sexta-feira, 22 de abril de 2011

Sexta-feira Santa


 
A morte é talvez o maior mistério da existência. Nela se detêm todas as certezas. Ficamos nus, diante de nós mesmos, seres autênticos onde nada se esconde a quem somos. E se no percurso da vida podemos atrever-nos a ter certezas, a afirmarmos as nossas convicções como se fossem dados que a realidade nos oferece todos os dias, como o nascer do sol ou o movimento das plantas sob a força do vento, perante a morte cessam os dogmas e somos a nós mesmos humildes peregrinos da verdade, sempre esquiva, sempre além do que somos.
«Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?». É o desmoronamento das convicções sob o olhar inquieto do mistério da morte. E ainda no dia anterior, havia juntado à mesma mesa os seus amigos num banquete que prefigurava a plenitude da vida. Agora, era a plenitude do nada, fazendo definhar o fulgor simbólico que incendiara o dia anterior.
Depois o silêncio. O absurdo escavado numa rocha. Corpo de pedra que à terra havia regressado. E Deus calado no silêncio das horas.
Não tenho certezas, como acho que ninguém honestamente as pode ter. Mas há uma esperança que não cessa de penetrar nos escaninhos recônditos da alma e me diz que a vida não se detém na inércia da morte. Posso estar errado. Posso viver sob o vulto irreal de uma ilusão. Mas porque haveria de calar esse anseio profundo que me não abandona apesar da luxúria da noite?

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

Sem comentários:

Enviar um comentário