sábado, 28 de maio de 2011

Jesus - o profeta da Galileia


Terminei a leitura do apaixonante livro «Jesus — uma abordagem histórica» de José Antonio Pagola, um reputado teólogo espanhol que se tem dedicado, nos últimos anos, à investigação histórica sobre Jesus. O tema é aliciante e o autor convoca os maiores estudos sobre o tema, tanto os que foram realizados por autores cristãos como os que foram sendo produzidos por autores não cristãos. A pedra de toque desta pesquisa nada tem que ver com a origem confessional do investigador, mas com a honestidade científica da investigação. Aliás, ao contrário do que alguns dizem e pretendem impor a quem se dedica a este tipo de pesquisa, a fé em Jesus, enquanto Filho de Deus, nenhuma influência deve ter sobre a investigação histórica.
Curioso é, todavia, o facto de o autor, depois de ter redigido um ótimo volume sobre o tema, se ter sentido na obrigação de publicar um suplemento que viesse, em certa medida, «salvar» o dogma da Igreja face à realidade histórica inegável de que Jesus nunca se afirmou Deus (para ele, Deus era sempre o Pai, o princípio de todas as coisas), nunca fez de si mesmo o centro da sua pregação (o centro era o Reino de Deus e a sua justiça), nunca pretendeu fundar uma Igreja inteiramente autónoma em relação ao judaísmo e não ofereceu qualquer contributo para a evolução dogmática posterior que o iria erigir em segunda pessoa da Santíssima Trindade e à Igreja como decorrente de uma sua intenção fundacional clara.
E é assim que, completamente a despropósito — exatamente porque uma investigação histórica sobre Jesus nada tem que ver com os desenvolvimentos dogmáticos do século III, IV e V —, o autor afirma, no seu «Suplemento», que todo o cristão, para se manter fiel à fé cristã, deve subscrever o dogma de que «Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem». Não posso estar mais em desacordo. Se tal fosse verdade, teríamos de considerar que as primeiras comunidades cristãs (de origem judaica) nunca teriam sido autenticamente cristãs, uma vez que nunca afirmaram nem consentiriam em tal afirmação, por ser contraditória com o seu monoteísmo absoluto. A reformulação cristã posterior do conceito de Deus, com a introdução da ideia de um Deus-Trindade (três pessoas numa unidade essencial), só pôde ocorrer porque, entretanto, o cristianismo se havia difundido no contexto cultural do paganismo politeísta. No fundo, a ideia de uma Trindade divina é uma concessão do monoteísmo ao politeísmo pagão, aliada à propensão de todas as religiões para divinizarem os seus fundadores ou refundadores.
É por isso que, para mim, basta o que o autor escreve na página catorze do «Suplemento»: «[Os cristãos] acreditam que foi por meio de Jesus e da sua vida concreta que Deus se nos revelou de forma singular, excecional e irrepetível.» Tudo o mais são fórmulas que fizeram sucesso noutras culturas e noutros tempos, mas que hoje não têm qualquer impacto sobre a consciência contemporânea, sendo até obstáculos à aceitação da fé cristã.
O texto do suplemento procura justificar pormenorizadamente o interesse dos estudos históricos sobre Jesus, como se fosse necessário apresentar justificação para a investigação científica, qualquer que seja o seu âmbito. Na verdade, só se percebe este esforço subsidiário no contexto de uma oposição conservadora (na qual se inclui a própria Conferência Episcopal Espanhola) que desferiu sobre o trabalho do autor severas críticas. Mas quanto ao problema em apreço, parece evidente que a clarificação histórica de Jesus é essencial para se destrinçar a realidade do mito, da lenda ou da criação dogmática da realidade. Com isto não pretendo dizer que as narrativas míticas e lendárias são destituídas de valor. Tal como a poesia, o mito e a lenda são géneros discursivos válidos, quando não confundidos com a realidade dos factos. Ao lermos a narrativa da criação do mundo, no livro do Génesis, é pressuposta, para uma interpretação correta do texto, a consciência de que se trata de uma narrativa mitológica e de que, portanto, não reproduz factos históricos. O seu valor está na mensagem religiosa que pretende transmitir e não na sua informação historiográfica. E o mesmo acontece com as narrativas lendárias sobre o nascimento de Jesus. Não correspondendo o seu conteúdo diegético a factos históricos, o seu valor consiste na transmissão da fé das comunidades cristãs dos anos 70 ou 80 a respeito de Jesus. Seria um erro transformar tais narrativas em textos informativos sobre a realidade histórica. Mas a distância entre os textos míticos e lendários, bem como os textos doutrinais, inscritos no Novo Testamento ou produzidos posteriormente, e o Jesus real, a personagem que viveu na Palestina até aos anos 30, pode ser um poderoso antídoto contra quaisquer mistificações, bem como contra a confusão entre a fé e a sua expressão doutrinal, sempre sujeita a novos desenvolvimentos.
Outro aspeto que mostra a tendência das comunidades cristãs nascentes para alterarem o eixo da mensagem de Jesus para uma doutrina sobre Jesus é o anúncio da ressurreição. Se as primeiras enunciações da ressurreição se exprimem na linha do que fora a atitude de Jesus, a de colocar Deus e a sua soberania no centro da ação, as enunciações posteriores centram em Jesus a ação libertadora da ressurreição. De facto, se as primeiras fórmulas referem que Deus ressuscitou Jesus, as fórmulas posteriores afirmam que Jesus ressuscitou dos mortos, atribuindo a ele mesmo o poder de se autolibertar. Sendo duas afirmações antagónicas e racionalmente incompatíveis, temos de as interpretar como expressão da deriva a que nos referimos acima, que se manifestou em muitos aspetos da fé das comunidades.
Quanto à ressurreição, nenhum historiador de reconhecido mérito poderia considerá-la um facto histórico. Primeiro, porque não ocorreu na história, foi o ato de Deus de assumir Jesus na sua transcendência absoluta, por força da sua benevolência amorosa. É, pois, uma realidade trans-histórica com evidentes repercussões na história, uma vez que só se fala em ressurreição a partir do momento em que os discípulos dizem ter-se «encontrado» com Jesus. Em segundo lugar, porque nem sequer este encontro pode ser confundido com uma aparição exterior, como se o Jesus ressuscitado fosse um elemento do mundo histórico. Não: ele agora pertence ao mundo de Deus, à sua transcendência absoluta. Definir ou narrar o tipo de experiência que os discípulos viveram é praticamente impossível, mas que essa experiência mudou a sua vida para sempre é um facto.
Interessante é a modificação do texto original, inserida pelo autor, quanto à afirmação de que Jesus teve irmãos e irmãs. A interferência da fé da Igreja nos estudos científicos é aqui límpida como a água. Mas como podemos aceitar que haja interferências externas a qualquer estudo científico que queira ser minimamente credível? Nos evangelhos fala-se, sem preconceitos, dos irmãos e irmãs de Jesus. No entanto, como a Igreja defende a virgindade perpétua de Maria (como é isso possível depois de um parto? Que razões bíblicas existem para fazer tal afirmação?), duas são as escapatórias possíveis. A primeira defende, corretamente, que as palavras irmão e irmã tinham, no contexto da cultura e da língua aramaica, um sentido mais alargado, incluindo os primos. Por isso, os irmãos de que falam os evangelhos não seriam verdadeiros irmãos mas simples primos. O segundo expediente é o recurso ao ambiente cultural do tempo para afirmar que os tais irmãos de Jesus seriam filhos de José mas não de Maria, uma vez que era o homem e não a mulher a definir a linha familiar. Ambas as razões, apesar de se apoiarem em dados culturais verdadeiros, são meros subterfúgios fundados num preconceito doutrinal (a virgindade de Maria). Por motivos simplesmente filológicos, toda a investigação histórica séria teria de atribuir aos termos o significado imediato que têm, contanto que não haja nas próprias fontes motivos para se atribuírem outros significados, como é o caso. E assim senso, se nos abstrairmos de preconceitos dogmáticos, os irmãos e irmãs de Jesus são efetivamente irmãos e irmãs, filhos de Maria e de José.
Novamente a despropósito, e só compreensível no quadro de uma investida dos poderes mais conservadores, se afirma que não se pretende pôr em causa tudo o que a doutrina oficial da Igreja refere a respeito de Jesus (p. 61 do suplemento), mas que estes «temas ficam simplesmente fora do campo da investigação histórica». Se é verdade o que defende o autor — e não há dúvida que é — não se compreende por que razão o tem de afirmar num estudo de natureza historiográfica!
Em síntese, a investigação do autor é de grande qualidade e apresenta um amplíssimo valor informativo. Vale, pois, a pena lê-la com o cuidado que merece. Cada um extrairá, no fim, as suas próprias conclusões.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Bob Dylan


As suas armas eram uma simples gaita de beiços, uma guitarra acústica e a sua inconfundível voz. E foi assim que Bob Dylan conquistou o mundo. Ontem completou o seu septuagésimo aniversário. Está de parabéns sobretudo porque poderá contar que a sua vida não foi em vão. Com o seu protesto certeiro e continuado, visando uma outra maneira de nos relacionarmos com os outros, a sua existência teve um sentido e influenciou criticamente toda uma sociedade decadente.
A sua produção artística foge ao padrão da arte pela arte, cujo fim se extingue em si mesma. As suas composições musicais decorrem de um olhar atento sobre o mundo político e sobre as relações sociais quotidianas. E não descreve apenas o que ocorre, como se fosse um cronista distante e objetivo. Tem um propósito: contestar formas sociais e políticas que conduzem a injustiças sociais, a guerras devastadoras — como a do Vietname — e a atitudes inexplicáveis — como o racismo. Foi, portanto, um enérgico defensor dos direitos civis no tempo em que os negros viviam sob o preconceito que dominava a cabeça de muitos brancos nos Estados Unidos.
Mas viveu esta postura reformista e até revolucionária também no campo da música. Começou por ser um destacado artista de folk, irritou os seus fãs quando introduziu elementos do rock’n roll nas suas atuações, viveu a música gospel quando se converteu ao cristianismo, em 1978, e continua ainda hoje a fazer o seu caminho repleto de criatividade.
A sua inquietude levou-o a abandonar o judaísmo, de onde provinha, e a abraçar o ideal cristão, até redescobrir as suas raízes judaicas e se pacificar com elas.
Tudo foi, portanto, motivo para produzir arte de qualidade: as questões político-sociais, como a insurreição contra a opressão levada a cabo por determinados governos, e o quotidiano humilde e profundamente humano, como a sua crise conjugal.
Neste sentido, Dylan interveio civicamente através da sua arte, influenciando milhares de pessoas no mundo inteiro. Admitiu ter sido viciado em heroína num dado período da sua vida, o que não era de estranhar no contexto da cultura hippy dos anos 60, uma contracultura que se sublevara contra a repressão da época. E Dylan foi dessa contracultura um dos maiores símbolos.
Apesar dos excessos, tanto a sua vida como a sua música embalam os sonhos de quem se não contenta com a situação presente e procura mais além a redenção de todas as injustiças e desumanidades.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

sábado, 21 de maio de 2011

Os cardápios



Nos últimos tempos, e até dia 5 de junho, vamo-nos deparando com o desfile de cardápios, enquanto aguardamos, sentados, que nos sirvam a refeição da austeridade. Os chefes de cozinha melhor perfilados confecionam pratos mais ou menos semelhantes. Mudam alguns ingredientes, mas a substância é a mesma. Todos se parecem ter conformado à cozinha americana ou alemã, as que têm tido mais sucesso e têm exportado para o mundo inteiro os seus pratos requintados, envoltos em promessas cujo cumprimento fica apenas ao alcance de poucos. Não há um grito de revolta, uma rebelião que mude a substância das coisas e nos faça saborear a autêntica forma de ser livre e humano. A somar a este figurino, ali estão os que dizem servir-nos garoupa, não estando em condições de servir senão sardinhas em lata. E já é bom se o fizerem. Porém, insistem em prometer o que sabem não poder cumprir e em criar ilusões a respeito de um futuro que se afigura negro e desesperante.
Do outro lado, perfilam-se os que se não conformam com nada do que exista. Querem recriar o mundo, como se tudo o que tivesse sido ensaiado até ao momento fosse simplesmente inútil. Prometem também a tal garoupa, mas pescada em outros mares e cozinhada de forma inteiramente diferente.
A maior parte dos portugueses come regularmente sardinhas ou carapaus, se tanto. O que compreendem eles desta linguagem requintada, de alta cozinha, só acessível aos bolsos que engordaram à conta do próprio ou do trabalho alheio?
Há uma grande volta a dar neste país crédulo e submisso. No entanto, desconfio igualmente de quem queira inventar a roda. Sobretudo em tempos tão conturbados como os atuais.
Por isso, não me deixo embalar pelas promessas, venham elas de onde vierem, mas pelos factos e por obra feita. Se me querem impingir autoestradas condenadas a ficar às moscas ou TGV que serão elefantes brancos, porque o povo português não tem recursos sequer para andar de trotineta, digo redondamente não. Se me querem oferecer educação de baixo custo e, portanto, de qualidade duvidosa, digo não. Se não há uma linha de pensamento estratégico quanto ao desenvolvimento efetivo do país, não embarco nas aventuras que me propõem. Mas, às tantas, pergunto-me o que me resta. E fico sem fôlego. Porque talvez muito pouco do que se sugere seja honesto e credível. Eleições após eleições, ouvimos os mesmos desvarios, seguidos de desmentidos práticos logo que os profetas da abundância chegam ao poder.
Quero transparência. Quero honestidade. Quero inteligência (não esperteza!). Se tiver de ter alguma contenção nos gastos, não me inquieto. Mas têm de me explicar por que razão a austeridade bate à porta apenas de alguns; têm de me mostrar planos credíveis de recuperação do país e fazê-los cumprir logo que ocupem o poder; têm de me provar que merecem o voto que vou, contrafeito, depositar na urna no dia 5 de junho.
Nos antípodas disto não é suportável subsistir. E o melhor a fazer é desertar para onde a política não seja esta bandalheira humana que vemos todos os dias nas notícias dos telejornais. Para quê apostar num país cujo futuro está hipotecado? E quando penso assim, apetece-me preparar os filhos para enfrentarem o mundo e dar-lhes condições para partirem quando puderem ser alavancas de desenvolvimento em qualquer parte do mundo. Pelo menos em alguns locais respeitam a competência e o mérito, não deixando de atender a quem é mais fraco e precisa da ajuda solidária dos outros. Aqui, impera a inveja e a avidez. E longe da decência que as consciências parecem já não ter em consideração, só o abismo nos espera, tranquilo e sereno, porque certo da nossa queda nos seus braços mortais.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

domingo, 15 de maio de 2011

Autoridade e obediência


A atual leitura de dois livros (Pagola, 2008, Jesus, Gráfica de Coimbra; Morgado, 2010, Autoridade, FFMS) levantou-me uma questão que me parece de primordial importância. Para qualquer crente de uma religião monoteísta, cumprir a vontade de Deus é um imperativo ético e religioso estrutural. Foi assim também para os próprios fundadores dessas religiões. Abraão é chamado o pai de todos os crentes, porque confiou inteiramente em Deus, ainda que a realidade apontasse para horizontes bem distintos daquilo que lhe parecia comunicar a voz de Deus. Jesus fez da vontade de Deus o eixo central da sua existência e propôs a todos os seus discípulos que orientassem a sua vida de acordo com este princípio. E o mesmo fez Maomé.
Prescindindo da análise do que é propriamente a vontade de Deus, pesquisa que certamente nos levaria muito longe, e de como é que Deus a torna transparente na história humana ou, vendo as coisas do lado humano, como é que podemos ter algum grau de certeza acerca daquilo que ela é ou não, a questão que se me levantou foi a de perceber qual a razão por que devemos cumpri-la. Postas as coisas de uma forma simplificada, pergunto-me se faço a vontade de Deus por ser a vontade de Deus — ou seja, por ser a vontade de uma autoridade suprema — ou porque o seu conteúdo é inteiramente racional — ou seja, por corresponder à verdade, enquanto pode ser captada pelo ser humano num determinado contexto vital.
Se esta questão se colocasse em relação a qualquer autoridade finita, a minha resposta seria imediata e sem hesitações: só me sinto eticamente obrigado a cumprir uma ordem, venha ela de que autoridade humana vier, se essa ordem tiver algum grau de racionalidade. Assim sendo, não estou eticamente dependente de uma autoridade por se tratar de uma autoridade, mas por ter razão nas orientações que emite. E isto vale tanto para as autoridades políticas, como para as autoridades profissionais ou religiosas. Estas últimas tendem a querer subtrair-se à crítica do sujeito por advogarem uma relação privilegiada com a divindade. Estariam assim a salvo do erro e as suas ordens teriam sido cunhadas no próprio mundo dos deuses. Mas nenhuma autoridade humana se pode arrogar o direito a falar inteiramente em nome de Deus. O erro decorrente da sua finitude e os interesses inerentes à manutenção e incremento do poder assediam tanto as autoridades religiosas como todas as outras. Têm, por isso, de estar sujeitas à crítica alheia para que seja possível verificar se resistem ou não à prova por que passam.
Uma exceção a estas situações é evidentemente a autoridade dos adultos em relação às crianças ou em relação a pessoas que não tenham capacidade mental para orientar a sua vida. Mas mesmo nestas circunstâncias, tais autoridades estarão sujeitas ao escrutínio de outros, de modo a salvaguardar os interesses desses grupos em grande parte dependentes.
Voltemos, pois, à nossa questão primeira. Admitindo que conhecemos a vontade de Deus, temos o dever ético de a cumprir por ser de Deus ou por ser razoável? Creio que os dois motivos coincidem plenamente em Deus. Se tivermos em conta que Deus é a totalidade dos valores cognitivos, éticos ou estéticos, Deus não pode não comandar senão o bem. E porque conhece a totalidade da verdade, não pode comandar senão aquilo que a ela corresponde. Por isso, obedecer a Deus é acolher a verdade, o bem e o belo e torná-lo operativo na vida pessoal. Assim, cumpro a vontade de Deus porque é Deus que a comanda e, simultaneamente, porque só pode ser inteiramente razoável, uma vez que Deus não pode ordenar, dada a sua natureza, qualquer irracionalidade.
O problema coloca-se quando determinadas autoridades assumem a pretensão de serem as únicas intérpretes da vontade de Deus. Com tal subterfúgio, estaríamos assim submetidos a autoridades humanas — finitas e sujeitas a erro — por serem os únicos veículos autorizados da vontade de Deus. Foi este o drama da história multissecular das religiões, com todos os seus ódios, as suas guerras, as suas execuções, etc. Mas o problema, apesar de uma mudança no discurso público, ainda não está cabalmente resolvido. Por isso, pergunto-me quando chegará o tempo em que nenhuma autoridade — religiosa ou não — usurpará a Deus a verdade inderrogável. Nesse momento estaremos realmente disponíveis para ver Deus a partir da nossa humilde condição, excluindo a arrogância de nos julgarmos na posse da verdade e a prepotência de a querer impor aos outros, porque se não tolera que também eles tenham o mesmo acesso à verdade divina, derramada democrática e livremente sobre toda a humanidade.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.