sexta-feira, 15 de abril de 2011

No abismo impenetrável do tempo

 
«(…) vaguear pelas ruas da cidade à procura de uma parte de mim que desaparecera (…) de uma pessoa que se perdera onde nos vamos sempre perdendo, no abismo impenetrável do tempo.» (João Tordo, Hotel memória).
Agora que nos aproximamos do tempo de Páscoa, é mais translúcida esta citação. Afinal, não é no abismo impenetrável do tempo que nos perdemos nós apenas, também Deus se perde no lugar do seu exílio. E que outra esperança nos resta se até o ponto de orientação absoluto se desencontra de si mesmo e se arruína no cimo de um monte, fora da cidade dos vivos? E contudo, a narrativa da vida teima em fazer-se num qualquer domingo, junto a um túmulo vulgar, ou junto à renúncia das trevas sem regresso. Também por aí passou o tempo, polindo os textos à medida dos medos e das esperanças, dos tormentos e da coragem desmedida, até ao tutano da escuridão inquieta.
Afinal, é a nossa própria condição. Condenados ao fracasso da vida, somos objeto da irrisão daqueles que connosco partilham o mesmo destino. Esperamos tão-só que uma mulher, ao romper da aurora, venha ao túmulo tratar o corpo que não regressa. E sejamos, então como outrora, confundidos com o jardineiro. E possamos passear pelo jardim da vida, como Deus fazia no Éden, antes de a cobiça humana ter estilhaçado a primitiva ingenuidade. Agora, lúcidos e doentes, caminhamos pelo tempo sem nos acharmos, à espera daquele encontro que tudo refaz.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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