obras ou ideias — como a Declaração Universal dos Direitos Humanos consagra sob o título de «liberdade de expressão» —, como também seria delegarmos em alguém a capacidade de ajuizar e de decidir em conformidade, como se precisássemos de ser tutelados por entidades que se arrogam o direito a ser perfeitas, omnipotentes e omniscientes e, consequentemente, a tomarem decisões em vez dos outros. Do ponto de vista puramente pessoal, seria o reconhecimento da incapacidade individual para gerir a própria vida. Do ponto de vista social, seria a morte da pluralidade, do progresso e da criatividade, de que tanto precisamos para fazer avançar as comunidades humanas.
Não há dúvida que, durante a nossa vida, só podemos ler uma pequena parcela de obras literárias e que corremos o risco de malbaratarmos o nosso tempo com leituras de pouca valia. Mas o risco é inerente à vida humana. Só não arrisca quem não toma decisões. E quero ser eu próprio a ler, de vez em quando, um texto que não me agrade, em vez de ser alguém de «cultura superior» (como é que isto se afere?) a fazê-lo por mim.
Também é verdade que os editores têm em vista o lucro. De outro modo, as suas empresas não resistiriam às exigências do mercado e haveriam de falir, não podendo levar a cabo a função para que foram criadas: publicar livros. Mas não tenho uma visão tão catastrofista da realidade. Muitas editoras investem em desconhecidos, porque lhes reconhecem mérito. Outras, sabendo que não vão ganhar dinheiro com determinada obra, publicam-na, por considerarem que tem valor, e compensam as perdas com a edição de best-sellers onde o risco é praticamente nulo. Apesar de tudo, os editores fazem o que lhes compete fazer. E ajuízam de acordo com os seus cálculos — necessariamente humanos, necessariamente limitados.
Para além disso, com as possibilidades que a internet veio colocar à nossa disposição, qualquer autor tem hoje meios para publicitar as suas obras e ideias. São recursos de inegável valor que, há alguns anos, eram impensáveis. A internet veio, de facto, democratizar o acesso e a divulgação das ideias. O que seria desta nova sociedade da informação se tivéssemos, como uma sombra omnipresente, um lápis azul cortando, desfigurando e negando a todos o direito a serem adultos e a decidir o que produzir e o que ler?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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