domingo, 10 de abril de 2011

Deus e o universo


Em «A teoria de tudo. A origem e o destino do universo», Stephen Hawking, um dos mais conceituados físicos da atualidade, descreve vários modelos explicativos do universo, sendo cada um incompatível com os outros. No estado atual da investigação, ainda não é possível que os físicos se entendam sobre o modelo que explique melhor o universo, a sua configuração e as leis que o regem.
Mas o que surpreende é o facto de a hipótese de Deus ter sido posta pelo autor como explicação do universo, compatível com determinados modelos.
Assim, «o estado inicial do universo deve, na realidade, ter sido escolhido com muito cuidado para que o modelo do Big Bang quente esteja correto desde o princípio do tempo. Seria muito difícil explicar porque começou o universo precisamente desta forma, a não ser por um ato de Deus, que tenha querido criar seres como nós» (p. 94).
No modelo do Big Bang quente, o espaço-tempo tem uma fronteira, porque inicia a partir de uma singularidade com o Big Bang. Mas não tem de ser necessariamente assim. Nos modelos inflacinários, o universo, o espaço-tempo, embora finito, não tem quaisquer fronteiras. Funciona mais ou menos como uma superfície esférica: finita, mas sem princípio, nem fim. A Terra é o exemplo mais próximo de nós. Por mais que caminhemos ao longo da sua superfície, nunca encontraremos qualquer fronteira, qualquer início ou fim. E Hawking conclui: «A ideia de que o espaço e o tempo possam formar uma superfície fechada sem qualquer fronteira tem também profundas implicações no papel de Deus no universo. Com o sucesso das teorias científicas na descrição de eventos, a maioria das pessoas começou a acreditar que Deus permite que o universo evolua de acordo com um conjunto de leis. Ele não parece intervir no universo para quebrar essas leis; contudo, as leis não nos dizem como era o universo quando nasceu. Ainda teria de ser Deus a fazer o relógio voltar para trás e escolher o seu início. Desde que este tenha tido um princípio numa singularidade, podemos supor que o universo foi criado por uma entidade externa, mas, se o universo já contém tudo o que é necessário em si próprio, não existirá qualquer fronteira ou extremidade, e ele não será nem criado, nem destruído. Será, simplesmente. Que lugar haverá então para um criador?» (pp. 107-108).
Mais adiante (pp. 137-139), o autor coloca questões que, estando na fronteira da ciência com a filosofia, enquadram de outra forma o problema de Deus.
Num modelo de universo sem fronteiras, Deus não poderia ter escolhido as condições iniciais, uma vez que não houve início. Apenas poderia ter escolhido as leis de funcionamento do universo. Contudo, parece que apenas exista um sistema de leis, ou talvez um pequeno número, com coerência interna, que permita a existência de seres inteligentes. Logo, Deus não teria grande margem para escolher uma vez que as alternativas são escassas. A sua liberdade fica automaticamente limitada, se a sua intenção era que o universo contivesse as condições necessárias ao aparecimento de seres inteligentes. Ora, no que me diz respeito, penso que é exatamente por isso que a hipótese de Deus se torna mais premente. Numa infinidade de possibilidades de sistemas de leis, nenhuma conducente a seres inteligentes, só aconteceu a que permitiu tal existência, apesar da sua ínfima probabilidade. Tal estado de coisas parece-me ser um bom indício de que Deus tenha programado a realidade nesse sentido.
Outra questão, talvez mais fundamental, é perguntarmo-nos porque é que existe o universo tão racionalmente disposto, de acordo com modelos matemáticos complexos. «Porque tem o universo de existir? Ou será que existe um Criador e, se isso for verdade, será que Ele tem algum efeito no universo para além de ser responsável pela sua existência? E quem o criou a Ele?»
De acordo com o pensamento deste célebre físico, Deus enquanto hipótese de explicação do início do universo só parece ter razão de ser se e enquanto a ciência não encontrar outros meios de explicação internos ao universo. A conceção de Deus que está por detrás deste pensamento é a de um Deus tapa-buracos, um Deus que é necessário para ultrapassar os limites do conhecimento humano e só tem cabimento onde se aninha a ignorância das causas internas que expliquem os fenómenos.
Qual é o erro desta forma de pensamento? Creio que é o de identificar a natureza de Deus com a de um qualquer objeto interno ao próprio universo. Assim como explicamos o movimento de uma bola com o pontapé que alguém lhe deu, explicamos o início do universo pelo ato criador de Deus, uma vez que ainda não encontrámos forma de prescindir dessa hipótese explicativa, aparentemente externa ao universo. Na verdade estamos a usar Deus como uma causa explicativa ao mesmo nível de qualquer outra causa interna ao próprio universo. Ora Deus é — na hipótese de existir — um ser cuja natureza é totalmente diferente da do universo, não podendo, pois, a sua ação ser confundida com a de uma causa natural. Por conseguinte, quer seja mais correto o modelo que prevê o início do universo numa singularidade, quer seja mais correto o modelo de universo sem início nem fim espácio-temporal, nada disto interfere na questão da existência de Deus.
As últimas perguntas que o autor levanta são, por isso, bem mais interessantes e pertinentes. Já outros filósofos haviam posto a questão essencial: «Porque existe algo e não o nada?» Esta problemática prende-se com a natureza precária do universo: a sua natureza contingente. O universo não é necessário. Tal como nenhum dos elementos que o compõem o é. Podem ser ou não ser. Não incluem na sua natureza a obrigatoriedade da sua existência. Tanto é verdade que estão sujeitos à mudança, à corrupção, ao desaparecimento, etc. E se isto é verdade em relação a cada uma das partes do universo, porque não há de ser verdade para o universo enquanto totalidade?
Esta questão foi refletida por Desidério Murcho no seu livro «Filosofia em direto». Depois de mostrar não conhecermos a existência de objetos no universo que sejam necessários (ou seja, que não poderiam não existir), o autor pensa que a explicação da totalidade do universo está contida na explicação de cada uma das suas partes e a via mais satisfatória para o fazer é a via científica. Logo, se queremos saber porque existe o universo devemos dedicar-nos à investigação científica e explicar cada uma das partes que o compõem até termos uma explicação global que não é mais do que a soma das explicações parciais.
Tenho dúvidas sobre a capacidade da ciência de explicar a razão porque existem todos os objetos que compõem o universo. E não porque seja cético em relação à validade do pensamento científico, mas apenas porque sendo o universo globalmente contingente, ele parece precisar de uma explicação «exterior» a si mesmo. E é aqui que se enxerta a hipótese de Deus, enquanto absoluto necessário, cuja existência coincide com a sua essência, que não precisa de ulterior explicação porque é o princípio sem princípio, a origem última de todas as coisas, o fundamento de tudo quanto existe — claro, sempre na hipótese de existir. Deste modo, a existência do universo estaria explicada pela sua dependência em relação a Deus — como seu fundamento — e o problema está em clarificarmos o tipo de relação que Deus tem com o universo.
Sendo Deus uma realidade inteiramente distinta de todas as outras (o Totalmente Outro), não pode ser confundido com o universo ou com um objeto qualquer interno ao cosmos, nem a sua ação pode ser confundida com a ação que os objetos exercem uns sobre os outros. Está, portanto, posta de parte a possibilidade de explicarmos fenómenos concretos interiores ao universo a partir da ação de Deus, sejam eles milagres ou outros eventos cuja causa natural nos é desconhecida.
Mas será Deus totalmente alheio ao universo? Não me parece possível, porque se é o absoluto, tem de conter em si a totalidade das coisas existentes. O universo só pode existir em Deus, enquanto sua manifestação finita. Torna-se assim compreensível que o universo seja tão matematicamente organizado, se reja por leis tão estritas e tenha, a partir do Big Bang, as condições ideais para que surjam seres inteligentes que possam pensar-se a si mesmos, pensar o universo e pensar Deus. É evidente que, no âmbito desta conceção, perguntarmo-nos quem é que criou Deus não faz qualquer espécie de sentido.
Deus permanecerá sempre um mistério, por ser a sua natureza tão distinta da natureza das coisas contingentes. E, por mais que procuremos explicá-la, a sua relação com o universo será sempre um enigma por decifrar. Todas as nossas teorias são aproximações, não explicações acabadas. Resta-nos apenas a humildade de quem se põe a caminho mesmo sabendo que o seu contributo será sempre modesto e precário.

Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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