sexta-feira, 6 de maio de 2011

Um fruto podre balançava da árvore da vida


 
Morreu Ossama Bin Laden. E, no entanto, a minha consciência vacila entre a rejeição da forma cruel como este homem foi abatido e a convicção de que certos facínoras têm de ser afastados do horizonte da vida para bem da humanidade. Certamente teria apoiado o assassinato de Hitler, para bem de milhões de pessoas perseguidas como animais pela sua loucura ou sujeitas a uma guerra monstruosa na qual tombaram outros tantos milhões.
Bem sei que os serviços secretos, ao planearem esta ação, procuraram prever as consequências de uma possível prisão e ponderaram qual seria a maneira de este homem provocar o menor número de estragos. Inclinaram-se para a execução pura e simples. E talvez tivessem razão. Encarcerado algures, seria sempre o herói do fanatismo sectário que não olha a meios para fazer valer a sua visão do mundo. É possível até que pudesse orientar redes terroristas; mas mesmo que tal não fosse provável, só a sua existência poderia provocar nos seus fiéis uma escalada de violência com vista à sua libertação ou, pelo menos, à vingança da situação em que o líder haveria de estar. E, contudo, pergunto-me se a morte não poderá despoletar nesta cegueira religiosa a mesma vontade daninha de retaliação. Só o tempo o dirá. Decerto, nem os que planearam a ação podem ter a certeza de todas as consequências de uma ou outra opção.
A minha questão de fundo, que me leva a ficar suspenso entre as duas opções, é defender que a violência só deve ser usada nos limites da própria defesa. É certo que este homem ameaçou o mundo inteiro e agiu em conformidade, provocando morte e terror um pouco por todo o lado. Havia, portanto, motivos para uma ação violenta. Mas até onde estaremos autorizados a usar a violência? Perante um homem desarmado, que pouca resistência ofereceu, justificar-se-á a sua execução à queima-roupa? É neste ponto que se entrelaçam as questões éticas com as questões de estratégia militar. O fim de uma operação deste tipo pode ser simplesmente, a priori, eliminar uma pessoa, sem sequer levantar a questão de as condições concretas poderem proporcionar outras soluções?
É certo que nos livrámos de um fruto podre que balançava, arrogante, da árvore da vida. Todavia, a vida reclama para si os seus filhos, por maior que seja o estado da sua degradação. É nisto que eu acredito. Até ao limite do humano, somos filhos de Deus.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário:

  1. Com todo respeito ao seu comentario, eu nao acredito que se a vida de seus entes queridos tivessem sido ceifadas naquele fatidico 11 de setembro, voce nao estaria hoje colocando esta questao a tona.Infelizmente, como ja foi dito anteriormente: "Para que haja a paz, tem haver a guerra"

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