quarta-feira, 25 de maio de 2011

Bob Dylan


As suas armas eram uma simples gaita de beiços, uma guitarra acústica e a sua inconfundível voz. E foi assim que Bob Dylan conquistou o mundo. Ontem completou o seu septuagésimo aniversário. Está de parabéns sobretudo porque poderá contar que a sua vida não foi em vão. Com o seu protesto certeiro e continuado, visando uma outra maneira de nos relacionarmos com os outros, a sua existência teve um sentido e influenciou criticamente toda uma sociedade decadente.
A sua produção artística foge ao padrão da arte pela arte, cujo fim se extingue em si mesma. As suas composições musicais decorrem de um olhar atento sobre o mundo político e sobre as relações sociais quotidianas. E não descreve apenas o que ocorre, como se fosse um cronista distante e objetivo. Tem um propósito: contestar formas sociais e políticas que conduzem a injustiças sociais, a guerras devastadoras — como a do Vietname — e a atitudes inexplicáveis — como o racismo. Foi, portanto, um enérgico defensor dos direitos civis no tempo em que os negros viviam sob o preconceito que dominava a cabeça de muitos brancos nos Estados Unidos.
Mas viveu esta postura reformista e até revolucionária também no campo da música. Começou por ser um destacado artista de folk, irritou os seus fãs quando introduziu elementos do rock’n roll nas suas atuações, viveu a música gospel quando se converteu ao cristianismo, em 1978, e continua ainda hoje a fazer o seu caminho repleto de criatividade.
A sua inquietude levou-o a abandonar o judaísmo, de onde provinha, e a abraçar o ideal cristão, até redescobrir as suas raízes judaicas e se pacificar com elas.
Tudo foi, portanto, motivo para produzir arte de qualidade: as questões político-sociais, como a insurreição contra a opressão levada a cabo por determinados governos, e o quotidiano humilde e profundamente humano, como a sua crise conjugal.
Neste sentido, Dylan interveio civicamente através da sua arte, influenciando milhares de pessoas no mundo inteiro. Admitiu ter sido viciado em heroína num dado período da sua vida, o que não era de estranhar no contexto da cultura hippy dos anos 60, uma contracultura que se sublevara contra a repressão da época. E Dylan foi dessa contracultura um dos maiores símbolos.
Apesar dos excessos, tanto a sua vida como a sua música embalam os sonhos de quem se não contenta com a situação presente e procura mais além a redenção de todas as injustiças e desumanidades.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

1 comentário: