domingo, 15 de maio de 2011

O ser humano: um olhar único sobre o mundo

O meu filho mais velho disse-me que tinha defendido, num debate no contexto de uma aula de filosofia, que o ser humano não é simplesmente o fruto do acaso. Parece que ninguém entendeu a sua argumentação. Mas o que ele me revelou leva-me a concluir que se estava a colocar a questão de fundo a respeito do ser humano. Estabeleceu, antes de mais, a diferença entre a personalidade, com feixe de caraterísticas que a constituem, e o eu puro, aquela perspetiva sobre o mundo, sem a qual não existe mundo, nem tempo, nem espaço para aquela consciência. A ideia dele, embora passível de crítica, tinha alguma solidez: cada um de nós poderia ter personalidades distintas, dependentes de outras possíveis organizações genéticas ou do ambiente em que calhássemos existir, mas não poderia ser outra consciência pura, outro olhar puro sobre o mundo, outro eu que se debruça sobre o mundo e o processa enquanto consciência. Talvez a personalidade dependa de múltiplos fatores ocasionais, mas o eu puro dependa apenas de Deus e da sua vontade benevolente.
O que é certo é que somos um mistério para nós próprios. Por mais que pensemos no que nos define, sempre nos parece que qualquer explicação fica aquém da realidade individual. Os materialistas reduzem o ser humano a um feixe de caraterísticas genéticas e adquiridas. Contudo, nesta perceção das coisas, parece ficar por explicar aquilo que faz de nós um eu inteiramente distinto de todos os outros, um olhar sobre a realidade que, a não existir, não existiria sequer, para ele, a realidade.
Mesmo dois gémeos inteiramente iguais do ponto de vista genético são sempre dois olhares diferentes sobre a vida. Não são uma única consciência das coisas. É este último reduto da pessoa que faz de cada uma delas um ser inteiramente único, distinto de todas as possibilidades que o acaso proporciona. Esta hipótese promove em nós a ideia de que — apesar de tudo o que somos e de todas as variações de personalidade que poderíamos ser e que vamos sendo ao longo do nosso processo de crescimento — esse eu onde o mundo decorre não poderia não ser, sob pena de a realidade ficar inevitavelmente amputada.
Quer seja assim, quer não, cada ser humano parece ser uma identidade que nenhuma ciência pode decifrar até ao âmago mais profundo e, por isso mesmo, mais inacessível.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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