segunda-feira, 25 de abril de 2011

Abril de outrora, abril futuro



No meio de um arrastão económico, financeiro e social, o vinte e cinco de abril de mil novecentos e setenta e quatro é de novo comemorado. Mesmo descontando todos os excessos que se lhe sucederam, não há dúvida de que a revolução pacífica nos trouxe um dos aspetos mais importantes da história humana pessoal e coletiva: a liberdade vivida no contexto do princípio da igualdade entre todos os cidadãos. Se mais não tivesse sido, já estava justificada a rebelião dos capitães que depuseram um regime decadente, inflexivelmente ligado a uma conceção megalómana do país, inteiramente alheia à realidade. Mergulhado numa guerra sem fim, perdida a prazo por não corresponder a nenhum princípio de justiça, o despotismo mutilara uma geração de portugueses, condenando-os à ignorância e à pobreza.
O regime democrático, decorrente da revolução, não recuperou apenas a liberdade, mas transformou também em direitos sociais aquilo que a geração anterior nem sonhava ser possível obter.
E é natural que, num mundo em mutação drástica, rumo a um neoliberalismo desregrado onde parece vigorar a lei do mais forte, muitos se indignem e insurjam contra as manobras políticas e económicas que pretendem desferir golpes fatais sobre os direitos que sustentam o chamado estado social. Talvez nem todos os direitos possam manter-se num mundo globalizado que funciona a partir de outras regras. O Estado não pode gastar mais do que consegue obter em receitas. Contudo, fica-nos a perceção de que, no caso português, grande parte do descalabro do estado social provenha do desgoverno a que temos sido sujeitos durante as últimas décadas. Gastos desmesurados com obras públicas de duvidoso interesse permitiram a descapitalização do Estado e o seu endividamento, já para não falar nas insanas despesas internas do próprio Estado.
Hoje, a indignação é grande porque, uma a uma, se veem definhar as conquistas que abril nos trouxe. E não admira que uma geração sem emprego, vendo a sua situação pessoal e familiar ser adiada sem prazo à vista, se sinta defraudada nas expetativas que os seus pais lhes criaram. O que fazer então? Creio que manter viva a chama de um sonho em parte por concretizar, resistir a toda a capitulação que outros propõem e, com lucidez, lutar por valores em que se acredita será a melhor forma de tornar sustentável, a médio ou longo prazo, uma sociedade onde todos tenham lugar e a exclusão seja definitivamente banida. É um sonho inalcançável? Não creio. É, sem dúvida, um sonho, mas torná-lo possível está nas nossas mãos, no investimento que fizermos para o tornarmos presente e na capacidade de mobilizarmos os outros para a sua realização. Abril há de ser a via que iniciámos há trinta e sete anos mas cujo termo estará sempre na linha do horizonte. E entretanto, trabalhamos para que o comboio da vida nos conduza até onde for possível. Outras gerações irão além e nelas manteremos vivo o sonho de um mundo autenticamente fraterno no qual a exclusão de um só é já motivo para nos sentirmos todos um pouco excluídos.


Este texto foi escrito ao abrigo do novo acordo ortográfico.

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