domingo, 15 de maio de 2011

Autoridade e obediência


A atual leitura de dois livros (Pagola, 2008, Jesus, Gráfica de Coimbra; Morgado, 2010, Autoridade, FFMS) levantou-me uma questão que me parece de primordial importância. Para qualquer crente de uma religião monoteísta, cumprir a vontade de Deus é um imperativo ético e religioso estrutural. Foi assim também para os próprios fundadores dessas religiões. Abraão é chamado o pai de todos os crentes, porque confiou inteiramente em Deus, ainda que a realidade apontasse para horizontes bem distintos daquilo que lhe parecia comunicar a voz de Deus. Jesus fez da vontade de Deus o eixo central da sua existência e propôs a todos os seus discípulos que orientassem a sua vida de acordo com este princípio. E o mesmo fez Maomé.
Prescindindo da análise do que é propriamente a vontade de Deus, pesquisa que certamente nos levaria muito longe, e de como é que Deus a torna transparente na história humana ou, vendo as coisas do lado humano, como é que podemos ter algum grau de certeza acerca daquilo que ela é ou não, a questão que se me levantou foi a de perceber qual a razão por que devemos cumpri-la. Postas as coisas de uma forma simplificada, pergunto-me se faço a vontade de Deus por ser a vontade de Deus — ou seja, por ser a vontade de uma autoridade suprema — ou porque o seu conteúdo é inteiramente racional — ou seja, por corresponder à verdade, enquanto pode ser captada pelo ser humano num determinado contexto vital.
Se esta questão se colocasse em relação a qualquer autoridade finita, a minha resposta seria imediata e sem hesitações: só me sinto eticamente obrigado a cumprir uma ordem, venha ela de que autoridade humana vier, se essa ordem tiver algum grau de racionalidade. Assim sendo, não estou eticamente dependente de uma autoridade por se tratar de uma autoridade, mas por ter razão nas orientações que emite. E isto vale tanto para as autoridades políticas, como para as autoridades profissionais ou religiosas. Estas últimas tendem a querer subtrair-se à crítica do sujeito por advogarem uma relação privilegiada com a divindade. Estariam assim a salvo do erro e as suas ordens teriam sido cunhadas no próprio mundo dos deuses. Mas nenhuma autoridade humana se pode arrogar o direito a falar inteiramente em nome de Deus. O erro decorrente da sua finitude e os interesses inerentes à manutenção e incremento do poder assediam tanto as autoridades religiosas como todas as outras. Têm, por isso, de estar sujeitas à crítica alheia para que seja possível verificar se resistem ou não à prova por que passam.
Uma exceção a estas situações é evidentemente a autoridade dos adultos em relação às crianças ou em relação a pessoas que não tenham capacidade mental para orientar a sua vida. Mas mesmo nestas circunstâncias, tais autoridades estarão sujeitas ao escrutínio de outros, de modo a salvaguardar os interesses desses grupos em grande parte dependentes.
Voltemos, pois, à nossa questão primeira. Admitindo que conhecemos a vontade de Deus, temos o dever ético de a cumprir por ser de Deus ou por ser razoável? Creio que os dois motivos coincidem plenamente em Deus. Se tivermos em conta que Deus é a totalidade dos valores cognitivos, éticos ou estéticos, Deus não pode não comandar senão o bem. E porque conhece a totalidade da verdade, não pode comandar senão aquilo que a ela corresponde. Por isso, obedecer a Deus é acolher a verdade, o bem e o belo e torná-lo operativo na vida pessoal. Assim, cumpro a vontade de Deus porque é Deus que a comanda e, simultaneamente, porque só pode ser inteiramente razoável, uma vez que Deus não pode ordenar, dada a sua natureza, qualquer irracionalidade.
O problema coloca-se quando determinadas autoridades assumem a pretensão de serem as únicas intérpretes da vontade de Deus. Com tal subterfúgio, estaríamos assim submetidos a autoridades humanas — finitas e sujeitas a erro — por serem os únicos veículos autorizados da vontade de Deus. Foi este o drama da história multissecular das religiões, com todos os seus ódios, as suas guerras, as suas execuções, etc. Mas o problema, apesar de uma mudança no discurso público, ainda não está cabalmente resolvido. Por isso, pergunto-me quando chegará o tempo em que nenhuma autoridade — religiosa ou não — usurpará a Deus a verdade inderrogável. Nesse momento estaremos realmente disponíveis para ver Deus a partir da nossa humilde condição, excluindo a arrogância de nos julgarmos na posse da verdade e a prepotência de a querer impor aos outros, porque se não tolera que também eles tenham o mesmo acesso à verdade divina, derramada democrática e livremente sobre toda a humanidade.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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