sábado, 21 de maio de 2011

Os cardápios



Nos últimos tempos, e até dia 5 de junho, vamo-nos deparando com o desfile de cardápios, enquanto aguardamos, sentados, que nos sirvam a refeição da austeridade. Os chefes de cozinha melhor perfilados confecionam pratos mais ou menos semelhantes. Mudam alguns ingredientes, mas a substância é a mesma. Todos se parecem ter conformado à cozinha americana ou alemã, as que têm tido mais sucesso e têm exportado para o mundo inteiro os seus pratos requintados, envoltos em promessas cujo cumprimento fica apenas ao alcance de poucos. Não há um grito de revolta, uma rebelião que mude a substância das coisas e nos faça saborear a autêntica forma de ser livre e humano. A somar a este figurino, ali estão os que dizem servir-nos garoupa, não estando em condições de servir senão sardinhas em lata. E já é bom se o fizerem. Porém, insistem em prometer o que sabem não poder cumprir e em criar ilusões a respeito de um futuro que se afigura negro e desesperante.
Do outro lado, perfilam-se os que se não conformam com nada do que exista. Querem recriar o mundo, como se tudo o que tivesse sido ensaiado até ao momento fosse simplesmente inútil. Prometem também a tal garoupa, mas pescada em outros mares e cozinhada de forma inteiramente diferente.
A maior parte dos portugueses come regularmente sardinhas ou carapaus, se tanto. O que compreendem eles desta linguagem requintada, de alta cozinha, só acessível aos bolsos que engordaram à conta do próprio ou do trabalho alheio?
Há uma grande volta a dar neste país crédulo e submisso. No entanto, desconfio igualmente de quem queira inventar a roda. Sobretudo em tempos tão conturbados como os atuais.
Por isso, não me deixo embalar pelas promessas, venham elas de onde vierem, mas pelos factos e por obra feita. Se me querem impingir autoestradas condenadas a ficar às moscas ou TGV que serão elefantes brancos, porque o povo português não tem recursos sequer para andar de trotineta, digo redondamente não. Se me querem oferecer educação de baixo custo e, portanto, de qualidade duvidosa, digo não. Se não há uma linha de pensamento estratégico quanto ao desenvolvimento efetivo do país, não embarco nas aventuras que me propõem. Mas, às tantas, pergunto-me o que me resta. E fico sem fôlego. Porque talvez muito pouco do que se sugere seja honesto e credível. Eleições após eleições, ouvimos os mesmos desvarios, seguidos de desmentidos práticos logo que os profetas da abundância chegam ao poder.
Quero transparência. Quero honestidade. Quero inteligência (não esperteza!). Se tiver de ter alguma contenção nos gastos, não me inquieto. Mas têm de me explicar por que razão a austeridade bate à porta apenas de alguns; têm de me mostrar planos credíveis de recuperação do país e fazê-los cumprir logo que ocupem o poder; têm de me provar que merecem o voto que vou, contrafeito, depositar na urna no dia 5 de junho.
Nos antípodas disto não é suportável subsistir. E o melhor a fazer é desertar para onde a política não seja esta bandalheira humana que vemos todos os dias nas notícias dos telejornais. Para quê apostar num país cujo futuro está hipotecado? E quando penso assim, apetece-me preparar os filhos para enfrentarem o mundo e dar-lhes condições para partirem quando puderem ser alavancas de desenvolvimento em qualquer parte do mundo. Pelo menos em alguns locais respeitam a competência e o mérito, não deixando de atender a quem é mais fraco e precisa da ajuda solidária dos outros. Aqui, impera a inveja e a avidez. E longe da decência que as consciências parecem já não ter em consideração, só o abismo nos espera, tranquilo e sereno, porque certo da nossa queda nos seus braços mortais.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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