segunda-feira, 18 de abril de 2011

Um ritual de iniciação


 
Há comportamentos cuja justificação não consigo entender. E para tudo encontramos justificações mais ou menos plausíveis, com o intuito de lavarmos a alma e expulsarmos dela o sangue que derramamos. Somos peritos no uso defensivo da nossa inteligência. Independentemente da validade dos argumentos, o que importa é convencermos os outros de que os factos por nós criados estão inscritos na natureza como uma espécie de destino inevitável. O que importa realmente é sermos persuasivos. Para que serve a verdade? A maior parte das vezes até empata! O que realmente releva é a verdade que cada um encontra quando responde aos seus impulsos — ainda que irracionais — e persuade os outros de que se comporta de acordo com valores aceitáveis ou não é mais do que o elo de uma cadeia cujo início se perde no tempo. A tradição e o seu peso são, em muitos casos, um argumento recorrente, embora de valor duvidoso.
Parece que numa qualquer ilha da Dinamarca há um ritual de passagem que os jovens cumprem desde tempos remotos. Junto à linha da costa, os golfinhos aproximam-se das pessoas sem outra intenção que não seja interagir com elas. Estes seres belos e inteligentes veem nos humanos uma espécie de vizinhança familiar. Em certas condições ficamos enternecidos com o seu afeto e amamos retribuí-lo. Contudo, nesta ilha dinamarquesa, chegado o tempo do ritual de investidura na idade adulta, os jovens tomam nas mãos objetos contundentes e esventram lenta e vorazmente os animais indefesos, deixando um rastro de sangue nas águas límpidas e azuis.
E afinal que diferença faz em relação ao que nós portugueses orgulhosamente fazemos, para gáudio de muitos, nas arenas de morte que servem de palco às selváticas touradas? Por mais que me expliquem, não entendo por que razão haveremos de continuar uma tradição que nos conspurca a consciência e avilta a condição humana. Houve tempos em que fazíamos tudo isto com seres humanos a quem não era reconhecida qualquer dignidade. Muitos juntavam-se para rejubilarem, enquanto as vítimas eram, sem piedade, dilaceradas. Quando, coletivamente, crescemos um pouco mais, banimos estes espetáculos, que tristemente ostentavam a brutalidade geneticamente herdada. Mas não fomos ainda capazes de perceber que não somos os únicos portadores de dignidade. Os seres que connosco convivem também são dela são portadores, cada um à sua medida. E se se justifica matarmos para garantir a nossa sobrevivência, não vejo que haja qualquer justificação para nos afogarmos num riso estúpido e insaciável perante o sofrimento de animais que partilham connosco o mesmo espaço na Terra.
Acordemos, pois, desta letargia que nos cala a indignação e gritemos tão alto quanto pudermos que toda a insensibilidade brutal é merecedora de reprovação ética, por desumana e desonrosa.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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