sábado, 25 de junho de 2011

200 mil mortos por ano


 
Uma notícia desta semana dava conta de que a «produção e abuso de medicamentos opiáceos e novas drogas sintéticas continua em escalada, representando uma fatia cada vez maior do mercado global de narcóticos, segundo o gabinete da ONU para as Drogas e Criminalidade (UNODC).
«De acordo com o UNODC, o consumo de drogas causa perto de 200 mil mortos todos os anos.»
E como não havia de acontecer esta escalada na produção e consumo de drogas em todo o mundo, quando os interesses em jogo são tão poderosos? No plano da produção e distribuição, o enriquecimento fácil, rápido e avultado leva os tubarões a espezinhar todo o ser humano que se atreva a passar-lhes diante, bem como a desqualificar qualquer princípio ético, porque contrário às conveniências em jogo e, como tal, descartável. Os movimentos financeiros são tão volumosos que, a par de uma economia clandestina, há toda uma economia legal para lavagem dos recursos obtidos. E alguns dos que detêm grandes fortunas, com origem supostamente em negócios legais, estão implicados na produção ou distribuição de narcóticos, obtendo daí somas muitíssimo mais elevadas, já para não falar do facto de estarem «isentos» de impostos. Provavelmente, toda essa economia paralela — tal como o negócio do armamento, que enche os bolsos a alguns com chorudas quantias — envolve um volume tão elevado de riqueza, que talvez fosse suficiente para erradicar toda a miséria existente no mundo.
Em vez disso, esta opulência balofa vive do infortúnio e da morte alheia. Como diz a notícia, são perto de duzentos mil mortos todos os anos! A cobiça humana parece realmente não ter limites! Sem pestanejar, estes grandes grupos passam sobre os cadáveres das suas vítimas sem lhes prestar a menor atenção, como outrora havia feito o levita e o sacerdote quando viram, estendido na estrada e coberto de sangue, aquele pobre homem que havia sido espancado e roubado (cf. parábola do bom samaritano). Para eles, as vítimas são o resultado despiciendo de uma economia irrecusável. Um efeito colateral de uma guerra sem tréguas nem humanidade. E as vítimas não são apenas os mortos. São também as famílias dispersas, os pais em agonia, os irmãos arrastados ou sacudidos para longe do olhar fraterno, o sofrimento dos amigos, a morte lenta de toda uma sociedade, alvejada pela necessidade premente dos toxicómanos em encontrar recursos para a dose diária…
Do lado dos que consomem, haverá razões desconhecidas, mas a ausência de um sentido para a vida e o vazio que daí decorre é decerto um dos elementos mais marcantes. À procura de um refúgio onde encontrar, de forma fácil e imediata, a felicidade (o bem-estar psíquico!), fogem do esforço que a construção diária da vida e do seu sentido exige. Não ter de se confrontar com o outro, refugiando-se na solidão de um espírito doente, mas momentaneamente feliz, alivia o peso de tomar sobre si as vicissitudes de cada instante. E em vez dos problemas que acossam os dias, aceita-se a fácil evasão.
Mas tudo tem um preço. E fugir da vida é mergulhar na morte. Não há alternativa. Pouco a pouco, vão-se afundando na mísera condição de marginais, até ao desastre completo, se entretanto não tiver sido possível procurar ajuda e segurar-se na berma do precipício ainda a tempo.
E nós, que nos lamentamos por haver desgraça tão grande no mundo de Deus, que fazemos realmente? No que me toca, procuro, todos os dias, acrescentar um pouco mais de sentido às coisas que faço, às palavras que digo, aos silêncios que mantenho. E isso não apenas para me salvar a mim mesmo, mas para tornar suportável a vida dos outros, mesmo quando os problemas parecem irresolúveis e os esforços inúteis. Não é suficiente. Tenho consciência disso. Mas é um pouco de mim que entrego, apesar da indigência do que posso oferecer.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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