sexta-feira, 8 de abril de 2011

Pe José Comblin

 
No final de março passado, aos oitenta e oito anos, morreu o Pe José Comblin. Um homem notável pela coerência da sua vida e pela tenacidade com que defendeu até ao último suspiro o apelo libertador da opção pelos pobres.
Referindo-se ao Concílio Vaticano II, escreveu: «O Concílio pôs alguns alicerces, mas não construiu a obra. No entanto, um dia teremos de voltar ao evangelho tal como está nas origens do cristianismo» (José Comblin, Cristão Rumo ao século XXI).
Teólogo da libertação, teve se assumir algumas derrotas decorrentes da sua ousadia: a expulsão do Brasil durante a ditadura, a expulsão do Chile no tempo de Pinochet e, sobretudo, o trabalho consistente de desmantelamento da teologia da libertação levado a cabo pelo autoritarismo romano que muito temia a inovação das comunidades de base e a modernização dos seminários que Comblin procurou implementar.
Persistente, manteve-se fiel às suas convicções de uma Igreja cujo sentido se encontra no evangelho originário de Jesus e, portanto, na luta pela dignidade de todos, sobretudo, na luta pelo reconhecimento efetivo do direito dos pobres a terem um lugar à mesa da vida. Por isso, não pôde aceitar uma teologia da dominação, na qual Deus é invocado para sustentar o status quo, para manter os poderes instituídos, mesmo quando nocivos aos deserdados da Terra. Do outro lado do espelho, preconizava uma teologia da libertação que assumisse de uma vez por todas a voz dos sem voz, que direcionasse a Igreja para a única finalidade dela, que desinstalasse os poderes, mesmo eclesiais, que transformaram o serviço em autoritarismo, calaram as vozes incómodas dos profetas e combateram a pluralidade como ameaça à estabilidade do sistema por eles criado.
Mas Comblin, como muitos outros, semeou uma visão do cristianismo inteiramente consonante com o comportamento e a mensagem de Jesus. E porque a história não pode recusar o que a humaniza, há de produzir os seus frutos o trabalho deste teólogo incansável.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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